Resenha #05: ‘Quarto de despejo’ da Carolina de Jesus

Foto: um metro e meio de livros

Por Luana Caroline Nascimento

Quarto de Despejo é um diário de uma negra, que mora na favela de São Paulo, e sonha em ser escritora. Logo na primeira página o primeiro registro é de uma mãe negra que quer dar um presente de aniversário para a filha que sonha em ter sapatos. A mãe procura até encontrar um sapato no lixo. O sapato tirado do lixo é o presente de aniversário da filha. Durante a leitura Caroline de Jesus escancara a realidade crua das favelas brasileiras.

Um livro forte, chocante, que fere e incomoda o leitor. Não se pode ser o mesmo depois de ler esta obra. Eu conheci o livro por acaso na minha adolescência e li um exemplar da Biblioteca Pública da minha cidade, anos depois reli o livro para o encontro do Clube de Leitura Só Garotas – o mesmo exemplar da mesma biblioteca. Foram duas leituras diferentes para duas Luanas diferentes.

A história se passa na década de 1960, porém as marcas temporais se perdem fazendo da narrativa extremamente atual para os dias de hoje. Ainda há diversas Carolinas de Jesus pelos morros e favelas que sofrem de fome e abandono social. Para mim outra marca forte da narrativa são os erros de português da escrita que não foram corrigidos na edição, é uma realidade sem retoques; se eles fossem apagados a história não chocaria tanto.

Coralina reforça o tempo todo que o pobre não pode repousar nunca e que a favela não é lar. O pobre não se compadece com a pobreza do outro na favela, e ali naquele meio elas não tem sororidade com as outras mulheres da favela, perpetuando comentários e a cultura machista do meio.

Ela fala muito da fome, só entende o que ela fala quem passa fome no Brasil. “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”, escreve ela. Os registro de Carolina são um ato revolucionário do povo negro, é um instrumento múltiplo de luta contra o preconceito.

Ficha técnica:
Título: Quarto de Despejo: Diário de uma favelada
Autor: Carolina de Jesus
Ano e país de publicação: 1960, Brasil
Número de páginas: 173
Editora: Ática
Estrelas: 5

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Resenha #04: ‘Insubmissas lágrimas de mulheres’ da Conceição Evaristo

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Ana Istschuk

Procurando uma autora brasileira e contemporânea pela internet achei uma lista que trazia o nome de Conceição Evaristo. Era meio do ano e o “Leia Mulheres PG” tava montando sua programação semestral. Na lista que visitei tinha especificamente o livro “Insubmissas lágrimas de mulheres” – hoje me pergunto o por quê ao considerar que a autora ganhou um Jabuti com “Olhos d’água” (informação que só tive depois) – e achei esse título atraente.

Li um pouco sobre o que se tratava a obra e a coloquei na lista de livros para discutirmos no clube da leitura. A escolha foi despretensiosa e eu não sabia o que me esperava. Quando abri o livro senti um soco no estômago e um nó na garganta. Soube no primeiro dos treze contos que os temas de escrita da Conceição seriam pesados e que eu precisava me preparar pro que viria. Acredito que o que mais doía era pensar que, por mais que o livro seja categorizado como ficcional, várias mulheres brasileiras passam por situações similares, quando não piores.

Foram treze histórias. Treze vidas de mulheres que passaram pela minha mão. Treze vidas brasileiras. Vidas negras e periféricas das quais nunca tive contato dada minha classe e por ser branca. Treze mulheres com suas insubmissas lágrimas que sobrevivem a dura realidade de ser mulher, de ser negra, de ser da periferia do Brasil. Que sobreviveram à violência doméstica, estupro, machismo, falta de reconhecimento e aceitação, ao suicídio, ao racismo e tantas outras coisas que tornam a vida mais difícil de suportar – a injustiça escancarada.

Por vezes me peguei chorando, com o livro fechado, numa mistura de raiva, afeto e desilusão. Mas era justamente a não desistência dessas mulheres que me impulsionava para continuar a minha leitura. Acho curioso quando dizem que mulheres são fortes. Parece que é como se elas tivessem escolhido ser assim e não fossem obrigadas pelo meio, por suas condições a serem fortes. Às vezes me pergunto se já foi dada a chance uma uma mulher poder ser fraca. Acredito que não. O “sexo frágil” é na verdade o “sexo forte”. Forte para existir, forte para sobreviver.

