Entrevista #04: Renato Forin — parte II

Renato Forin autor de Samba de uma noite de verão, premiado com um Jabuti em 2017| Foto: Ana Istschuk

Essa entrevista é com o escritor ibiporanense Renato Forin, autor de “Samba de uma noite de verão”, seu livro que ganhou o prêmio Jabuti em 2017 na categoria Adaptação. O autor também é dramaturgo, canta e atua em outras áreas da cultura. Ele nos conta como foi se descobrir escritor, seu processo de escrita, sua obra, entre outros assuntos.

Produção e processo de escrita

Você tem um processo de escrita? É algo mais de inspiração ou rotina?

Não, até por isso eu estava comentando que eu nem me sinto muito confortável com a designação “escritor”, porque eu sei que há pessoas que se dedicam muito a isso, que acordam em determinado horário, sentam na frente do computador, pensam, têm um processo de elaboração que é uma rotina de trabalho mesmo. Eu nunca tive isso, eu não tenho paciência para fazer esse tipo de coisa. Qual é o meu processo se eu tiver que desenhar um processo? Primeiro que é muito caótico, mas é a partir de iluminações que eu tenho ao longo do dia que eu sempre anoto, ou no bloco de notas do celular ou no papel que estiver ao alcance das mãos e eu vou guardando tudo isso sempre em uma caixinha.

A arte me inspira muito, então quando eu estou vendo um espetáculo de teatro quase sempre eu tenho muitas iluminações nesse sentido, ou quando eu estou ouvindo uma canção. É como se as coisas conversassem de alguma maneira e sobretudo quando eu estou em um processo de criação. Por exemplo, preciso escrever o ‘Samba de uma noite de verão’, eu preciso escrever hoje, eu tive essa ideia […]. Ao longo desse intervalo de tempo, de criação eu tenho esse processo de escrever em papelzinho e guardar tudo isso. Chega um determinado dia, que demora um pouquinho, que eu sento e começo a organizar todos esses materiais e a costurá-los. Tem muito a ver com o meu processo essa coisa da costura, de colocar no papel muitos trechos que são poéticos, mas também inspirações de cena: um pensamento a respeito de uma imagem que pode surgir em cena e que pode de determinada maneira nos levar para outros lugares no palco. Engraçado que quase sempre os meus pensamentos literários têm relação com o teatro. Por isso eu digo que eu gosto muito mais de ser chamado de “dramaturgo” porque a minha escrita é quase sempre tem o objetivo de ser incorporada, de ganhar voz e ganhar corpo. Seja através de uma leitura banal, como aquela que eu faço, seja através de um grande espetáculo de teatro que tem cenografias, figurinos e tudo mais. Mas eu imagino sempre menos minha literatura no livro do que no corpo. Isso é uma coisa bem particular.

E qual a sua expectativa para o consumo do texto dramático? Geralmente as pessoas não compram um livro de dramaturgia só pela leitura…

Eu não sei, eu acho que as pessoas não leem tanta dramaturgia porque elas não começaram a ler dramaturgia de alguma maneira como elas leem romance e poesia. Porque é um gênero muito interessante, a estrutura propriamente dita de falas de personagens sem a interferência de um narrador ela abre uma margem de invenção muito maior na cabeça do leitor. Eu gosto da dramaturgia por esse motivo. […] Mas eu acho que é um gênero fabuloso, mas claro, ele exige muito mais também do leitor. Não pode ser comparado a um romance, por exemplo, que você tem as coisas um pouco mais prontas, você tem um narrador que descreve coisas. Claro que existem muitos romances, e romances líricos que também tem ambiguidades e trabalham com a figura de linguagem, mas o gênero dramático eu acho que ele é fabuloso justamente por isso. E ele tem também essa questão de estar ligado a outra forma de arte.

Hoje eu vejo que temos tido o surgimento de algumas editoras que são, é quase uma revanche isso, mas que só publicam textos dramáticos ou que tenham no texto dramático o seu principal catálogo e tenha alguns outros também. São editoras que investem em textos que estão encenados e fazem essa venda na porta do teatro porque as pessoas querem levar para a casa essa reflexão que elas acabaram de ver e lembrar de como foi esse espetáculo. E o que sobrevive do teatro nesse sentido é esse objeto, é o texto publicado. Eu não sei, apresentando uma outra visão para essa sua pergunta eu acho que tem essa revanche das editoras que estão só pulicando textos dramáticos porque as pessoas estão descobrindo que o texto dramático pode ser um objeto muito interessante para pensar as relações com o teatro, mas também para ler a partir dessa perspectiva de uma margem maior de imersão do próprio leitor que eu acho que ele deve ser entendido a partir desse viés que é completamente diferente da poesia e também do romance.

Você comentou que o teu processo tem a ver com anotar, guardar e buscar depois as ideias para costurá-las. Como é revisitar essas coisas que você anota? Você se surpreende? Você lembra das coisas que você guarda?

Geralmente, como esse processo é com um intervalo de tempo não muito longo eu me lembro delas, mas elas sempre abrem caminhos para novas possibilidades porque a gente se transforma o tempo inteiro. Eu me surpreendo lendo comigo mesmo no sentido da transformação de como eu sei que amanhã eu vou ser uma pessoa completamente diferente de hoje e como hoje eu sou completamente diferente de ontem. Sabe aquela coisa que acontece, acontece comigo e deve acontecer com vocês, de ver aquelas lembranças do Facebook e você fala “meu deus. Quem era esse? Que vergonha!” é tipo isso. A gente se transforma muito e eu, particularmente, em espaços curtos de tempo. Não que eu me surpreenda, mas esses escritos abrem caminho para novas possibilidades.

Novos projetos

Aproveita para falar um pouco sobre esse novo projeto do “Ovo”. Quando vai lançar? Como está sendo o processo?

Eu vou falar um pouco do que é o enredo dele. É a história de dois irmãos, Édipo e Elétrica, que foram criados no sítio de um Brasil arcaico em um ambiente rural e eles se encontram depois de um tempo no ambiente urbano. A peça promove um pouco dessas viagens entre mundos. E a Elétrica sai do sítio e vai até a cidade aonde Édipo está exilado justamente para dar a notícia a ele de que a mãe está morrendo. Que a mãe vai morrer. E a notícia para Édipo que é apaixonado pela mãe jamais quer ouvir, é a pior notícia que ele pode ouvir na vida dele. E a partir desse encontro desses dois nesse ambiente urbano que começam a rever todo um passado e começam a relembrar [silêncio].

É engraçado a questão de relembrar, tem a ver com o passado, mas também com as projeções de futuro. O que vai ser nosso futuro a partir desse passado e desse presente que a gente está vivendo. E eles descobrem obviamente essa relação conflituosa entre irmãos que nascem de um apego desmedido da Elétrica pelo seu pai e do Édipo pela sua mãe e obviamente uma rivalidade entre esses irmãos e ali eles descobrem os processos de exploração dessa mãe por esse pai e uma série de questões que tem muito a ver com aspectos psicanalíticos e complexos.

É uma peça extremante lírica, é um texto que em algum momento chega a ser quase bíblico porque ele é um texto literário mesmo, assim nem cabe direito na boca dos atores. Não é um texto cotidiano, corriqueiro como esse [Samba para uma noite de verão] é. É um texto lírico mesmo. E ele é desenhado dessa forma intencionalmente para que de fato seja uma poesia para ser ouvida o tempo inteiro e que fale mais, que conte mais da história desses dois irmãos, mas que conte a história das nossas próprias vidas. Da vida individual de cada um.

Ele tem muitas características do teatro contemporâneo de fragmentação dos personagens tanto que é como se os atores se conversassem o tempo inteiro. Em determinados momentos eles falam como entidades como atores e em determinados momentos eles falam como personagens, mas ao mesmo tempo não existe limite do que é o ator e o personagem. Que eu sei que eu sou o tempo inteiro esse Édipo e eu sei que você é esse tempo inteiro a Elétrica. Entende? Isso não está separado de acordo. O público não sabe em que momentos é o ator está falando e que Édipo está falando e isso vai se confundindo ao longo do de uma hora e meia ao ponto de as pessoas de fato acreditarem que eles são, que essas entidades todas de fato nos habitam.

Eu até falo isso no texto, quantas Elétricas tomam e servem cafés nas padarias, de olhar determinado?! Esses mitos que são trágicos, que são gregos, que são do século VIII a.C., convivem com nós, convivem dentro de nós. E é a coisa mais potente nesse sentido.

Mas o texto fala o tempo inteiro da passagem das pessoas pelas coisas, do desaparecimento de uma família, que é uma história tal qual todo mundo, todos nós estamos sujeitos. É basicamente isso a trama.

