Entrevista #04: Renato Forin — parte II

Renato Forin autor de Samba de uma noite de verão, premiado com um Jabuti em 2017| Foto: Ana Istschuk

Essa entrevista é com o escritor ibiporanense Renato Forin, autor de “Samba de uma noite de verão”, seu livro que ganhou o prêmio Jabuti em 2017 na categoria Adaptação. O autor também é dramaturgo, canta e atua em outras áreas da cultura. Ele nos conta como foi se descobrir escritor, seu processo de escrita, sua obra, entre outros assuntos.

Produção e processo de escrita

Você tem um processo de escrita? É algo mais de inspiração ou rotina?

Não, até por isso eu estava comentando que eu nem me sinto muito confortável com a designação “escritor”, porque eu sei que há pessoas que se dedicam muito a isso, que acordam em determinado horário, sentam na frente do computador, pensam, têm um processo de elaboração que é uma rotina de trabalho mesmo. Eu nunca tive isso, eu não tenho paciência para fazer esse tipo de coisa. Qual é o meu processo se eu tiver que desenhar um processo? Primeiro que é muito caótico, mas é a partir de iluminações que eu tenho ao longo do dia que eu sempre anoto, ou no bloco de notas do celular ou no papel que estiver ao alcance das mãos e eu vou guardando tudo isso sempre em uma caixinha.

A arte me inspira muito, então quando eu estou vendo um espetáculo de teatro quase sempre eu tenho muitas iluminações nesse sentido, ou quando eu estou ouvindo uma canção. É como se as coisas conversassem de alguma maneira e sobretudo quando eu estou em um processo de criação. Por exemplo, preciso escrever o ‘Samba de uma noite de verão’, eu preciso escrever hoje, eu tive essa ideia […]. Ao longo desse intervalo de tempo, de criação eu tenho esse processo de escrever em papelzinho e guardar tudo isso. Chega um determinado dia, que demora um pouquinho, que eu sento e começo a organizar todos esses materiais e a costurá-los. Tem muito a ver com o meu processo essa coisa da costura, de colocar no papel muitos trechos que são poéticos, mas também inspirações de cena: um pensamento a respeito de uma imagem que pode surgir em cena e que pode de determinada maneira nos levar para outros lugares no palco. Engraçado que quase sempre os meus pensamentos literários têm relação com o teatro. Por isso eu digo que eu gosto muito mais de ser chamado de “dramaturgo” porque a minha escrita é quase sempre tem o objetivo de ser incorporada, de ganhar voz e ganhar corpo. Seja através de uma leitura banal, como aquela que eu faço, seja através de um grande espetáculo de teatro que tem cenografias, figurinos e tudo mais. Mas eu imagino sempre menos minha literatura no livro do que no corpo. Isso é uma coisa bem particular.

E qual a sua expectativa para o consumo do texto dramático? Geralmente as pessoas não compram um livro de dramaturgia só pela leitura…

Eu não sei, eu acho que as pessoas não leem tanta dramaturgia porque elas não começaram a ler dramaturgia de alguma maneira como elas leem romance e poesia. Porque é um gênero muito interessante, a estrutura propriamente dita de falas de personagens sem a interferência de um narrador ela abre uma margem de invenção muito maior na cabeça do leitor. Eu gosto da dramaturgia por esse motivo. […] Mas eu acho que é um gênero fabuloso, mas claro, ele exige muito mais também do leitor. Não pode ser comparado a um romance, por exemplo, que você tem as coisas um pouco mais prontas, você tem um narrador que descreve coisas. Claro que existem muitos romances, e romances líricos que também tem ambiguidades e trabalham com a figura de linguagem, mas o gênero dramático eu acho que ele é fabuloso justamente por isso. E ele tem também essa questão de estar ligado a outra forma de arte.

Hoje eu vejo que temos tido o surgimento de algumas editoras que são, é quase uma revanche isso, mas que só publicam textos dramáticos ou que tenham no texto dramático o seu principal catálogo e tenha alguns outros também. São editoras que investem em textos que estão encenados e fazem essa venda na porta do teatro porque as pessoas querem levar para a casa essa reflexão que elas acabaram de ver e lembrar de como foi esse espetáculo. E o que sobrevive do teatro nesse sentido é esse objeto, é o texto publicado. Eu não sei, apresentando uma outra visão para essa sua pergunta eu acho que tem essa revanche das editoras que estão só pulicando textos dramáticos porque as pessoas estão descobrindo que o texto dramático pode ser um objeto muito interessante para pensar as relações com o teatro, mas também para ler a partir dessa perspectiva de uma margem maior de imersão do próprio leitor que eu acho que ele deve ser entendido a partir desse viés que é completamente diferente da poesia e também do romance.

