Entrevista #04: Renato Forin — parte I

Renato Forin autor de Samba de uma noite de verão, premiado com um Jabuti em 2017| Foto: Ana Istschuk

Essa entrevista é com o escritor ibiporanense Renato Forin, autor de “Samba de uma noite de verão”, seu livro que ganhou o prêmio Jabuti em 2017 na categoria Adaptação. O autor também é dramaturgo, canta e atua em outras áreas da cultura. Ele nos conta como foi se descobrir escritor, seu processo de escrita, sua obra, entre outros assuntos.

Trajetória com a escrita

Como o ato de contar histórias entrou na sua vida?

Desde muito cedo, só que isso veio de uma reflexão de quando eu era mais maduro: eu comecei a pensar e questionar na minha vida, o porquê eu era apaixonado pela literatura e pelo teatro e pelas histórias em maneira geral, sendo que a minha casa não era uma casa que tinha muitos livros. Meus pais não tem uma formação universitária, eles têm o ensino bem básico. E pensando bem nisso eu cheguei a conclusão que é pela convivência muito cedo com a palavra, com as narrativas que não passavam pelo livro. A minha mãe era costureira, o meu pai começou a vida como pedreiro e depois ele abriu um bar. Todos esses universos de convivência, sobretudo em uma periferia de uma pequena cidade, propiciava uma existência que era fantástica e fantasiosa. As histórias que todos contavam ao pé da máquina de costura ou no final do dia quando os trabalhadores voltavam e batiam um papo no bar. Tudo isso permeava a minha vida. E como não dizer que isso não é uma vivencia também poética-literária? Depende do olhar que você lança para essas coisas.

Existia um toca disco que era um objeto pelo qual eu sempre fui muito fascinado. Ficava no quarto da minha irmã. E a minha irmã não deixava eu mexer nele, claro. Ela colecionava discos. Só que quando ela saia de casa eu ia lá e fuçava em tudo. Ela é mais velha. Esse quarto da minha irmã está na minha vida como uma caixa de brinquedo que me transformou no que eu sou, de alguma forma. Minha família em geral escutava meio que de tudo: desde o disco na novela Tieta, passando pelo sertanejo até o Chico Buarque, Caetano e tudo mais. E minha irmã tinha um gosto muito particular pra música brasileira. Foi no quarto dela que eu encontrei, por exemplo, o disco da Maria Bethania que mudou minha vida que nem era um disco de carreira […]. Era um disco de coletânea e quando eu peguei e ouvi aquela voz na Maria Bethania foi uma coisa de sereia, o Odisseo capturado pela sereia. Eu passei a estudar a obra da Bethania, no mestrado e no doutorado também.

Eu fuçava também nas apostilas de vestibular dela e foi nelas que eu descobri esse texto que tem uma forma diferente que não ocupa o todo da página e deixa espaço pro pensamento: que é a poesia. Eu lembro até hoje de ler nessas poesias pré-vestibular Castro Alves e eu era muito, muito novo e aquilo me capturava de um jeito e eu achava aquilo tão lindo. Navio Negreiro, por exemplo, eu li pela primeira vez naquela apostila. Ela nem sabia disso porque depois eu guardava e deixava lá no lugar. Mas esses são elementos da minha lembrança que eu posso identificar como importantes e que eu posso levar aos caminhos que eu sigo hoje em dia.

Eu acho que a poesia e a literatura a gente não pode focar apenas no livro, mas nas vivências poéticas que a gente tem na vida. Inclusive porque a literatura não nasceu no livro. Se a gente for pensar na história da literatura, ela nasceu na voz. Até existia a letra, mas ela não era um código de acesso a todos então tudo era feito a partir dessa metrificação desses sons. Tudo isso, inclusive, contribuía para a memorização então os textos precisavam ser sonoros, precisavam ser musicais. Então dessa forma a poesia começa, se a gente pensar no mundo ocidental. Se a gente pensar mais amplamente, a partir do momento que as pessoas se reuniram em torno de uma fogueira e começaram a contar histórias. Claro que [o papel] é um objeto fabuloso que guarda as palavras, mas a gente precisa sempre pensar a vivencia poética também para além do livro. Eu acho que isso sobretudo para os brasileiros em que a gente tem a produção nacional mais importante do mundo reconhecidamente, não sou eu que estou falando, são especialistas. E alguma coisa acontece nesse lugar para que isso aconteça, para que a gente faça alta filosofia, alta poesia em canções que são cantaroladas na rua enquanto a gente está na hora do almoço. Imagina, cantar um Caetano Veloso ou um Chico Buarque. É isso, eu acho que são esses elementos que me levaram para a literatura

E a escrita literária mesmo, como ela surgiu na sua vida?