[…] Ela é uma peça concebida para pequenos públicos então a gente trabalha geralmente com 100 pessoas em uma arena circular e as pessoas estão muito próximas da gente. A peça se passa dentro do escritório onde Édipo trabalha, só que ela se passa dentro de um galinheiro, que o espaço de memória onde eles brincavam na infância. A gente tem sonoplastia que fazem referência a um escritório, a um centro urbano, só que eles estão esse tempo inteiro nesse galinheiro com o palco recoberto com palha de arroz, pintinhos vivos, cercados por blocos de madeiras e coisas assim. A gente começa só com três caixas de madeira e esse espaço todo se transforma na frente do público. Um céu nublado começa a passar porque a morte dessa mãe acontece no momento que esse céu está muito nublado e eles ficam esperando uma chuva que não chega nunca e só chega no final do espetáculo…

Enfim, é basicamente isso. Essa peça estreou… os meus processos são sempre, muito, muito longos. Eu acho que eu comecei a escrever em 2013, ela estreou em 2015, a gente já cumpriu mais de 30 apresentações e foi em 2017 que ela ganhou os prêmios literários do Pará, ganhou o primeiro lugar lá em dramaturgia. Eles trabalham com ensaios, romances e [Ovo] foi o primeiro lugar geral e o primeiro lugar de dramaturgia e a premiação desses prêmios literários é a publicação do livro. Então eles farão essa publicação agora que será em agosto na feira literária Pan-Amazônica, vocês são jornalistas e estão dando em primeira mão essa informação que eu soube em pouquíssimo tempo.

[trecho da resposta da pergunta “Você poderia falar um pouco sobre o livro “Samba de uma noite de verão?” Você escreveu em 2008 e lançou em 2016, por que esperar tanto tempo?”]

O Ovo não é uma coisa tão de conteúdos internos, mas depende das iluminações. Claro que ele tem um formato, dialogo com questões da psicanálise. Quando eu lancei essa peça os psicanalistas ficaram loucos. Começou a ir pra peça assim com bloco e eu não entendia nada, “gente, o que está acontecendo?”, ia com um bloco e anotava, anotava, anotava. Até que esse psicanalista veio falar comigo: “nossa, eu vi sua peça. Você é psicanalista?” e eu falei “não” e ela “mas você faz terapia?” e eu falei “não” e ela “cara, tá Freud em tudo nessa peça” e eu fiquei “mas como assim?”. Ela me convidou, ela tinha um instituto em Londrina de pesquisa em psicanálise e a mulher fez um estudo da peça pegando frase por frase mostrando como aquilo vinha da fase da natureza para a fase de complexos de Édipo. E ela estudou a peça inteira. Eu estou sendo muito verdadeiro quando eu coloco sentimentos que são muito meus no livro, claro que tem isso. E ela me falou uma coisa linda e que eu não esqueço nunca: “você vem provar então, diante de tudo isso que você está me dizendo, que Freud estava ainda mais certo, porque Freud dizia que os poetas sabem antes”. Então está explicado. Então eu sei antes.

Inspirações e referências

Quais são as suas principais referências para a construção do seu trabalho?

Existem dois nomes de escritores para os quais eu sempre volto que eu leio, releio e volto e são textos repletos de significação. E claro que o texto está lá e eu que estou mudando, mas eu estou lendo esse texto cada vez de uma forma diferente, mas são texto que obviamente tem essa característica de reinvenção, ganha na releitura, que é Fernando Pessoa e Clarisse Lispector. Esses dois autores eu tenho toda a obra e recorro a eles o tempo inteiro. Eu poderia falar de muitos, eu tenho uma biblioteca com um leque imenso, biblioteca para mim ficou coisa de brinquedo. O povo enlouquece quando chega no meu escritório, eu perco os livros, não acho mais nada. Não sei nem porque eu tenho livro se quando eu preciso deles eu não acho. Sei lá, eu preciso organizar minha vida, mas o lugar desses autores está sempre direitinho lá porque são autores os quais eu volto muito. Se eu tivesse que citar dois nomes que me influenciam ainda demais são esses dois, afora também todos esses compositores. A cada disco do Caetano Veloso é como se a minha vida mudasse profundamente ou quando eu descubro esses discos antigos eu fico pensando “o que não era a emoção de você ir numa loja de disco de vinil e comprar o disco que lançou naquela semana” porque hoje eles produzem pouco, mas eu tenho como vantagem por ter nascido nesse tempo a possibilidade de redescobrir tudo isso que foi feito. No Brasil a canção popular, sobretudo a canção popular brasileira no Chico e na literatura esses dois.

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Entrevista #04: Renato Forin — parte I

Renato Forin autor de Samba de uma noite de verão, premiado com um Jabuti em 2017| Foto: Ana Istschuk

Essa entrevista é com o escritor ibiporanense Renato Forin, autor de “Samba de uma noite de verão”, seu livro que ganhou o prêmio Jabuti em 2017 na categoria Adaptação. O autor também é dramaturgo, canta e atua em outras áreas da cultura. Ele nos conta como foi se descobrir escritor, seu processo de escrita, sua obra, entre outros assuntos.

Trajetória com a escrita

Como o ato de contar histórias entrou na sua vida?

Desde muito cedo, só que isso veio de uma reflexão de quando eu era mais maduro: eu comecei a pensar e questionar na minha vida, o porquê eu era apaixonado pela literatura e pelo teatro e pelas histórias em maneira geral, sendo que a minha casa não era uma casa que tinha muitos livros. Meus pais não tem uma formação universitária, eles têm o ensino bem básico. E pensando bem nisso eu cheguei a conclusão que é pela convivência muito cedo com a palavra, com as narrativas que não passavam pelo livro. A minha mãe era costureira, o meu pai começou a vida como pedreiro e depois ele abriu um bar. Todos esses universos de convivência, sobretudo em uma periferia de uma pequena cidade, propiciava uma existência que era fantástica e fantasiosa. As histórias que todos contavam ao pé da máquina de costura ou no final do dia quando os trabalhadores voltavam e batiam um papo no bar. Tudo isso permeava a minha vida. E como não dizer que isso não é uma vivencia também poética-literária? Depende do olhar que você lança para essas coisas.

Existia um toca disco que era um objeto pelo qual eu sempre fui muito fascinado. Ficava no quarto da minha irmã. E a minha irmã não deixava eu mexer nele, claro. Ela colecionava discos. Só que quando ela saia de casa eu ia lá e fuçava em tudo. Ela é mais velha. Esse quarto da minha irmã está na minha vida como uma caixa de brinquedo que me transformou no que eu sou, de alguma forma. Minha família em geral escutava meio que de tudo: desde o disco na novela Tieta, passando pelo sertanejo até o Chico Buarque, Caetano e tudo mais. E minha irmã tinha um gosto muito particular pra música brasileira. Foi no quarto dela que eu encontrei, por exemplo, o disco da Maria Bethania que mudou minha vida que nem era um disco de carreira […]. Era um disco de coletânea e quando eu peguei e ouvi aquela voz na Maria Bethania foi uma coisa de sereia, o Odisseo capturado pela sereia. Eu passei a estudar a obra da Bethania, no mestrado e no doutorado também.

Eu fuçava também nas apostilas de vestibular dela e foi nelas que eu descobri esse texto que tem uma forma diferente que não ocupa o todo da página e deixa espaço pro pensamento: que é a poesia. Eu lembro até hoje de ler nessas poesias pré-vestibular Castro Alves e eu era muito, muito novo e aquilo me capturava de um jeito e eu achava aquilo tão lindo. Navio Negreiro, por exemplo, eu li pela primeira vez naquela apostila. Ela nem sabia disso porque depois eu guardava e deixava lá no lugar. Mas esses são elementos da minha lembrança que eu posso identificar como importantes e que eu posso levar aos caminhos que eu sigo hoje em dia.

Eu acho que a poesia e a literatura a gente não pode focar apenas no livro, mas nas vivências poéticas que a gente tem na vida. Inclusive porque a literatura não nasceu no livro. Se a gente for pensar na história da literatura, ela nasceu na voz. Até existia a letra, mas ela não era um código de acesso a todos então tudo era feito a partir dessa metrificação desses sons. Tudo isso, inclusive, contribuía para a memorização então os textos precisavam ser sonoros, precisavam ser musicais. Então dessa forma a poesia começa, se a gente pensar no mundo ocidental. Se a gente pensar mais amplamente, a partir do momento que as pessoas se reuniram em torno de uma fogueira e começaram a contar histórias. Claro que [o papel] é um objeto fabuloso que guarda as palavras, mas a gente precisa sempre pensar a vivencia poética também para além do livro. Eu acho que isso sobretudo para os brasileiros em que a gente tem a produção nacional mais importante do mundo reconhecidamente, não sou eu que estou falando, são especialistas. E alguma coisa acontece nesse lugar para que isso aconteça, para que a gente faça alta filosofia, alta poesia em canções que são cantaroladas na rua enquanto a gente está na hora do almoço. Imagina, cantar um Caetano Veloso ou um Chico Buarque. É isso, eu acho que são esses elementos que me levaram para a literatura

E a escrita literária mesmo, como ela surgiu na sua vida?

