Resenha #30: ‘Amora’ da Natalia Borges Polesso

Foto: Ana Istschuk

Por Ana Istschuk

“Amora” é quase todo amor. Amor no feminino, amor de mulher que ama outra mulher. São contos que narram relacionamentos de todos os tipos, de idades variadas, de primeiros amores a casamentos… Enfim, mostra a pluralidade das mulheres lésbicas em seus relacionamentos diversos.

Este livro me marcou especialmente porque foi meu companheiro de trajetória até a casa da minha namorada. Minha primeira namorada. Em cada ônibus que percorria o caminho entre nossos bairros eu conhecia uma história nova de relacionamento. Relacionamentos que agora me eram próximos e que narravam na ficção situações que eu poderia encontrar na realidade.

E essas histórias no trajeto viram e acompanharam a construção do meu caminho nesse novo relacionamento. Era quase ritualístico chegar na casa dela e contar “amor, o conto que eu li hoje…” e ela me ouvir atenta, fazendo perguntas, interessada no que eu dizia (ela sempre ouve). 

Foi um livro que li devagar, quase sempre um conto por vez, um conto por dia. A leitura durou pouco mais de um mês (são 33 contos que compõem o livro), muito mais por essa rotina criada por mim do que pela narrativa fluida e convidativa da autora. Escrita tão bem construída que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Contos em 2016.

Ora grandes e sumarentas, ora pequenas e ácidas, as histórias de Natalia Borges Polesso versam sobre relacionamentos, no plural. A lesbianidade é o que tem em comum nas histórias, mas o foco são as relações em si, os vários relacionamentos que pessoas podem ter, mostrando nesses diversos cenários as particularidades vividas por quem ama outra mulher. 

“Amora” me foi um livro de referência. Me foi um livro onde li histórias que eu poderia viver, desde situações de descoberta de um novo amor, de términos, de abandonos, à cenas duras, de não aceitação, e até algumas cenas engraçadas relacionadas à família. 

Sei que não falei tanto sobre o livro e que tornei o texto bem pessoal, mas para mim é quase impossível falar dessa obra sem contar um pedaço da minha história.

FICHA TÉCNICA

Título: Amora
Autora: Natalia Borges Polesso
Ano e país de publicação: 2015, Brasil
Editora: Dublinense
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #29 “transespírito” de Mel Bevacqua

Foto: MUM

Por MUM

28 de julho de 2020

Livros de capa vermelha sempre me chamam atenção. Acho que o vermelho que pulsa na veia, que desce pelas pernas e que queima nos olhos querem contato com todo o tipo de vermelho que também escorre, queima e pulsa. E foi isso o que eu encontrei dentro deste livro.

Foi a primeira vez que eu li um livro de uma travesti, mãe, feiticeira, taróloga, orácula, professora e artista multifacetada. Mel Bevacqua. Já fazem tempos que acompanho o trabalho da Mel de longe e agora “Transespírito” me trouxe pra perto, entrando, dentro do trânsito, dos transes do espírito.

Recebi esse livro em casa com o maior carinho e uma dedicatória tauriníssima pra uma tauriníssima do meio da terra “envio um quatro de ouros como marcador, carta que nos dá firmeza e estrutura”, e a partir dai entrei no transe que só poderia ter sido “escrito por uma travesti através do transe das palavras.”

Me alimentei das palavras, da paixão e de cada encontro sozinha ou juntas.

Me conectei com a escrita desse livro de uma forma muito visceral da introdução “sou uma escrita de pernas e braços, sou letras e garganta” ao final “existem tantas maneiras de compreender o tempo, mas sempre se entende o mesmo tempo” sem ponto final.

Pra Mel, o transe é contínuo no tempo.

Pra finalizar, deixo esse poema que tanto me identifiquei por ser uma árvore com excesso de terra, porém com falta de água e muito fogo. Desequilíbrios que as vezes podem queimar, mas tudo bem ter desequilíbrios no mapa astral “afinal é só esse excesso de terra que faz uma árvore”.