Pergunta difícil, porque a gente tem aquelas bobagens de sempre desde muito cedo. Eu acho que todo mundo escreve coisas e guarda na gaveta. Coisas que não tem qualidade e elas ficam lá guardadas. Mas [saber como a escrita surgiu] é muito difícil… Nossa é difícil mesmo, eu não sei. Porque é uma coisa que faz parte da minha vida desde esse momento que eu descobri as coisas. É uma coisa indissociável: conhecer a poesia e ao mesmo tempo produzir a poesia ou produzir a literatura. Eu sempre fui um menino muito estudioso na escola. Eu gostava mesmo de estudar. Era uma criança bem solitária, mas meus brinquedos sempre estiveram relacionados a objetos artísticos e a literatura. Então, sempre escrevi também. Eu não sei te falar quando foi o momento. Agora levar isso para fora da gaveta que eu acho que é o passo determinante no caminho de um escritor. Eu acho que ali é a virada, você ter essa coragem. Porque é também uma coragem, é uma grande coragem você pensar nos grandes escritores e como aquilo é um desnudamento da vida. A literatura é um desnudamento da vida. Ser uma Clarisse Lispector, por exemplo, expor tudo que é a imensidão de ser humana. Mas não é a partir de uma visão, um olhar sobre o outro. Você só consegue escrever a partir de uma visão sobre si, portanto eu acho que é um desnudamento total e geral.

E assim, eu posso colocar como um marcador depois que eu termino o jornalismo. No caminho literário, depois que eu termino o jornalismo que eu tenho uma consciência maior que os textos estão diferentes e que, sim, isso é um texto de teatro, isso é um texto que tem um viés artístico e isso é um texto jornalístico. Colocar as coisas nos seus lugares. E começa isso com o ‘Samba de uma noite de verão’. Ele foi escrito em 2008, na verdade. Faz bastante tempo, claro que eu fui depois trabalhando o texto ao longo de todo esse tempo, mas ele foi escrito naquela época. Então, meu primeiro texto que vai para a cena é também o meu primeiro texto que vira livro.

Obra(s)/Obra(s) e recepção do público

Você poderia falar um pouco sobre o livro “Samba de uma noite de verão?” Você escreveu em 2008 e lançou em 2016, por que esperar tanto tempo?

Esse livro nasceu de uma maneira bem particular e bem diferente dos meus processos de hoje. Eu fazia a escola de teatro em Londrina e nós íamos montar o “Sonho de uma noite de verão”. Quando eu li, essa peça me pareceu muito brasileira porque eu já estudava desde então a coisa da mitologia dos orixás e gostava muito das religiões africanas. E o Shakespeare usa a mitologia grega e os deuses são muito parecidos. Eles têm características humanas, características para o bem e para o mal. Fora isso, os amores tropicais, aquela coisa das trocas de casais muito loucas que Shakespeare usa na história. Aquilo me parecia muito brasileiro. Então eu tive a ideia de ambientar essa peça em uma comunidade e trabalhar metáforas da formação do Brasil a partir das nossas raízes e matrizes étnicas. Eu fiz essa proposta para a nossa diretora da época, a Edna Guiar, e ela falou “vamos fazer”. E eu comecei um processo longo de pesquisa. Foi uma pesquisa de mais ou menos um ano para encontrar personagens e situações que fossem paritárias as de Shakespeare só que dentro do contexto brasileiro. Lendas indígenas, personagens da nossa tradição, sejam tradições literárias ou tradição cultural mesmo, quase etnológica do Brasil, e essa coisa sobretudo da mitologia africana que eu passei a ler muito mais. E ele nasceu assim, eu passei a construir ao longo de um ano.