Pergunta difícil, porque a gente tem aquelas bobagens de sempre desde muito cedo. Eu acho que todo mundo escreve coisas e guarda na gaveta. Coisas que não tem qualidade e elas ficam lá guardadas. Mas [saber como a escrita surgiu] é muito difícil… Nossa é difícil mesmo, eu não sei. Porque é uma coisa que faz parte da minha vida desde esse momento que eu descobri as coisas. É uma coisa indissociável: conhecer a poesia e ao mesmo tempo produzir a poesia ou produzir a literatura. Eu sempre fui um menino muito estudioso na escola. Eu gostava mesmo de estudar. Era uma criança bem solitária, mas meus brinquedos sempre estiveram relacionados a objetos artísticos e a literatura. Então, sempre escrevi também. Eu não sei te falar quando foi o momento. Agora levar isso para fora da gaveta que eu acho que é o passo determinante no caminho de um escritor. Eu acho que ali é a virada, você ter essa coragem. Porque é também uma coragem, é uma grande coragem você pensar nos grandes escritores e como aquilo é um desnudamento da vida. A literatura é um desnudamento da vida. Ser uma Clarisse Lispector, por exemplo, expor tudo que é a imensidão de ser humana. Mas não é a partir de uma visão, um olhar sobre o outro. Você só consegue escrever a partir de uma visão sobre si, portanto eu acho que é um desnudamento total e geral.

E assim, eu posso colocar como um marcador depois que eu termino o jornalismo. No caminho literário, depois que eu termino o jornalismo que eu tenho uma consciência maior que os textos estão diferentes e que, sim, isso é um texto de teatro, isso é um texto que tem um viés artístico e isso é um texto jornalístico. Colocar as coisas nos seus lugares. E começa isso com o ‘Samba de uma noite de verão’. Ele foi escrito em 2008, na verdade. Faz bastante tempo, claro que eu fui depois trabalhando o texto ao longo de todo esse tempo, mas ele foi escrito naquela época. Então, meu primeiro texto que vai para a cena é também o meu primeiro texto que vira livro.

Obra(s)/Obra(s) e recepção do público

Você poderia falar um pouco sobre o livro “Samba de uma noite de verão?” Você escreveu em 2008 e lançou em 2016, por que esperar tanto tempo?

Esse livro nasceu de uma maneira bem particular e bem diferente dos meus processos de hoje. Eu fazia a escola de teatro em Londrina e nós íamos montar o “Sonho de uma noite de verão”. Quando eu li, essa peça me pareceu muito brasileira porque eu já estudava desde então a coisa da mitologia dos orixás e gostava muito das religiões africanas. E o Shakespeare usa a mitologia grega e os deuses são muito parecidos. Eles têm características humanas, características para o bem e para o mal. Fora isso, os amores tropicais, aquela coisa das trocas de casais muito loucas que Shakespeare usa na história. Aquilo me parecia muito brasileiro. Então eu tive a ideia de ambientar essa peça em uma comunidade e trabalhar metáforas da formação do Brasil a partir das nossas raízes e matrizes étnicas. Eu fiz essa proposta para a nossa diretora da época, a Edna Guiar, e ela falou “vamos fazer”. E eu comecei um processo longo de pesquisa. Foi uma pesquisa de mais ou menos um ano para encontrar personagens e situações que fossem paritárias as de Shakespeare só que dentro do contexto brasileiro. Lendas indígenas, personagens da nossa tradição, sejam tradições literárias ou tradição cultural mesmo, quase etnológica do Brasil, e essa coisa sobretudo da mitologia africana que eu passei a ler muito mais. E ele nasceu assim, eu passei a construir ao longo de um ano.

Em 2009, a peça estreou no final do ano e eu a deixei guardadinha lá na gaveta. Foi uma temporada grande, era uma peça que tinha uns oito personagens e tinha banda também, era uma peça bem grande. Mas eu guardei esse texto porque me parecia que ele tinha um potencial muito grande pelo fato de ser leve, ser uma comédia, mas o mesmo tempo trabalhar temas do Brasil, temas importantes, sobretudo para jovens adolescentes para incentivar a leitura do texto dramático que é praticamente inexistente no mercado editorial. Eu queria fazer um CD, o livro fala o tempo inteiro de canções. Então esse projeto era muito grande, eu não queria lançar um livro qualquer, mas um livro que tivesse todos esses elementos e que servisse ainda como uma obra paradidática. Então ao longo desse tempo foi que eu fiz ajustes nele, fiz muita pesquisa sobre expressões idiomáticas, fiz mudanças no texto e criando também essas novas canções que foram interpretadas por cantores de Londrina quando o livro foi lançado. Ele vem encartado no final. Fora isso o livro traz também partituras. E justamente, são partituras simples, para que alunos e estudantes das escolas possam tocar essas músicas e para que eles possam fazer leituras dramáticas dessas músicas e que de fato pudessem fazer desse objeto que não ficasse só lá na biblioteca, mas que pudesse circular, fazer essa palavra circular entre essas pessoas. Ele tem também um posfácio que é de duas professoras da Universidade Estadual de Londrina que serve como uma espécie de guia para professores. Assim o livro tem vários textos e eu queria que ele chegasse nesse resultado. Então por isso tanto tempo.

E um outro motivo, esse bem prático, é que ele não passava nos editais. A gente tem um programa municipal de incentivo de cultura em Londrina que é um programa bem antigo, bem conhecido e eu mandava. Eu mandei um ano e não passou, dois anos e não passou, três, quatro e não passou. Ele passou no último, no quinto. Então, obstinação pessoas que querem que seus projetos passem nos editais. Porque a gente está na mão de comissões e as comissões avaliam que esses projetos não são importantes ou que eles não são relevantes, ou que existe coisa melhor, mas é preciso ter obstinação porque uma obra com essa configuração: com capa dura, com ilustrações, tem também os grafites aqui que são meus e com o CD principalmente. Tudo isso onera muito o produto. Tudo isso é muito caro, então uma editora não faria esse livro, mas uma lei de incentivo faz e tem obrigação de fazer justamente para que seja um produto importante para professores, estudantes. Tanto que ele foi distribuído como contrapartida para todas as escolas do município. Os professores trabalham muito esse livro nas escolas. O processo foi mais ou menos esse e a demora está justificada por essas questões, mas eu disse que é um processo bem diferente dos outros que é de juntar pedaços e a partir de inspirações. Isso vem de pesquisa mesmo, não é uma coisa de iluminação. Claro, a ideia inicial vem de uma iluminação, de uma inspiração, mas ele tem uma coisa de pesquisa muito forte.

Como foi sua reação ao saber da premiação do Jabuti?

Como foi sua reação ao saber da premiação do Jabuti? Um susto! Foi um susto mesmo, porque primeiro que eu nunca foi ligado nos prêmios literários então não sabia muito bem como eles funcionavam, mas sempre que eu via o Jabuti eu tinha a impressão de ser uma premiação que era atribuída a grandes autores de grandes livros de grandes editoras até porque ele tem um apelo comercial muito grande. Você ter um livro com esse selinho do Jabuti ele ganha nas livrarias um status diferente, ele vai para a vitrine e tudo mais. Eu sempre imaginei que fosse uma coisa mais ou menos desse star-system do mundo literário, mas fiz minha inscrição pra ver no que dá. Isso foi no ano de 2017. Eu lancei ele em dezembro de 2016. Mandei lá, mas até esqueci e estava, em agosto e setembro, na loucura do Festival de Dança que é um tempo que eu não durmo e só trabalho. Tem que escrever catálogo, tem que fazer a curadoria, muita coisa para fazer. E entre essas noites mal dormidas eu recebi um e-mail de um professor da época de jornalismo [na UEL] que tinha sido meu orientador e ele falava “Renato, eu vi aqui, eu estava na internet e vi aqui que seu nome está entre os finalistas do Jabuti. Parabéns” e eu falei “o que?” e aquilo me parecia meio que um sonho porque eu estava a tanto tempo sem dormir, fazendo aquelas coisas, sem tempo e eu falei “gente, que coisa louca. O que esse homem está falando?”. Entrei no site do Jabuti e estava lá o meu nome, porque eles divulgam uma lista com os 10 finalistas de cada área e o meu nome estava lá. Esse livro estava concorrendo na categoria de ‘adaptação’. E estava lá meu nome junto com o nome do Walcyr Carrasco que estava com uma novela super bombada na época, ‘No outro lado do paraíso’. Cara, eu falei “que inacreditável”. E a gente não tem muita noção exatamente por estar em uma cidade do interior e por ser uma pequena editora e tudo mais. Eu comecei a saber um pouco mais sobre o Jabuti e vi que é um prêmio muito, muito, sério. Não é a toa que eles dão visibilidade de fato muitas vezes para essas obras porque eles pegam o texto e analisam. Não é uma coisa que tem a ver com o tamanho da editora e com essas coisas. Tanto que no ano passado [2018] o Jabuti vencedor foi de uma cidadezinha do interior do Nordeste, um livro chamado “Cidade” e um cara que imprimiu ele mesmo as cópias do livro e distribuiu ele mesmo, e ele ganhou o primeiro lugar. É um prêmio muito importante, um prêmio que precisa ser respeitado e ele faz jus ao nome que ele tem por isso. E eu vim a descobrir somente quando eu fui contemplado. Aí eu avisei todos os meus amigos jornalistas, “aproveitem para fazer matéria porque [estar entre] esses 10 lugares já está ótimo pra mim. Já está no topo da minha vida”. Daí saíram as matérias lá com “londrinense é finalista no prêmio Jabuti”. Passou um tempo e eu juro por Deus que eu não acreditava mesmo que eu pudesse estar entre os premiados. E estava lá, saiu o resultado e eu fui premiado em terceiro lugar junto como Walcyr Carrasco para a alegria da minha mãe noveleira. Foi um susto assim, obviamente uma alegria indescritível. A vida vira do avesso, porque eu nunca pensei em ter essa vida que eu tenho de dar palestras assim, inclusive eu sou extremante tímido. No palco é outra coisa, você tem um roteiro a ser cumprido, mas participar de bate-papo, dar oficinas eu nunca pensei mesmo. E foi a partir do Jabuti, foi o Jabuti que abriu portas para que isso acontecesse.