“a árvore tão inteira e tão desequilibrada. Aposto que ela olha seu mapa astral e diz tenho pouco fogo, não tenho nada de fogo, sou muito terra, tenho um pouco de ar e um pouco de água, mas sou muito terra. Mas logo ela percebe que está viajando e que o fogo nem faria tão bem pra ela assim, que o fogo a secaria, que o equilíbrio é brega e que é ótimo ter desequilíbrios no mapa astral, afinal é só esse excesso de terra que a faz uma árvore.”

FICHA TÉCNICA

Título: transespírito
Autora: Mel Mevacqua
Ano e país de publicação: 2020, Brasil
Editora: Imaginario
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #28: ‘Transderella’ de Lino

Foto: Luana Caroline

Por Luana Caroline Nascimento

Acho que não há sensação melhor no mundo quando nos deparamos com um personagem de um livro e pensamos “essa pessoa sou eu. Esse livro foi escrito para mim”. Quantas vezes não encontramos pequenas porções de nós em livros, filmes e músicas e temos eles como referência, um lugar para onde queremos voltar quando precisamos de acalento. E é por isso que a representatividade importa tanto, pois todo mundo tem o direito de se sentir incluso no grande mundo da literatura.

É por isso que nosso ninho aqui da Pássaro Liberto é um ninho de amor, o amor de Cindy e Malik. Acreditamos na literatura inclusiva, das pessoas normativas, negras, homossexuais, fada drag madrinha e das pessoas transexuais – insira aqui quem mais for do bonde do amor. É aqui que entra o mundo encantado de Transderella. Ainda não sei me expressar sobre esse livro, não fazem cinco minutos que terminei a leitura e precisei sentar na frente do computador para redigir esse texto que você agora está lendo.

Eu amei tanta coisa nesse mergulho literário que não sei o que apontar primeiro. A mulher trans tratada como igual e vivendo um romance digno de uma princesa em um grande castelo. Ao lado da melhor Fada Drag Madrinha que já conheci e com certeza uma das minhas personagens favoritas da literatura brasileira. É uma história gostosa, rápida de ler, contudo é uma história para ficar no coração-leitor para todo sempre.

O livro aborda as questões de gênero e sexualidade de uma forma tão simples, leve e tranquila; tais como elas deveriam ser vistas na sociedade. Por isso quando alguém disser que não entende nada do mundo LGBTQIA+ indique o livro “Transderella” sem mais demora. Mesmo os personagens vilões nos despertam compaixão, pois são pessoas machucadas pelo machismo e pela gordofobia e que refletem as cicatrizes que carregam.

Não darei mais spoilers dessa obra que reconta o clássico da Cinderela com uma personagem trans como protagonista. Ao Lino, o ser humano que deu vida a essa obra, todo meu amor e admiração.

FICHA TÉCNICA

Título: Transderella
Autora: Lino
Ano e país de publicação: 2019, Brasil (2ª edição)
Editora: Se Liga Editorial
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #27: ‘Cartas para ninguém’ da Diana Salu

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Ana Istschuk

Quando sento para escrever uma resenha, em geral, sinto certo receio. É que não sei ao certo como falar de uma autora e de sua obra sem usar as palavras escritas por ela em sua criação. Sinto que, por mais que eu me esforce, minhas palavras são insuficientes para contar o que foi o livro e a experiência de leitura. E não raro recorro ao uso de palavras, expressões e olhares que existem no livro para compor o meu texto – o que nem sempre o torna compreensível.

Nunca antes de “Cartas para ninguém” da Diana Salu tinha me sentido tão fora de lugar para escrever. Como falar de um livro sobre o encontro de alguém consigo mesma?! Mas não de qualquer um no processo de conhecimento de si, mas de um alguém que é mulher-travesti-sapatão achando a si mesma em cartas que escreveu para ninguém (que na verdade são para um alguém: para ela mesma, numa autorreferência).