Em 2009, a peça estreou no final do ano e eu a deixei guardadinha lá na gaveta. Foi uma temporada grande, era uma peça que tinha uns oito personagens e tinha banda também, era uma peça bem grande. Mas eu guardei esse texto porque me parecia que ele tinha um potencial muito grande pelo fato de ser leve, ser uma comédia, mas o mesmo tempo trabalhar temas do Brasil, temas importantes, sobretudo para jovens adolescentes para incentivar a leitura do texto dramático que é praticamente inexistente no mercado editorial. Eu queria fazer um CD, o livro fala o tempo inteiro de canções. Então esse projeto era muito grande, eu não queria lançar um livro qualquer, mas um livro que tivesse todos esses elementos e que servisse ainda como uma obra paradidática. Então ao longo desse tempo foi que eu fiz ajustes nele, fiz muita pesquisa sobre expressões idiomáticas, fiz mudanças no texto e criando também essas novas canções que foram interpretadas por cantores de Londrina quando o livro foi lançado. Ele vem encartado no final. Fora isso o livro traz também partituras. E justamente, são partituras simples, para que alunos e estudantes das escolas possam tocar essas músicas e para que eles possam fazer leituras dramáticas dessas músicas e que de fato pudessem fazer desse objeto que não ficasse só lá na biblioteca, mas que pudesse circular, fazer essa palavra circular entre essas pessoas. Ele tem também um posfácio que é de duas professoras da Universidade Estadual de Londrina que serve como uma espécie de guia para professores. Assim o livro tem vários textos e eu queria que ele chegasse nesse resultado. Então por isso tanto tempo.

E um outro motivo, esse bem prático, é que ele não passava nos editais. A gente tem um programa municipal de incentivo de cultura em Londrina que é um programa bem antigo, bem conhecido e eu mandava. Eu mandei um ano e não passou, dois anos e não passou, três, quatro e não passou. Ele passou no último, no quinto. Então, obstinação pessoas que querem que seus projetos passem nos editais. Porque a gente está na mão de comissões e as comissões avaliam que esses projetos não são importantes ou que eles não são relevantes, ou que existe coisa melhor, mas é preciso ter obstinação porque uma obra com essa configuração: com capa dura, com ilustrações, tem também os grafites aqui que são meus e com o CD principalmente. Tudo isso onera muito o produto. Tudo isso é muito caro, então uma editora não faria esse livro, mas uma lei de incentivo faz e tem obrigação de fazer justamente para que seja um produto importante para professores, estudantes. Tanto que ele foi distribuído como contrapartida para todas as escolas do município. Os professores trabalham muito esse livro nas escolas. O processo foi mais ou menos esse e a demora está justificada por essas questões, mas eu disse que é um processo bem diferente dos outros que é de juntar pedaços e a partir de inspirações. Isso vem de pesquisa mesmo, não é uma coisa de iluminação. Claro, a ideia inicial vem de uma iluminação, de uma inspiração, mas ele tem uma coisa de pesquisa muito forte.

Como foi sua reação ao saber da premiação do Jabuti?