Então foi um prêmio muito importante, claro que tem essa questão da alegria que foi quase egoísta. Uma alegria individual boa. Mas também foi uma alegria coletiva na cidade e isso me deixa ainda mais feliz. Porque nós estávamos vivendo em 2017 um processo que se agravou muito que é de criminalização das artes, de perseguição da vida intelectual e artística desse país. As leis de incentivo são colocadas o tempo inteiro em cheque, como se elas não precisassem existir, como se fosse coisa de vagabundo – que esse é o termo que se usa: que artistas são vagabundos porque eles não trabalham nada e eles recebem muito. Eu trabalho na área cultural a muito tempo e eu não conheço do meu círculo de convivência nenhum artista que não tenha que trabalhar três vezes mais que qualquer pessoa comum. Quase sempre porque eles precisam ter um emprego e depois, que obviamente essas leis de incentivo publicam, patrocinam o produto em si e não patrocinam vidas de luxo e de requinte. Então as pessoas precisam entrar em um terceiro turno numa sala de ensaio ou então ir para a frente do computador e escrever e precisam dessas leis de incentivo para publicar, para fazer com que possam comprar cenário, possa publicar um livro. Então é uma vida muito árdua, quase um sacerdócio no país que a gente vive. Eu posso dizer isso com convicção porque já estive numa experiencia na Franca, por exemplo, e vi como o artista lá é valorizado e como ele pode transformar isso em uma profissão. E isso não acontece nesse país [Brasil] que quase sempre os artistas precisam ter uma vida duplas e triplas. Mas a gente estava em 2017 no início desse movimento, que é sobretudo um movimento político, não só ideológico, mas também político, político-partidário até. É muito específico de criminalização e de tentativa de colocar a arte como uma espécie de vagabundagem, como uma espécie de vida fácil e essas leis são colocadas em xeque. Então, quando eu ganhei esse Jabuti foi uma espécie também de conquista coletiva, não da classe cultural, mas da cidade que fez com que a gente valorizasse – está vendo como é importante que a cidade tenha uma lei de incentivo como essa e como mirrados e pouquíssimos recursos conseguem levar o nome de Londrina para o Brasil inteiro e até para o exterior dependendo dos projetos. O nome de um londrinense sai no Estadão, sai na Folha de São Paulo, ele está lá em São Paulo no Ibirapuera, o nome dele está sendo dito pela Marília Gabriela, que tem que ir por esses meios para conversar com algumas pessoas. Portanto foi também uma entrevista coletiva e isso me deixa muito feliz. E eu sempre falo que a premiação maior que a tartaruguinha é o fato de que a partir de então esse livro foi distribuído nas escolas e na época eu mandei pelo Núcleo de Educação um recado dizendo que eu estava disposto a ir nas escolas falar sobre o livro ou falar um pouquinho sobre as artes e tudo mais. E eu nunca fui convidado por nenhuma escola, porque a gente sabe também que os livros muitas vezes vão para a biblioteca e lá ficam. Pouquíssimas pessoas têm curiosidade e vão lá pegar, mas depois do Jabuti eu comecei a receber muitos convites e vou voluntariamente com o maior prazer nas escolas falar com os alunos, falar sobre essas questões que são colocadas e reflexões sobre o Brasil e a nossa formação, sobre a importância da cultura africana e negra na nossa formação, sobre a questão da mitologia dos orixás. Desmistificar um pouco essas questões que são colocadas no universo muito nebuloso na nossa formação. Tenho muito prazer de ir nas escolas. Desde então pude também encontrar muitas pessoas, muitos alunos de escolas públicas e contar um pouco dessa minha história […] para que eles acreditem que eles podem. Que todos nós podemos. Acho que é isso, o Jabuti mobilizou tudo isso na minha vida e não é pouca coisa. Não é simplesmente um troféu e não é simplesmente uma alegria individual, boba e egoísta. Ela significa muito mais em termos coletivos, em termos do que isso pode ser na vida de outras pessoas. E isso acontece sobretudo quando o prêmio vai para uma cidade do interior e para um lugar aonde a cultura quase sempre é colocada em xeque.

Você falou da importância de o prêmio ir para cidades do interior e livros publicados por pequenas editoras. Aqui em Ponta Grossa temos um movimento crescente de autores publicando seus conteúdos por editoras pequenas. Ao seu ver como esse movimento, fora de um mainstream literário pode influenciar um jovem ou a pessoa que tem um sonho de publicar um livro?

Olha eu acho que é o único caminho que a gente vai passar a ter no atual contexto. A gente está vivendo uma crise acentuada no mercado editorial no Brasil, uma crise nas livrarias. A gente está vendo fechamento de redes e tudo mais porque de fato é um novo tempo. Estamos vivendo uma fase de transição que é inédita, uma realidade que a gente não sabe muito bem como viver com ela e como agir. Primeira coisa é a deflagração das redes sociais e com a internet o texto que é digital. Isso é um processo sem volta e eu percebo que é justamente nesses pequenos espaços, nas pequenas editoras e também nas pequenas livrarias um pouco mais alternativas que a gente tem espaço para encontrar os nossos grupos porque acaba sendo uma coisa também restrita. A pessoa que gosta de determinada literatura vai nesses espaços e compartilha, às vezes ela também escreve então acaba sendo uma espécie também de ciclo. Por um lado, isso não é ruim porque o mercado editorial também é uma selva. Não sei se vocês sabem, mas tem uma informação assim de que foi divulgada que num contrato assinado de um escritor com uma grande editora 10% de um preço de capa de um livro vai para um escritor, que é pessoa que só concebeu tudo aquilo, 50% fica com a livraria e esses outros 40% são empregados nos custos de impressão e editoração e tudo mais. O escritor em si que é o artista, que tem um papel fundamental e iniciador de tudo isso, é quem fica com a menor fatia dentro desse star-system desse mercado editorial. São também alternativas essas editoras menores que a gente pode ter um processo primeiro um pouco mais inclusivo a diferentes tipos de literatura porque a gente tem muitos gostos, muitas formas de escritas e muitos gêneros. […] E por outro lado também para que seja um espaço um pouco mais democrático para que o escritor seja valorizado. Eu não acho esse movimento ruim, não fico lamentando aos quatro ventos de que “nossa, o livro está acabando” porque acho que cada vez mais ele vai ser um produto para pessoas que reconhecem o seu valor de fato e que querem aquilo. Agora é claro que a gente não pode deixar que a cultura também fique restrita só a esses espaços dos guetos. De novo, um movimento grande no país quer fazer com que isso aconteça porque isso também é um processo de alienação, de eliminação da vida pensante no país e isso é um movimento que a gente precisa sempre lutar contra, mas as formas de se fazer arte, de se fazer cultura vão cada vez se transformar. E a gente precisa se adequar aos novos tempos.

Entrevista #03: Ramon Ronchi

Ramon Ronchi autor de Forte Apache | Foto: José Aldinan/Diário dos Campos

Essa entrevista é com o escritor ponta-grossense Ramon Ronchi, autor de “Forte Apache”, seu livro de estreia. O autor escreve poesias e nos conta como foi se descobrir escritor, seu processo de escrita, sua obra, entre outros assuntos.

Trajetória com a escrita

Como você se descobriu escritor?

Então, acho que é uma resposta que muita gente dá. Eu comecei a escrever com a ideia de música. Eu ouvia música e queria ter uma banda. Ouvia lá e queria fazer. [Tinha] Várias influências, desde rock metal até o rap que ouvia na escola com os amigos. Queria fazer alguma coisa nesse sentido. Comecei a escrever pra fazer música mesmo, tentar fazer uma letra de música. E por muito tempo foi isso, tanto que eu percebi que daqui pode sair um poema. A estrutura é a mesma, dá pra trabalhar com isso. Então, escrevendo poema mesmo acho que desde 2008, 2009 que foi quando comecei a pensar no texto como um poema, mas a ideia do início era aquela ideia meio adolescente de ser um rockstar.

E prosa, você escreve também?

Não. Eu já tentei, até me arrisquei em alguns contos, já mandei para alguns concursos uma vez e não deu resultado nenhum, mas não é uma coisa que eu paro para fazer. Já tentei. Prefiro escrever poema, gosto mais de escrever poema pela própria questão de tempo mesmo, um pouco mais cotidiano, são visões um pouco mais curtas. Eu gosto mais do poema. Eu acredito que eu vou me arriscar ainda algum dia a escrever um romance, voltar a escrever prosa de novo. Mas no momento não tem nada, nenhum projeto de nada que eu pense ‘vai ser assim’. Eu acredito que vai acontecer, só não sei quando.

Como é o processo de escrita para você?