Bom, nem só de temas pesados o livro é feito. Histórias de mulheres inspiradoras que tiveram conquistas de sonhos e de suas vontades também são contadas. Há uma mulher artista que se usa de matéria-prima, uma mulher bailarina que enfrenta preconceitos para conseguir viver da dança, uma mulher que ama de uma forma tão única que é impossível não se encantar com sua história… Enfim, Conceição captura vidas e captura também quem lê.

A autora conta as histórias com muita sensibilidade e respeito pelas personagens. Ela se mostra no livro como a observadora e “escutadora” que é e traz traços de certas vivências em outras, o que nos evidencia uma percepção atenta e zelosa. Outra característica que considero significativa no livro é que os treze contos têm como títulos apenas os nomes das mulheres protagonistas das histórias – e de suas vidas. Não sei se haveria jeito melhor de intitular um texto assim – focado numa vida, leve quanto a linguagem, poético, simples e real – do que usando um dos recursos que conhecemos que mais se aproxima – por vezes – da definição de uma pessoa: seu nome.

Ficha técnica:
Título: Insubmissas lágrimas de mulheres
Autora: Conceição Evaristo
Ano e país de publicação: 2011, Brasil
Editora: Malê
Estrelas: 5

Resenha #03: ‘Americanah’ de Chimamanda Ngozi Adichie

Foto: Luana Caroline

Por Luana Caroline Nascimento

Eu conheci a Chimamanda Adichie na universidade com a palestra “O perigo da história única” (você pode ouvi-la aqui) e desde então tive vontade de ler os livros dela. Porém só comprei meu primeiro livro da escritora nigeriana anos depois e o livro que comprei foi “Americanah”. Confesso que precisei ler duas vezes para perceber a infinidade de temas retratados neste livro de uma forma fluída.

A escrita da Chimamanda cativa e nos envolve sem percebermos, mesmo que o tamanho do livro assuste quem não é habituado com livros grandes eu o li em menos de uma semana (quando fiz pela segunda vez). Mesclando a história de Ifemelu com o blog dela sobre racismo e negritude em muitas passagens enxerguei a própria Chimamanda na história e em diversas vezes também percebi passagens da palestra por onde a conheci.

O romance retrata a relação da personagem principal com diferentes pessoas, mas quero tratar aqui das mulheres com quem Ifemelu cruza o caminho, em especial três mulheres que ocuparam o papel de mãe como orientadora.

A tia Uju era a melhor amiga e a irmã mais velha da adolescente Ifemelu que mesmos em entender as escolhas da tia esteve ao lado dela. Ao longo da narrativa vemos tia Uju se transformar em outra mulher, uma mulher de alma envelhecida, desgostosa da vida e cansada. Uju saiu da Nigéria e foi para os Estados Unidos criar o filho Dike depois de perder tudo na terra natal passou da visão de mulher bem sucedida por ter um homem a bancando para a mãe cansada que não conseguia entender a adolescência do filho e não tinha tempo para cuidar de si mesma. A própria Ifemelu só foi compreender que o meio modificou a tia anos mais tarde, já madura.

Outra personagem que sofre grandes influências do meio é a mãe de Ifemelu quem passa por mudanças drásticas coagida pela igreja. De uma mulher alegre, vaidosa e cantante passou a jejuar, largar da aparência e abdicar a música. Já a mãe de Obinze, com uma posição social mais privilegiada que as outras personagens, sempre era vista pela Ifemelu como racional e equilibrada.

O que quero mostrar é que cada uma dessas personagens (entre outras tantas que tem no livro) moldaram a vida da adulta Ifemelu e a influenciaram também. São três lugares de fala diferentes aqui descritas brevemente impulsionaram o feminismo em Ifemelu. Ninguém se faz sozinho e Ifemelu comprova isso para todos nós.

Ficha técnica:
Título: Americanah
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Ano e país de publicação: 2013, Estados Unidos
Número de páginas: 516
Editora: Companhia das Letras
Estrelas: 5

Resenha #02: ‘Uma duas’ da Eliane Brum

Foto: Livro & café

Por Ana Istschuk

“Não há como escapar da carne da mãe. O útero é para sempre”. Com essa sentença, Eliane Brum nos arrebata com a história de Laura, a filha que “odeia e ama a mãe com a mesma intensidade, embora só tente odiar”. O primeiro livro de ficção da autora tem como tema a relação – impossível de romper e nem sempre saudável e harmoniosa – entre mãe e filha.