Certamente é desconcertante, além de emocionante, se deparar com a obra de Salu. Ela mostra que a linha pontilhada trilhando o caminho percorrido na busca de encontrar alguém que você reconheça como você mesmo, por mais que seja incerto, é mais importante que o xis no mapa marcando a chegada. Que esse caminho é permeado, por vezes, de medo e de solidão resultante e resultado de crises de (auto)consciência. 

Os quadrinhos da autora nos mostram que parte do processo de se conhecer é saber que é possível se encontrar nas falhas, que esse processo envolve borrar e riscar certezas, reescrever a grafia da vida, a biografia. 

E a vida grafada no livro de Salu nos convida a aprender a ver as histórias que as ruínas (em nós) nos contam, sobre ter ciência de que sempre fica algo de tudo e qualquer coisa-experiência que tenha sido nossa. 

Saber sobre si é entender que por mais que se deseje ser outro, ver pelos olhos de outro, viver como outro, você só pode ser você. É isto que te cabe, com isso escreverá a tua história. E com toda essa jornada em busca da descoberta de si, do autoamor, vem a necessidade do cuidado, de se autocuidar continuamente, para poder flores(c)er.

As cartas enquadrinhadas de Salu revelam a anatomia de uma travesti sapatão que merece e deve ser ouvida. Uma de muitas vozes que estão a falar e escrever suas vivências. Histórias que podem ser encontradas na cole-sã escrevivências da padê editorial que aposta, publica e dá espaço para narrativas LBTs. Cale-se um pouco e escute mais. Nos outros também podemos encontrar nós mesmos.

FICHA TÉCNICA

Título: Cartas para ninguém
Autora: Diana Salu
Ano e país de publicação: 2019, Brasil (2ª edição)
Editora: Padê editorial
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #26: ‘Tibúrcia’ da Lenita Stark

Foto: MUM

Por MUM

30 de junho de 2020

Olho minhas mãos com maior atenção. 24 anos. Ação do tempo. Nossa pele é nossa página mais bem escrita. Todas as marcas, costuras, vivências de nossa experiência no plano físico. Encarnada nesse corpo que habitamos.

Sinto um aconchego imenso ao imaginar as mãozinhas enrugadas e calejadas de minha mãe. Todas as histórias de seu trabalho cravadas ali. Linhas do tempo. Lembro-me de quando juntava as mãos em reverência pra pedir “bença vó” e sentia suas duas mãozinhas macias em volta das minhas “Deus abençoe minha filha”. Adelina, era o nome dela.

Preciso dizer que “Tibúrcia” me fez adentrar em minha infância, muito parecida, apesar de eu e Lenita pertencermos a gerações diferentes. O tempo corre diferente em cidadezinhas do interior.

Em “Tibúrcia”, Lenita Stark conta sua própria história, a história de sua família e principalmente a história de sua avó Tibúrcia que a criou após o falecimento de sua mãe, Rosalina (que fora morta por seu pai).  A história é música, trama, sorrisos, lágrimas, força, natureza. Essa história é mulher.

Entre cantigas de roda (que confesso ter cantado todas em minha leitura), fotos de família, poemas rimados e desenhos de seu neto, Lenita me transportou de volta ao campo, as minhas amigas brincando na rua, meus vestidos feitos por minha mãe, fazer a reza e o cabeçalho na escolinha, andar no meio fio, pegar flores na rua, ir visitar minha avó nos finais de semana entre outro eventos que guardo com carinho no fundo de minhas lembranças. 

Sou grata por todas essas palavras, essas muitas lembranças que afloraste em mim. Não tenho dúvidas de que este foi um livro crucial em minha caminhada de escrita sobre as mulheres de minha família, obrigada por me fazer olhar pra minhas mãos novamente e para as mãos de todas que me seguraram no colo e zelaram por mim.

FICHA TÉCNICA

Título: Tibúrcia
Autora: Lenita Stark
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Editora: Texto e Contexto
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.