Eu não tenho um ritual. Tem pessoas que têm esse ritual de pegar um dia da semana ou um local específico. Aquela ideia bem romântica de sentar no seu gabinete e escrever. Eu não tenho isso. Tem vezes que eu passo a semana inteira, o final de semana, tentando trabalhar dentro de uma ideia. Eu quero escrever sobre isso e não sai nada. Às vezes sai uma coisa legal, outras saem no cotidiano, de ouvido. [Como quando] Estou saindo da escola ou entrando, no meio da aula, estou dando uma aula e surge uma coisa e isso é bacana. Anoto no livro ali. Ou no estacionamento de mercado, aconteceu alguma coisa ali e isso dá uma imagem legal para um poema. Então eu não tenho um ritual, as coisas acontecem meio aleatoriamente. Algumas de dedicação, algumas de trabalho, algumas que obviamente irão ser editadas depois, mas que surgem no calor do momento e são mais espontâneas e outras que eu me dedico e ‘quero escrever sobre isso agora’. Mas não tenho um ritual ou um lugar específico.

Sobre as temáticas, como funciona para você? Você percebe que você tem uma necessidade, por exemplo, hoje de escrever sobre política porque a situação está complicada no país ou você acha que não tem tanto essa obrigatoriedade?

Eu tenho, eu me cobro um pouco para escrever sobre isso porque eu acho necessário. Uma das minhas visões pessoais de literatura: eu enxergo a literatura, a arte de uma forma geral como uma ferramenta de contestação, de discussão. Eu acho importante e me cobro muito para fazer isso. E isso é um problema porque como eu me cobro muita coisa que sai, sai no passional, às vezes sai naquele calor do momento e eu tenho dificuldade de editar coisas que são mais políticas. É uma temática que eu acho importante, que eu gosto e talvez por isso não tenha tanto. Eu tenho medo às vezes de colocar alguma coisa e pensar que falei besteira ou não deveria ter falado dessa forma. Então eu acabo escrevendo muito e apagando muito sobre essa temática. Eu acho que as coisas que mais são publicadas são as mais despretensiosas que aí eu consigo ter um distanciamento maior com o texto. Eu consigo reler o texto com distanciamento. Analisar mesmo: ‘aqui ficou bacana’, ‘isso funcionou’, ‘isso não funcionou’. Acho que tudo que envolve muito pessoal, emocional, você pode cometer o erro de ser muito imaturo ou de ser muito apaixonado e muitas vezes [pode ser que] a recepção desse texto não seja legal e a gente acabe se ofendendo mais por isso. Não que eu ligue muito pra isso também, mas tenho essa ideia.

E tem alguém que você corre mostrar as coisas que você escreve?

Já teve. Teve vezes que o Kleber [Bordinhão], a gente estudava juntos, eu escrevia e mostrava porque eu sabia que ele já tinha livro então era o cara crítico para ler, sempre mostrava. Agora ultimamente não tenho. [Tem o] Facebook. Acabo escrevendo e colocando lá, mas não tem ninguém que eu mostre direto, ‘olha veja o que eu escrevi’. Hoje não tenho mais.

O que significa escrever para você? Ou a poesia, como você a definiria?

Pessoalmente? Para mim é uma necessidade. Hoje eu acho que não consigo passar uma semana sem escrever alguma coisa. Mesmo que não seja algo que eu pense que isso possa ser publicado, mas a expressão literária para mim hoje ela é muito importante. Tem gente que faz isso com fotos, desconta tirando fotos. Para mim é escrever. Eu tenho a necessidade de escrever. Ainda mais no momento que vivemos hoje politicamente, principalmente, mas a necessidade de ressignificação de ver coisas e pensar em como essa imagem seria na literatura. Essa necessidade vem do meu trabalho, eu sou professor de literatura então eu vejo isso como uma coisa importante pra vida. Eu estou o todo dia falando isso, todo dia vivendo isso. Ela realmente se tornou importante pra mim, pra minha vida. Sempre lendo alguma coisa, escrevendo alguma coisa, estar trabalhando com o texto é importante.

Produção e reações

Tem alguns poemas que você brinca com o soneto, rima e formato. Você teve fases de começar rimando, começar nos formatos sonetos ou sempre foi uma escrita mais livre? Qual a tua relação com esse tipo de escrita?

No início era a preocupação com rima, a música. Quando eu comecei a estudar, entrei no curso de letras, comecei a estudar poesia a estrutura do poema é uma coisa que encanta, uma coisa formal, na régua. Então, sim, teve um momento que a minha ideia era: ‘nossa tenho que escrever um soneto decassílabo’ e eu ficava brincando, brincando não, trabalhando mesmo e tentando montar. Foi interessante também para a prática de escrita. Talvez na época não tivesse tanta consciência de que não é necessário e que existem outras coisas. Essa ideia de brincar com o soneto é que hoje na minha visão essa questão de por uma regra para a literatura chega a ser cômica, as brincadeiras surgem por isso, mas sim é legal as vezes o desafio de ‘vou me propor a isso hoje porque quero fazer um poema na métrica’. Então tem haicais no livro que são dentro da métrica, que tem a ideia do haicai tradicional de ter uma estação do ano e não ter rima. Alguns são nesse sentido e outros haicais são simplesmente três versos e pronto. Alguns são sonetos que são uma brincadeira, mas que por mais que esteja falando eles estão dentro da estrutura dois versos dentro da métrica. É óbvio que tem uma importância histórica e às vezes é um desafio também tentar colocar. A ideia da brincadeira é que isso não é necessário, você pode fazer também, mas não é isso só que é um poema.

E você chegou a se surpreender com o que você já tinha escrito há anos? Ou não, foi mais um processo de [achar] coisas que você nem lembrava, por exemplo, que você tinha escrito e você falou ‘meu deus, eu escrevi isso’?

Teve coisa assim que eu pensei ‘cara, não fui eu que escrevi isso aqui’. Teve coisa que eu li e falei ‘será que fui eu?’ e joguei no Google, de pensar ‘será que não foi outra pessoa que escreveu?’, e acabava marcando o meu Facebook, foi publicado lá. Teve bastante coisa interessante nesse sentido de reler e gostar mais ainda do que eu tinha escrito e ficar na dúvida. Eu gostei tanto que não acreditei que fui eu que escrevi isso daqui. Aconteceu a surpresa legal também.

Você comentou que publicava no Facebook, como era a recepção de quem lia?

No Facebook é horrível. Você põe um poema lá, pouca gente curte e às vezes você põe um texto, sei lá um negócio nada a ver, e milhões e milhões de curtidas. Não dá pra ter muito como parâmetro porque no Facebook muito gente está para passar o tempo mesmo, para se divertir. O cara não quer ler um poema agora, quer ver notícia rápida, o que a galera está comentando, ver foto. No Facebook não sei se pode ser um termômetro, mas se for um termômetro é muito ruim porque poucos poemas tiveram curtidas legais, bastante gente curtindo, mas às vezes rola comentários ou gente que manda mensagem: ‘gostei do que você escreveu lá’. Às vezes acontece, mas na maior parte das vezes não acontece uma resposta significativa.

Obra

E por que você resolveu lançar um livro só agora?

Um pouco no início era medo do julgamento de como as pessoas vão encarar isso, embora pareça que falar isso é um pouco suspeito porque ao mesmo tempo em que eu falava que eu tinha medo do julgamento eu estava colocando no Facebook. Só que no Facebook você tem uma liberdade, é a tua linha do tempo e você pode escrever o que quiser independente, se a galera não curtiu não curte, pode apagar o comentário e pronto. Um pouco era por isso, por medo do julgamento. Aí chega um momento que isso vira uma curiosidade, ‘como será que a galera receberia isso como um livro?’, e obviamente também a influencia dos amigos. Tem o Kleber [Bordinhão], um amigo meu que também é poeta, e ele mesmo falava ‘cara, você vive escrevendo porque você não lança isso em livro. Põe no papel, manda pra editora. Vamos ver no que vai dar’. Essa ideia da curiosidade de como vai ser a recepção… Porque ler os meus amigos já liam, a não ser quem me excluiu ou que me bloqueou. Mas ter o livro físico é interessante também. E por trabalhar com literatura eu percebo a importância do livro mesmo, da publicação. Então ‘vamos tentar, vamos colocar na roda para ver o que dá’.

No lançamento do livro você falou que nem todos os poemas são vivências tuas. Inclusive você contou que no sarau você leu um poema e alguém te abraçou achando que você tinha vivido o que retratava no texto. Veio primeiro o poema de um eu lírico que não é você ou primeiro veio o poema de coisa que eram suas?

Acredito que no início tudo é muito pessoal. Começa escrevendo para se identificar, você vai se lendo nos poemas. Então os primeiros poemas eram ou do que eu estava sentindo, aquela coisa adolescente, jovem, e outros poemas, coisas que realmente eram da minha vida, o que eu vivenciava. Com o tempo fui percebendo a própria literatura como a ficção, algo que não precisa ser necessariamente realidade. Não é estar mentindo, é a realidade, mas não a minha necessariamente. É um tipo de realidade, pode ser. Com o tempo você vai descobrindo a ficção ou a escrita artística, mas no início é muito pessoal.

Como foi o processo o processo de construção do livro e a seleção dos poemas que estão no livro?