Você comentou que o teu processo tem a ver com anotar, guardar e buscar depois as ideias para costurá-las. Como é revisitar essas coisas que você anota? Você se surpreende? Você lembra das coisas que você guarda?

Geralmente, como esse processo é com um intervalo de tempo não muito longo eu me lembro delas, mas elas sempre abrem caminhos para novas possibilidades porque a gente se transforma o tempo inteiro. Eu me surpreendo lendo comigo mesmo no sentido da transformação de como eu sei que amanhã eu vou ser uma pessoa completamente diferente de hoje e como hoje eu sou completamente diferente de ontem. Sabe aquela coisa que acontece, acontece comigo e deve acontecer com vocês, de ver aquelas lembranças do Facebook e você fala “meu deus. Quem era esse? Que vergonha!” é tipo isso. A gente se transforma muito e eu, particularmente, em espaços curtos de tempo. Não que eu me surpreenda, mas esses escritos abrem caminho para novas possibilidades.

Novos projetos

Aproveita para falar um pouco sobre esse novo projeto do “Ovo”. Quando vai lançar? Como está sendo o processo?

Eu vou falar um pouco do que é o enredo dele. É a história de dois irmãos, Édipo e Elétrica, que foram criados no sítio de um Brasil arcaico em um ambiente rural e eles se encontram depois de um tempo no ambiente urbano. A peça promove um pouco dessas viagens entre mundos. E a Elétrica sai do sítio e vai até a cidade aonde Édipo está exilado justamente para dar a notícia a ele de que a mãe está morrendo. Que a mãe vai morrer. E a notícia para Édipo que é apaixonado pela mãe jamais quer ouvir, é a pior notícia que ele pode ouvir na vida dele. E a partir desse encontro desses dois nesse ambiente urbano que começam a rever todo um passado e começam a relembrar [silêncio].

É engraçado a questão de relembrar, tem a ver com o passado, mas também com as projeções de futuro. O que vai ser nosso futuro a partir desse passado e desse presente que a gente está vivendo. E eles descobrem obviamente essa relação conflituosa entre irmãos que nascem de um apego desmedido da Elétrica pelo seu pai e do Édipo pela sua mãe e obviamente uma rivalidade entre esses irmãos e ali eles descobrem os processos de exploração dessa mãe por esse pai e uma série de questões que tem muito a ver com aspectos psicanalíticos e complexos.

É uma peça extremante lírica, é um texto que em algum momento chega a ser quase bíblico porque ele é um texto literário mesmo, assim nem cabe direito na boca dos atores. Não é um texto cotidiano, corriqueiro como esse [Samba para uma noite de verão] é. É um texto lírico mesmo. E ele é desenhado dessa forma intencionalmente para que de fato seja uma poesia para ser ouvida o tempo inteiro e que fale mais, que conte mais da história desses dois irmãos, mas que conte a história das nossas próprias vidas. Da vida individual de cada um.

Ele tem muitas características do teatro contemporâneo de fragmentação dos personagens tanto que é como se os atores se conversassem o tempo inteiro. Em determinados momentos eles falam como entidades como atores e em determinados momentos eles falam como personagens, mas ao mesmo tempo não existe limite do que é o ator e o personagem. Que eu sei que eu sou o tempo inteiro esse Édipo e eu sei que você é esse tempo inteiro a Elétrica. Entende? Isso não está separado de acordo. O público não sabe em que momentos é o ator está falando e que Édipo está falando e isso vai se confundindo ao longo do de uma hora e meia ao ponto de as pessoas de fato acreditarem que eles são, que essas entidades todas de fato nos habitam.

Eu até falo isso no texto, quantas Elétricas tomam e servem cafés nas padarias, de olhar determinado?! Esses mitos que são trágicos, que são gregos, que são do século VIII a.C., convivem com nós, convivem dentro de nós. E é a coisa mais potente nesse sentido.

Mas o texto fala o tempo inteiro da passagem das pessoas pelas coisas, do desaparecimento de uma família, que é uma história tal qual todo mundo, todos nós estamos sujeitos. É basicamente isso a trama.