Como foi sua reação ao saber da premiação do Jabuti? Um susto! Foi um susto mesmo, porque primeiro que eu nunca foi ligado nos prêmios literários então não sabia muito bem como eles funcionavam, mas sempre que eu via o Jabuti eu tinha a impressão de ser uma premiação que era atribuída a grandes autores de grandes livros de grandes editoras até porque ele tem um apelo comercial muito grande. Você ter um livro com esse selinho do Jabuti ele ganha nas livrarias um status diferente, ele vai para a vitrine e tudo mais. Eu sempre imaginei que fosse uma coisa mais ou menos desse star-system do mundo literário, mas fiz minha inscrição pra ver no que dá. Isso foi no ano de 2017. Eu lancei ele em dezembro de 2016. Mandei lá, mas até esqueci e estava, em agosto e setembro, na loucura do Festival de Dança que é um tempo que eu não durmo e só trabalho. Tem que escrever catálogo, tem que fazer a curadoria, muita coisa para fazer. E entre essas noites mal dormidas eu recebi um e-mail de um professor da época de jornalismo [na UEL] que tinha sido meu orientador e ele falava “Renato, eu vi aqui, eu estava na internet e vi aqui que seu nome está entre os finalistas do Jabuti. Parabéns” e eu falei “o que?” e aquilo me parecia meio que um sonho porque eu estava a tanto tempo sem dormir, fazendo aquelas coisas, sem tempo e eu falei “gente, que coisa louca. O que esse homem está falando?”. Entrei no site do Jabuti e estava lá o meu nome, porque eles divulgam uma lista com os 10 finalistas de cada área e o meu nome estava lá. Esse livro estava concorrendo na categoria de ‘adaptação’. E estava lá meu nome junto com o nome do Walcyr Carrasco que estava com uma novela super bombada na época, ‘No outro lado do paraíso’. Cara, eu falei “que inacreditável”. E a gente não tem muita noção exatamente por estar em uma cidade do interior e por ser uma pequena editora e tudo mais. Eu comecei a saber um pouco mais sobre o Jabuti e vi que é um prêmio muito, muito, sério. Não é a toa que eles dão visibilidade de fato muitas vezes para essas obras porque eles pegam o texto e analisam. Não é uma coisa que tem a ver com o tamanho da editora e com essas coisas. Tanto que no ano passado [2018] o Jabuti vencedor foi de uma cidadezinha do interior do Nordeste, um livro chamado “Cidade” e um cara que imprimiu ele mesmo as cópias do livro e distribuiu ele mesmo, e ele ganhou o primeiro lugar. É um prêmio muito importante, um prêmio que precisa ser respeitado e ele faz jus ao nome que ele tem por isso. E eu vim a descobrir somente quando eu fui contemplado. Aí eu avisei todos os meus amigos jornalistas, “aproveitem para fazer matéria porque [estar entre] esses 10 lugares já está ótimo pra mim. Já está no topo da minha vida”. Daí saíram as matérias lá com “londrinense é finalista no prêmio Jabuti”. Passou um tempo e eu juro por Deus que eu não acreditava mesmo que eu pudesse estar entre os premiados. E estava lá, saiu o resultado e eu fui premiado em terceiro lugar junto como Walcyr Carrasco para a alegria da minha mãe noveleira. Foi um susto assim, obviamente uma alegria indescritível. A vida vira do avesso, porque eu nunca pensei em ter essa vida que eu tenho de dar palestras assim, inclusive eu sou extremante tímido. No palco é outra coisa, você tem um roteiro a ser cumprido, mas participar de bate-papo, dar oficinas eu nunca pensei mesmo. E foi a partir do Jabuti, foi o Jabuti que abriu portas para que isso acontecesse.

Então foi um prêmio muito importante, claro que tem essa questão da alegria que foi quase egoísta. Uma alegria individual boa. Mas também foi uma alegria coletiva na cidade e isso me deixa ainda mais feliz. Porque nós estávamos vivendo em 2017 um processo que se agravou muito que é de criminalização das artes, de perseguição da vida intelectual e artística desse país. As leis de incentivo são colocadas o tempo inteiro em cheque, como se elas não precisassem existir, como se fosse coisa de vagabundo – que esse é o termo que se usa: que artistas são vagabundos porque eles não trabalham nada e eles recebem muito. Eu trabalho na área cultural a muito tempo e eu não conheço do meu círculo de convivência nenhum artista que não tenha que trabalhar três vezes mais que qualquer pessoa comum. Quase sempre porque eles precisam ter um emprego e depois, que obviamente essas leis de incentivo publicam, patrocinam o produto em si e não patrocinam vidas de luxo e de requinte. Então as pessoas precisam entrar em um terceiro turno numa sala de ensaio ou então ir para a frente do computador e escrever e precisam dessas leis de incentivo para publicar, para fazer com que possam comprar cenário, possa publicar um livro. Então é uma vida muito árdua, quase um sacerdócio no país que a gente vive. Eu posso dizer isso com convicção porque já estive numa experiencia na Franca, por exemplo, e vi como o artista lá é valorizado e como ele pode transformar isso em uma profissão. E isso não acontece nesse país [Brasil] que quase sempre os artistas precisam ter uma vida duplas e triplas. Mas a gente estava em 2017 no início desse movimento, que é sobretudo um movimento político, não só ideológico, mas também político, político-partidário até. É muito específico de criminalização e de tentativa de colocar a arte como uma espécie de vagabundagem, como uma espécie de vida fácil e essas leis são colocadas em xeque. Então, quando eu ganhei esse Jabuti foi uma espécie também de conquista coletiva, não da classe cultural, mas da cidade que fez com que a gente valorizasse – está vendo como é importante que a cidade tenha uma lei de incentivo como essa e como mirrados e pouquíssimos recursos conseguem levar o nome de Londrina para o Brasil inteiro e até para o exterior dependendo dos projetos. O nome de um londrinense sai no Estadão, sai na Folha de São Paulo, ele está lá em São Paulo no Ibirapuera, o nome dele está sendo dito pela Marília Gabriela, que tem que ir por esses meios para conversar com algumas pessoas. Portanto foi também uma entrevista coletiva e isso me deixa muito feliz. E eu sempre falo que a premiação maior que a tartaruguinha é o fato de que a partir de então esse livro foi distribuído nas escolas e na época eu mandei pelo Núcleo de Educação um recado dizendo que eu estava disposto a ir nas escolas falar sobre o livro ou falar um pouquinho sobre as artes e tudo mais. E eu nunca fui convidado por nenhuma escola, porque a gente sabe também que os livros muitas vezes vão para a biblioteca e lá ficam. Pouquíssimas pessoas têm curiosidade e vão lá pegar, mas depois do Jabuti eu comecei a receber muitos convites e vou voluntariamente com o maior prazer nas escolas falar com os alunos, falar sobre essas questões que são colocadas e reflexões sobre o Brasil e a nossa formação, sobre a importância da cultura africana e negra na nossa formação, sobre a questão da mitologia dos orixás. Desmistificar um pouco essas questões que são colocadas no universo muito nebuloso na nossa formação. Tenho muito prazer de ir nas escolas. Desde então pude também encontrar muitas pessoas, muitos alunos de escolas públicas e contar um pouco dessa minha história […] para que eles acreditem que eles podem. Que todos nós podemos. Acho que é isso, o Jabuti mobilizou tudo isso na minha vida e não é pouca coisa. Não é simplesmente um troféu e não é simplesmente uma alegria individual, boba e egoísta. Ela significa muito mais em termos coletivos, em termos do que isso pode ser na vida de outras pessoas. E isso acontece sobretudo quando o prêmio vai para uma cidade do interior e para um lugar aonde a cultura quase sempre é colocada em xeque.