Como é uma coletânea de coisas que eu estou escrevendo há muito tempo eu juntei a maior parte do que eu encontrei, tem muita coisa que se perdeu mesmo, computador que deu pau, celular que estragou. O que eu consegui reunir de coisas que eu tinha guardado no Facebook eu juntei, imprimi tudo e comecei a selecionar o que era mais ou menos dentro da temática. Os primeiros poemas não, os primeiros poemas que são aqueles que trabalham mais com a violência doméstica eles foram escritos propositadamente para isso. Era uma ideia lançar um livro com essa temática que acabou não saindo, existe um projeto, mas só falando de violência. Aqueles primeiros foram escritos para isso. Os outros não, eu selecionei por temática mesmo. Joguei tudo no chão e fui vendo: ‘olha, esse é um pouco mais político’, ‘isso aqui é brincadeira com as palavras mesmo. Brinca com rima e com métrica’, tem outros que são mais pessoais, do eu, parafraseando a ideia do Drummond ‘eu e o mundo’, como eu me enxergava a questão da solidão e foi por temática mesmo. O que era relacionado um pouco à cidade, o que era político. Foi por temas. Mas eles não são escritos ao mesmo tempo, tem uma diferença de escrita muito grande até mesmo dentro da mesma temática. Acho que isso é perceptível também na leitura, ‘esse aqui é bem imaturo’, outro mais bem escrito…

Como foi esse processo para você de revisitar? Porque eram coisas que você já tinha escrito há certo tempo. Como foi para você pegar esses poemas, reler para selecionar para o livro?

É uma coisa interessante, um pouco constrangedor, mas é legal também. Porque uma ideia foi essa: não reescrever o que já estava pronto. As coisas mais recentes eu até mudei para o livro, reescrevi, mudei algumas palavras. Eu tentei manter as coisas mais antigas do jeito que elas estavam porque eu acho interessante olhar para trás e ver o que era o Ramon naquele tempo, como era a escrita. Mesmo que o livro não esteja organizado cronologicamente para mim foi uma sensação legal, mas é um pouco constrangedor; ‘eu escrevi isso mesmo? Será que era isso’. Obviamente teve alguns que foram cortados, ‘nossa isso é muito cretino, não vou colocar aqui’, mas a ideia de pegar esses poemas mais antigos e reler eles a sensação não tem nada de saudosismo, mas de autoconhecimento mesmo de como foi esse período.

Você fala também da temática de crescer ao longo do livro e em alguns poemas podemos ver bem isso. Qual foi a sua relação com o crescer? Foi uma coisa boa ou uma coisa ruim? Porque parece que foi uma coisa complicada para o personagem.

Dentro da narrativa ela é bem mais complicada do que ela é na realidade até porque as temáticas têm algumas que são bem fortes e teve um período que eu tinha alguns ataques de pânico e uma leve depressão e algumas coisas são muito dessa época, não foram escritos nesse período, mas retomando esse período. Mas é óbvio que quando você coloca na literatura para quem lê pode mudar um pouco o sentido também e ficar um pouco mais forte ou não, mas esse crescimento, esse amadurecimento ele acontece. Às vezes a palavra quando a gente fala em crescimento, amadurecimento, parece que tudo que foi pra trás é menos importante ou mais infantil. Não nesse sentido. Amadurecimento da percepção do que é o meu poema, do que é a minha literatura. Tem alguns poemas aqui que parecem bem infantis e foram os últimos que eu escrevi. Tem um haicai que o nome é ‘cu’ então é uma brincadeira tão infantil com a palavra e acho que foi um dos últimos que na hora que eu estava terminando de editar eu falei ‘vou colocar uma coisa nesse sentido’. O amadurecimento é a minha visão em relação a minha própria escrita, mas não que ela se torna mais séria ou mais importante ao longo do tempo. Não nesse sentido.

Como foi a concepção da capa desse livro e a escolha do título ‘Forte Apache’?

Essa capa foi uma loucura porque o nome do livro não era esse e não era essa capa também. Era outro nome e eu pedi pra editora fazer, eles montaram certinho. Quando a arte chegou pra mim eu olhei para a capa e para o nome e não tinha nada a ver com o livro. Eles fizeram exatamente o que eu pedi e a minha visão era totalmente diferente do produto, do material que veio. Quando eu reli o texto pronto, já diagramado eu vi que estava meio perdido e já estava meio próximo do lançamento. Então, eu tive que mudar tudo na hora. Perguntei se dava pra mudar e eles falaram que dava, mas tinha que ser meio rápido. Essa ideia do ‘Forte Apache’, como é um poema que é bem forte dentro do livro, bem significativo, eu o reli para buscar um nome novo. Quando eu li esse poema eu disse ‘cara, tem que ser esse! O nome tem que ser esse’. Foi assim: eu li, mandei o nome, falei ‘olha, eu tenho uma ideia do Forte Apache, o poema fala sobre isso. Tentar trabalhar com uma mesa, uma cadeira, a ideia do lar mesmo, doméstico’. Porque é isso mesmo, o poema é sobre isso. Eu fui muito feliz porque foram dois dias que eu mandei a ideia para o editor e eles já me mandaram a capa e eu me apaixonei na hora. Perfeito, era isso mesmo que tinha que estar lá.

Inspirações e referências

Você comentou antes de um poema que faz referência a Drummond. Quais seriam as suas influências de escritores?

Essa é sempre uma pergunta complicada. Quando se fala em referência, de influência, [também se inclui] o que se está lendo nesse momento. Eu acho que muito da influência do livro é Leminski, uma coisa que eu conheci lá por 2009, por aí, e gostei bastante e que motivou também a escrever. Entender que o poema pode ser curto pode ser cotidiano, ele não precisa necessariamente trabalhar com a rima, mas é legal brincar com a rima também. O Leminski é uma das influências. Teve um período que eu li bastante Drummond, então a ideia de entender as coisas um pouco mais amplas da vida, o conceito da própria felicidade, de solidão e coisas assim. Acho que são os dois que eu poderia citar hoje porque são os que eu lembro que influenciaram bastante, mas no período, no processo da escrita, tem muita coisa que influencia e não só em poemas. Coisas que estamos lendo em prosas também, romances que influenciam a maneira que a gente dá significação para a vida então seria muita coisa para colocar, mas esses dois eu acredito que são bem emblemáticos no processo de escrita. Não só eles, mas são os principais.

Você participou do concurso de TOC 140. Como é o processo de escrever em um espaço tão reduzido de texto?

Isso foi legal, esse concurso foi em 2010, 2011. Foram as duas vezes que eu fui publicado e foi uma fase que eu estava lendo muito Leminski e no Leminski tem muito haicai, coisa curta então eu estava escrevendo muita coisa curta e 140 caracteres é isso. Acho que foi uma fase que me pegou no movimento, não foi tão difícil escrever, mas eu mandei muita coisa, muitos poemas e muito que eu escrevi na hora. Sentava, na caixa de texto escrevia e mandava. Escrevia e mandava. Escrevia e mandava. E alguns foram selecionados, mas hoje eu tenho maior dificuldade em fazer isso de colocar a ideia em um texto mais curto. Hoje eu vejo que eu necessito falar um pouquinho mais, de explicar um pouco mais ou de trabalhar um pouco mais com as palavras. Mas naquele momento aquele concurso foi bem oportuno para mim por aquele momento que eu estava vivendo, aquela influência direta que tinha ali.

Expectativas de mercado

Qual a sua expectativa quanto a mercado editorial?

A gente vive um momento bem complicado para autor. Não hoje, o escritor em geral no Brasil não tem um grande público leitor como tem para alguns outros países. Claro que a ideia é ser lido pelo maior número de pessoas e que esse livro vai chegar para todo mundo, mas a realidade é outra. Eu tenho consciência dessa realidade, eu sei que dificilmente terei um livro muito lido, bem provável que fique restrito ao campo regional da cidade ou aos conhecidos. Não sei. Talvez outras edições, outras temáticas acabem indo mais para fora. Eu tenho mandado alguns livros também para bibliotecas. A ideia de fazer o livro circular, mas eu acredito que estou bem pé no chão em relação a isso, não tenho grandes expectativas enquanto a questão do mercado. Claro que se escreve pensando em mercado, eu quero vender e obviamente isso seria legal, mas eu sei que é difícil, poucas pessoas conseguem no Brasil viver de literatura. É algo quase utópico.

Nos últimos anos é crescente o espaço dos chamados ‘booktubers’, são pessoas que se dedicam a fazer resenhas de obras literárias em vídeos para redes sociais. O papel do crítico ele está saindo dos grandes jornais e adentrando a internet. Você, como escritor e professor, como vê esse fenômeno principalmente para a geração dos seus alunos que passa mais tempo na internet?

Eu acho fantástico porque a democratização da arte é exatamente isso. Você abrir o canal para que todo mundo possa participar ativamente da leitura e o trabalho de crítica é o trabalho do leitor. Todo leitor é um crítico. É claro que vamos encontrar também muita besteira na internet, gente que não leu ou que tem uma dificuldade e que vai falar por intuição. Mas eu acho que esse trabalho desses booktubers é importante primeiro para mostrar livros que as pessoas talvez não saibam que existem, para mostrar esses livros novos e também para que todo mundo saiba que a crítica e a leitura pode ser feita por qualquer um. Um dos grandes estigmas da literatura é esse de sempre algo superior, supremo, quase uma divindade. O escritor é alguém que para pra pensar sobre o mundo, e não, ele pode ser algo sobre o cotidiano e a crítica literária ou a leitura, a discussão literária pode ser feita por todo mundo, exatamente todo mundo que lê. Eu acho que isso é bem importante para aproximar a literatura principalmente do público jovem que consome muito esses canais, esse tipo de linguagem, esse tipo de estrutura de programa.