[…] Ela é uma peça concebida para pequenos públicos então a gente trabalha geralmente com 100 pessoas em uma arena circular e as pessoas estão muito próximas da gente. A peça se passa dentro do escritório onde Édipo trabalha, só que ela se passa dentro de um galinheiro, que o espaço de memória onde eles brincavam na infância. A gente tem sonoplastia que fazem referência a um escritório, a um centro urbano, só que eles estão esse tempo inteiro nesse galinheiro com o palco recoberto com palha de arroz, pintinhos vivos, cercados por blocos de madeiras e coisas assim. A gente começa só com três caixas de madeira e esse espaço todo se transforma na frente do público. Um céu nublado começa a passar porque a morte dessa mãe acontece no momento que esse céu está muito nublado e eles ficam esperando uma chuva que não chega nunca e só chega no final do espetáculo…

Enfim, é basicamente isso. Essa peça estreou… os meus processos são sempre, muito, muito longos. Eu acho que eu comecei a escrever em 2013, ela estreou em 2015, a gente já cumpriu mais de 30 apresentações e foi em 2017 que ela ganhou os prêmios literários do Pará, ganhou o primeiro lugar lá em dramaturgia. Eles trabalham com ensaios, romances e [Ovo] foi o primeiro lugar geral e o primeiro lugar de dramaturgia e a premiação desses prêmios literários é a publicação do livro. Então eles farão essa publicação agora que será em agosto na feira literária Pan-Amazônica, vocês são jornalistas e estão dando em primeira mão essa informação que eu soube em pouquíssimo tempo.

[trecho da resposta da pergunta “Você poderia falar um pouco sobre o livro “Samba de uma noite de verão?” Você escreveu em 2008 e lançou em 2016, por que esperar tanto tempo?”]

O Ovo não é uma coisa tão de conteúdos internos, mas depende das iluminações. Claro que ele tem um formato, dialogo com questões da psicanálise. Quando eu lancei essa peça os psicanalistas ficaram loucos. Começou a ir pra peça assim com bloco e eu não entendia nada, “gente, o que está acontecendo?”, ia com um bloco e anotava, anotava, anotava. Até que esse psicanalista veio falar comigo: “nossa, eu vi sua peça. Você é psicanalista?” e eu falei “não” e ela “mas você faz terapia?” e eu falei “não” e ela “cara, tá Freud em tudo nessa peça” e eu fiquei “mas como assim?”. Ela me convidou, ela tinha um instituto em Londrina de pesquisa em psicanálise e a mulher fez um estudo da peça pegando frase por frase mostrando como aquilo vinha da fase da natureza para a fase de complexos de Édipo. E ela estudou a peça inteira. Eu estou sendo muito verdadeiro quando eu coloco sentimentos que são muito meus no livro, claro que tem isso. E ela me falou uma coisa linda e que eu não esqueço nunca: “você vem provar então, diante de tudo isso que você está me dizendo, que Freud estava ainda mais certo, porque Freud dizia que os poetas sabem antes”. Então está explicado. Então eu sei antes.

Inspirações e referências

Quais são as suas principais referências para a construção do seu trabalho?

Existem dois nomes de escritores para os quais eu sempre volto que eu leio, releio e volto e são textos repletos de significação. E claro que o texto está lá e eu que estou mudando, mas eu estou lendo esse texto cada vez de uma forma diferente, mas são texto que obviamente tem essa característica de reinvenção, ganha na releitura, que é Fernando Pessoa e Clarisse Lispector. Esses dois autores eu tenho toda a obra e recorro a eles o tempo inteiro. Eu poderia falar de muitos, eu tenho uma biblioteca com um leque imenso, biblioteca para mim ficou coisa de brinquedo. O povo enlouquece quando chega no meu escritório, eu perco os livros, não acho mais nada. Não sei nem porque eu tenho livro se quando eu preciso deles eu não acho. Sei lá, eu preciso organizar minha vida, mas o lugar desses autores está sempre direitinho lá porque são autores os quais eu volto muito. Se eu tivesse que citar dois nomes que me influenciam ainda demais são esses dois, afora também todos esses compositores. A cada disco do Caetano Veloso é como se a minha vida mudasse profundamente ou quando eu descubro esses discos antigos eu fico pensando “o que não era a emoção de você ir numa loja de disco de vinil e comprar o disco que lançou naquela semana” porque hoje eles produzem pouco, mas eu tenho como vantagem por ter nascido nesse tempo a possibilidade de redescobrir tudo isso que foi feito. No Brasil a canção popular, sobretudo a canção popular brasileira no Chico e na literatura esses dois.

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