Você falou da importância de o prêmio ir para cidades do interior e livros publicados por pequenas editoras. Aqui em Ponta Grossa temos um movimento crescente de autores publicando seus conteúdos por editoras pequenas. Ao seu ver como esse movimento, fora de um mainstream literário pode influenciar um jovem ou a pessoa que tem um sonho de publicar um livro?

Olha eu acho que é o único caminho que a gente vai passar a ter no atual contexto. A gente está vivendo uma crise acentuada no mercado editorial no Brasil, uma crise nas livrarias. A gente está vendo fechamento de redes e tudo mais porque de fato é um novo tempo. Estamos vivendo uma fase de transição que é inédita, uma realidade que a gente não sabe muito bem como viver com ela e como agir. Primeira coisa é a deflagração das redes sociais e com a internet o texto que é digital. Isso é um processo sem volta e eu percebo que é justamente nesses pequenos espaços, nas pequenas editoras e também nas pequenas livrarias um pouco mais alternativas que a gente tem espaço para encontrar os nossos grupos porque acaba sendo uma coisa também restrita. A pessoa que gosta de determinada literatura vai nesses espaços e compartilha, às vezes ela também escreve então acaba sendo uma espécie também de ciclo. Por um lado, isso não é ruim porque o mercado editorial também é uma selva. Não sei se vocês sabem, mas tem uma informação assim de que foi divulgada que num contrato assinado de um escritor com uma grande editora 10% de um preço de capa de um livro vai para um escritor, que é pessoa que só concebeu tudo aquilo, 50% fica com a livraria e esses outros 40% são empregados nos custos de impressão e editoração e tudo mais. O escritor em si que é o artista, que tem um papel fundamental e iniciador de tudo isso, é quem fica com a menor fatia dentro desse star-system desse mercado editorial. São também alternativas essas editoras menores que a gente pode ter um processo primeiro um pouco mais inclusivo a diferentes tipos de literatura porque a gente tem muitos gostos, muitas formas de escritas e muitos gêneros. […] E por outro lado também para que seja um espaço um pouco mais democrático para que o escritor seja valorizado. Eu não acho esse movimento ruim, não fico lamentando aos quatro ventos de que “nossa, o livro está acabando” porque acho que cada vez mais ele vai ser um produto para pessoas que reconhecem o seu valor de fato e que querem aquilo. Agora é claro que a gente não pode deixar que a cultura também fique restrita só a esses espaços dos guetos. De novo, um movimento grande no país quer fazer com que isso aconteça porque isso também é um processo de alienação, de eliminação da vida pensante no país e isso é um movimento que a gente precisa sempre lutar contra, mas as formas de se fazer arte, de se fazer cultura vão cada vez se transformar. E a gente precisa se adequar aos novos tempos.

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