Você tem mais algum ponto que queira destacar?

É importante falar, para quem quiser saber, para comprar [meu livro] pode ser comigo ou pela Editora Penalux. Isso é importante falar também: esse livro foi editado e lançado pela Editora Penalux, uma editora de Guaratinguetá. Ela tem lançado bastantes livros literários, ela tem essa preocupação com a literatura. Se você entrar no site deles vai encontrar bastante coisa legal e com um preço acessível. Você pode comprar o ebook também, mas tem os livros físicos e são preços legais para comprar. A Penalux têm várias edições: da poesia é uma lâmpada, do romance é uma vela; a ideia da luz, do livro como luz mesmo. E eles têm um projeto que é ‘Chama Literária’ e trabalha com a ideia de você chamar a galera pra ler e também a questão da luz mesmo, de acender essa chama da literatura. Eles têm enviado bastantes livros para bibliotecas, bastantes livros para outras pessoas lerem, estão fazendo um trabalho de incentivo a leitura bem legal. Eu acho que vale muito a pena conhecer o trabalho da editora e dos outros autores que estão publicando com eles. É uma editora legal, bem acessível e bem atenciosa também para quem pensa em lançar um livro vale a pena entrar em contato com eles, levar o livro para avaliação lá que é bem legal.

Entrevista #02: Aparecida de Jesus Ferreira

Aparecida de Jesus Ferreira autora d’As bonecas negras de Lara | Foto: Ana Istschuk

Essa entrevista é com a escritora ponta-grossense Aparecida de Jesus Ferreira, autora de “As bonecas negras de Lara” e mais nove outros livros no Brasil e um nos Estados Unidos. A autora nos conta como foi se descobrir escritora, representatividade, seu livro infantil e a importância de encontrar livros representativos na infância, entre outros assuntos.

Trajetória com a escrita

Como foi o processo para você se descobrir escritora?

Eu acho que o processo começou por conta das próprias pesquisas que eu faço e eu acho que pela questão de querer mostrar um pouco de como trabalhar com um tema que se relaciona com a questão da diversidade étnico-racial. Eu quis começar a escrever para contar um pouco, para as pessoas terem um contato com relação ao que tem sido trabalhado, ao que tem sido dito, quais pesquisas têm sido feitas com relação a isso. Essas foram escritas um pouco mais acadêmicas e por conta dessas pesquisas acadêmicas eu também quis dialogar com o jovem, adolescente, adulto e criança, que é uma outra modalidade. Que fosse uma coisa de criar mesmo a necessidade das pessoas se colocarem no lugar do outro, de se aproximar do que o outro tem experienciado. Foi assim que eu acho que comecei a pensar nessa escrita um pouco mais livre, porque escrita acadêmica eu já fazia por conta da minha própria profissão, eu fiz um curso de letras, então tem toda essa questão de já escrever.
Eu sempre gostei muito de ler, eu acho que a leitura é o que me abriu janelas e portas, abriu várias possibilidades. Foi através da leitura que eu descobri, por exemplo, que eu gosto de escrever, foi através da leitura que eu descobri que eu gosto de viajar, foi através da leitura que eu descobri que eu podia sonhar alto, estudar, fazer cursos fora. E por conta da leitura e das vivências de ler um pouco dos trabalhos das outras pessoas foi que eu comecei a me desafiar. “Por que não escrever? Por que não mostrar um pouco dessa experiência que eu tenho visto que pudessem impactar as pessoas de outras formas?” Foi assim que surgiram esses livros que são mais acessíveis às pessoas que não estão dentro da universidade.
O livro “As bonecas negras de Lara” é um livro que fala bastante sobre a questão de diversidade, fala da questão de pertencimento, da identidade racial, gênero e de classe. Acho que essa é a função. O livro fala sobre ancestralidade e língua. Foi o acesso do livro. Concomitante a esse livro que vieram os outros de narrativas de letramento racial. É colocar mesmo as pessoas com a experiência dos outros. Eu fiz várias narrativas minhas, eu escrevi um livro meu, somente meu, com as minhas narrativas. E outros com narrativas de outras pessoas que contam um pouco dessas experiências para que as pessoas pudessem sentir um pouco

Representatividade e mercado editorial

Como você vê no mercado hoje a questão da representatividade negra no mercado? Hoje para um escritor ou uma escritora negra se lançar no mercado é diferente de quando você começou sua carreira?

A gente consegue ver uma diferença enorme. Se nós formos ver hoje na Academia Brasileira de Letras, quem são os autores negros e negras que estão na Academia? Afinal nós [negros e negras] somos 54% da população brasileira. Há uma dificuldade desse reconhecimento da sociedade e de fazer com que esses autores estejam presentes nas feiras de livros. A gente tem tido, claro, a Conceição Evaristo, a Djamila Ribeiro, que tem tido um pouco de evidência. Certamente a evidência dessas autoras foi possibilitada pelas redes sociais. As duas autoras que eu mencionei elas tem uma imensidão de seguidores e hoje a gente tem toda uma população negra de mulheres e homens que também estão muito ativos nas redes sociais.
A gente tem várias blogueiras que também fazem o trabalho de chamarem um pouco dessa reflexão da negritude. O que é ser negro na sociedade brasileira. Eu acho que a população negra está fazendo com que essa visibilidade se torne um pouco mais evidente. A gente percebe que a população negra tá aprendendo a se fortalecer entre si. É claro que temos parceiros brancos e brancas, mas a gente precisaria de muito mais para que os autores e autoras negros pudessem ter mais evidência. isso vai em todos os segmentos, desde escritores de telenovelas, diretores de filmes que podem estar representando livros, por exemplo.
Se formos pensar nos Estados Unidos, em que 13% da população é negra, a gente vê muito mais evidência dessa população negra estadunidense em todas as mídias. Como escritores, produtores de filme, produtores de documentários. A gente vê uma evidência muito maior do que vemos no Brasil. Então há uma lacuna muito grande, a gente está indo num crescendo, mas a gente precisa de muito mais.

Obra(s) e recepção do público

O livro “As bonecas negras de Lara” é direcionado ao público infantil. Qual o impacto que as autoras negras tem com crianças negras? E que impacto as autoras negras tiveram em você quando você era criança?

No meu caso, infelizmente quando eu era criança eu não tive essa oportunidade que crianças tem hoje com “As bonecas negras de Lara” ou com outros tipos de literatura infantil que tem essa temática. Há um contingente grande hoje, embora não com tanta visibilidade quanto os demais livros. Os autores negros e negras tem um pouco mais de dificuldade de conseguir fazer seus livros serem publicados pelas editoras. Isso impede também que os livros cheguem nas escolas e nas mãos dos alunos também, mas eu acho que um livro como esse tem um impacto fantástico.
Eu tenho amostra, não só das minhas experiências familiares com a minha sobrinha (o livro foi feito para a minha sobrinha Lara), mas o impacto que teve e que tem tido para outras crianças também. No Facebook tem um grupo aberto que se chama “Livro – As bonecas negras de Lara” com uma imensidão de professores, de quase todo o Brasil, que tiveram acesso ao livro e tem me enviado. E eu coloco lá como amostra.
As pessoas fazendo trabalho com as abayomi, de ter na escola uma caixa de livros só com literatura de representatividade negra além de outros. A gente observa o impacto que tem numa criança. Inclusive soltar o cabelo. Tem o relato de uma professora que fez o trabalho com uma menina negra que não soltava o cabelo, ela passou além de soltar o cabelo a fazer tranças, deixar o cabelo solto. Houve uma revolução na própria menina e isso faz com que a menina se poste diferente, goste de si, queira falar mais na frente dos colegas. Isso dá um impacto na vida da pessoa substancialmente. A pessoa vê que pode ser representada. Que ela tem um lugar, ela pode estar em todos os lugares, ela pode se apresentar, apresentar um trabalho com orgulho de estar naquele lugar sem se sentir que ela não pode estar ocupando aquele lugar. Os livros trazem essa questão da representatividade, do orgulho, da autoestima elevada. E uma vez trabalhada essas questões as crianças acabam impactando as outras crianças que estão ao redor dela. É uma das grandes vantagens do livro, as crianças já tem um pouco mais de acesso, a gente percebe que as bibliotecas das escolas já tem um contingente de material um pouco maior do que tinha há 20 ou 30 anos, por conta do próprio apelo que tem sido feito. A gente observa que isso está em um crescendo, embora ainda não seja dentro do formato que a gente precisa.
A gente precisa de muito mais, mas acho que já temos um contingente importante hoje de meninos e meninas, mulheres negras e negros e pessoas brancas que estão engajadas e se sentido responsabilizadas pela questão sabendo que é a partir de nós que essa questão vai se tornar pública.

Como você, escritora, se sente quando recebe o relato por exemplo de uma menina que começou a soltar o cabelo?