Laura acha – ou ainda procura – na escrita não só uma forma de fugir da realidade, mas de matar a mãe. Mesmo que no começo a intenção de Brum tenha sido apenas deixar que Laura contasse a história, lá pelas tantas a mãe invade – o quarto – e o relato da filha. E é nessa voz dada às duas que é possível entender a necessidade do afastamento entre elas e ao mesmo tempo a dependência que ambas têm uma da outra.

Com uma escrita imersiva e leve, o livro é, ao mesmo tempo, carregado de cenas duras e de difícil digestão. A abordagem de uma relação não-romantizada e abusiva da maternidade não é tão comum na literatura nem em outros espaços – apesar de já existirem discussões e produções a respeito disso. Portanto, acho que o trabalho dela é notável nesse sentido.

Por mais que a atmosfera de ‘Uma duas’ seja repleta de ódio, traumas e dores, a obra também trata sobre amor. E novamente é um amor retratado de uma forma diferente da habitual. Um amor não idealizado, ao meu ver, e complexo ao envolver outros sentimentos que não são só positivos e felizes. Além disso, o título retrata muito bem a relação conflituosa de unidade e individualidade das duas que são uma pela carne inescapável.

Eliane Brum é conhecida por seu olhar característico sobre os acontecimentos do mundo e ela também o traz na ficção. A gaúcha e jornalista ainda transporta para o romance sua sensibilidade ao tratar de pessoas – que nesse caso são as personagens fictícias de uma história perturbadora. Com um trabalho sem igual no jornalismo, a escritora não perde em nada na sua estreia no romance e na ficção.

Ficha técnica:
Título: Uma duas
Autora: Eliane Brum
Ano e país de publicação: 2011, Brasil
Editora: Leya (2011) e Arquipélago (2018)
Estrelas: 5

Resenha #01: ‘O pai da menina morta’ de Tiago Ferro

Foto: Luane Caroline

Por Luane Caroline Nascimento

‘O pai da menina morta’ escrito por Tiago Ferro foi minha última leitura de 2018. Uma leitura pesada. Uma obra sobre uma ferida e que causa uma ferida, que tira o leitor da zona de conforto. A obra escancara, de forma sincera, sensível e inteligente o processo do luto que passa pelos sentimentos de culpa, negação, raiva.

Conheci o livro por indicação do Canal Livrada! (a resenha dele você pode conferir aqui). Com um texto não linear o autor mistura várias formas de linguagens com trechos de diários, conversas, listas de compras, fotografias, páginas da web. Ao meu ver a mescla de formas de linguagem é um dos maiores ganhos da narrativa e a melhor forma do pai da menina morta demonstrar que, mesmo sem querer, o pensamento dele não sai da filha e que ela estará sempre presente em tudo. Há, por exemplo, uma lista de compra do supermercado que inclui itens como “ficar firme” e “pensar na Minha Filha a cada cinco minutos”. A narrativa é difusa como o pensamento humano em crise e as lembranças são misturadas como se ele procurasse sinais ou avisos que ela morreria antes disso acontecer.

Alguns relatos parecem escritos logo após acontecer por tratarem o sentimento como uma dor física do pai.

O tema da morte de crianças ainda é tabulado e Tiago Ferro conseguiu fazer uma entrega (ficcional, vale reforçar) extremamente sincera e verdadeira. Ele quer o trocar de lugar com a filha por temer esquecer o rosto dela ou de se afastar da filha por esquecer da dor.

O sentimento de culpa percorre o personagem pela narrativa toda. Por ter deixado a menina morrer, por tudo que ele não fez enquanto ela estava viva, além do medo de um dia ter que enterrar a Outra Filha.

Há alguns trechos que me marcaram como, logo no início, ele diz que não quer ser o pai da menina morta. Mas ele sempre será o pai da menina morta. Ou o trecho que ele imagina um tribunal que o julga por deixar a filha morrer. “Que espécie de pai você é?”. Também há uma lembrança da temperatura do corpo da menina saindo da febre inicial de 37,8° até o momento que o corpo gela completamente já sem vida.

Todo mundo que já perdeu alguém se identifica em pelo menos uma página do livro. Não há como ser a mesma pessoa depois dessa leitura. Quem convive comigo sabe que indico a obra sem titubear.

Ficha técnica:
Título: O pai da menina morta
Autor: Tiago Ferro
Ano e país de publicação: 2018, Brasil
Editora: Todavia
Estrelas: 5