Fantástico, nem eu sabia e nem eu pensei nisso quando eu escrevi o livro. Porque eu escrevi para a minha afilhada e sobrinha. Eu não pensei que teria esse impacto que está tendo o livro. A minha alegria de estar com as crianças apreciando. Quando você escuta uma criança dizendo o quanto ela gostou do livro, da história, isso criança brancas e negras, você percebe que elas entenderam o que está por trás do material. A questão do acolhimento a diversidade, de se relacionar com as pessoas independente do seu pertencimento étnico-racial, da sua identidade racial.
A força delas fará com que as coisas se modifiquem, porque as crianças levam essas coisas para dentro das casas. Elas mudam a percepção dos pais, responsáveis, dos familiares porque elas passam a questionar. É uma criança que se torna empoderada e a partir de que você cria essa tendência de reflexão e criticidade nessa criança não tem como você tirar mais, ou seja, essa criança só vai florescer e a partir daí trazer reflexões para outras pessoas. Fica questionador e quando a gente aprende a ser questionador nunca mais para.

Entrevista #01: Tiago Ferro

Tiago Ferro autor d’O pai da menina morta | Foto: divulgação

Nossa primeira entrevista é com o escritor paulista Tiago Ferro, autor de “O pai da menina morta”, seu primeiro romance. O autor nos conta como foi o processo de construção do seu livro, sua relação com a escrita, referências literárias e seus planos para este ano.

Trajetória com a escrita

Quando a escrita entrou na sua vida? Como foi esse processo?

Há muitos anos escrevo ensaios de cultura, principalmente crítica literária, para publicações como a revista Cult, Suplemento Pernambuco, revista Peixe-elétrico e a Quatro Cinco Um. Mas até escrever o romance O pai da menina morta, nunca havia tentado ou até mesmo desejado escrever ficção.

O que escrever significa para você?

Depois de escrever o romance, me parece hoje que as duas formas de escrita (ensaística e ficcional) se misturam, complementam e em alguns casos problematizam os textos. Na escrita ficcional do livro entrou em boa medida essa veia ensaística, o que permitiu tratar de questões que correm por fora da trama principal do livro e arejaram o tecido narrativo. Se não estou enganado, o leitor mais familiarizado com a crítica, consegue notar como essas preocupações atravessam o romance. Por outro lado, textos acadêmicos exigem uma série de padrões e formatações que a liberdade experimentada no romance pode gerar problemas. De qualquer forma me parece artificial separar as duas formas de escrita.

Como foi o processo e a experiência de escrever um livro?

O livro foi escrito em pouco tempo: dois, três meses. Portanto foi tudo muito intenso. O processo foi “escrever” mentalmente incessantemente vários trechos do livro e só ir para o computador quando se tornava muito difícil reter o conteúdo. Não foi muito agradável… Uma espécie de ideia fixa o tempo todo e o receio de perder alguma passagem. Essa intensidade se encerra quando o livro é entregue e paradoxalmente não gera um alívio, mas uma perda de intensidade desagradável. Resumindo então eu diria que não é exatamente um prazer o momento da escrita, é impossível ficar por muito tempo envolvido naquele tipo de alta-voltagem, mas quando acaba, os vazios que pareciam estar sendo preenchidos pela forma literária, ressurgem com força, e pedindo novas formas.

Obra(s)

Você trata seu romance como uma ficção, queríamos saber o porquê dessa sua visão e do que trata o livro ‘O pai da menina morta’?

Apesar do livro partir de um evento vivido por mim, em nenhum momento o livro foi construído para contar o que havia acontecido. Sendo assim, não me preocupei em ser fiel aos fatos, cronologia, etc. Meu interesse era investigar o que estava latente comigo e que a linguagem do senso comum, os clichês, simplesmente não davam conta. É nesse sentido que o livro pode ser considerado uma ficção. É na liberdade da criação da forma artística-literária, que o Eu do autor é superado e o livro ganha os contornos de um romance e não de um livro de memórias.

O narrador do romance não tem nome, ele é o pai da menina morta. Queríamos que você falasse um pouco sobre o processo do anonimato do personagem e de enfraquecimento da personalidade dele.

Me parece que a questão não é anonimato e muito menos enfraquecimento. O que está em jogo nesse personagem sem nome é a questão da identidade, do jogo de máscaras das relações sociais da sociedade. Se há “o pai de família”, “o funcionário honesto”, “a mãe dedicada”, “o rebelde” etc, como lidar com “o pai da menina morta”? Uma identidade indesejada e incômoda que vai caminhando durante o livro e desfazendo os outros papéis até então muito seguros que sustentam o teatro do mundo no qual vivemos. O que acontece se nos despirmos de todas as máscaras? Meu palpite é que não encontramos algo autêntico, mas apenas a linguagem. Portanto essa escolha está implicada muito menos em caracterizar desta ou daquela forma o personagem, mas de causar curtos-circuitos nas relações estabelecidas da sociedade que desabam quando um evento trágico explode de forma violenta, como foi a morte da minha filha.

A decisão de escrever o seu primeiro romance foi consciente ou foi algo que aconteceu de uma forma mais natural?

Acho difícil falar em intenções, seja para contar uma história muito bem amarrada de que lá no comecinho estava tudo previsto, ou o retorno à ideia de inspiração etc. Aqui me parece que o que importa é o texto, o livro. Não cabe ao autor ser o seu próprio intérprete, aquele que sabe do que trata o livro e paira sobre as outras interpretações. A cada nova resenha, mais eu fico sabendo sobre o livro que escrevi. E levo vários sustos! Um romance só faz sentido para o autor quando o surpreende, e essa surpresa deve necessariamente vir da leitura de terceiros.

Como foi o processo para você, Tiago Ferro, expor de forma tão honesta uma dor e um sentimento seu, misturado com a ficção do pai da menina morta? Ela foi intencional ou você não parou para refletir enquanto escrevia?

Foi um livro escrito de forma despudorada. Meu único cuidado e revisões foi para ter certeza que não implicava ou feria a intimidade de alguém. Fora isso escrevi o que eu queria da forma que queria. Não tenho preocupação alguma com leituras que procurem o autor no narrador, apesar de achar um caminho que empobrece o texto. Talvez por ter vivido um evento tão violento, as preocupações dessa ordem perdem importância. E salvo engano isso gera um ganho para o livro.

O livro é construído com várias formas de linguagens, com textos, listas, fotografias, como foi o processo de construção dessa narrativa mesclada e o impacto que ela causa na redação final?

No início o livro foi escrito como um diário tradicional. Mas conforme surgiram outras questões: memórias, desejos, política, o diário foi sendo desconstruído para acolher esses conteúdos. Ou seja, a forma foi sendo adaptada conforme a escrita evoluía e pedia soluções de acordo com o que estava sendo contado. Nesse processo fui libertando a linguagem e a narrativa até chegar no ponto que me deixou satisfeito: um fragmentário caótico que ainda guarda uma narrativa, uma história.

Inspirações e referências

Teve alguma obra que você leu com o estilo de escrita ou com um tema parecidos com o d’O pai da menina morta que te inspiraram para escrever o teu livro?

Não fiz nenhum tipo de pesquisa com o intuito de buscar soluções para a minha própria escrita. Nem soluções formais e nem nos livros mais conhecidos que lidam com o tema do luto. Não quero com isso proclamar nenhum tipo de grande originalidade, obviamente as leituras de uma vida toda entram nesse processo de construção do próprio livro. Mas voltando ao que disse sobre a intensidade do processo de escrita, livros teoricamente laterais ao tema mas que estavam comigo na época da escrita, são citados no romance e ganham relevo na trama: A história do olho e a A idade viril.

Você tem autores que são referência para a tua escrita, teu estilo – de forma geral, não especificamente para o teu livro? Quais são?

Se por um lado sempre tive interesse nas vanguardas literárias do século 20, nunca deixei de ler os romancistas preocupados em contar uma boa história, sendo talvez o Roth o meu preferido. Procuro sempre estar atento aos autores brasileiros contemporâneos e leio muita crítica e ensaio.

Expectativas para 2019

Você pretende escrever mais livros?

Sim, pretendo.

Quais são as tuas expectativas para 2019 quanto ao mercado literário?

Apesar da crise econômica dos últimos anos e do esgotamento do modelo de mega stores que causou sérios prejuízos ao mercado como um todo, principalmente para as grandes editoras, minha leitura é que o mercado editorial é hoje mais maduro do que jamais foi. Traduções sempre de línguas originais, projetos gráficos bem feitos, ótimos acabamentos gráficos. Títulos clássicos disponíveis e lançamentos acompanhando o que tem importância no exterior e muito espaço para iniciativas independentes. Além disso as possibilidades sempre democratizantes com o digital. Se o mercado atingiu esse nível de profissionalização é porque há leitores. As formas de distribuição vão sempre se alterando, isso não é novidade. Em 2019 acredito que essas formas vão se ajeitando.

Você tem algum próximo projeto? Pode nos contar um pouquinho dele?

Hoje estou envolvido em um projeto de doutorado sobre “As ideias fora do lugar” do Roberto Schwarz, no departamento de história da USP. Para me concentrar nessa pesquisa e escrita, deixei por enquanto o segundo romance esperando. É claro que essa espera tem sempre alguma atividade. Aqui e ali você guarda uma impressão, uma leitura, uma anotação para o romance. E lá na frente não sabe dizer quais foram as influências diretas…