Resenha #08: ‘Rua Aribau’ coletânea de poemas organizada pela Alice Sant’Anna

Foto: Luana Caroline

Por Luana Caroline

“Rua Aribau” é uma coletânea de poemas publicados pela TAG e organizado pela Alice Sant’Anna. É um complemento ao livro “Nada” de Carmen Laforet. Com dosagens de melancolia e até humor os poemas são como um mergulho na alma e no universo feminino da personagem principal de “Nada”, Andrea que se muda para Barcelona para estudar e tenta fazer de uma casa desestruturada um lar para ela.

O livro combina 15 poesias de autoras brasileiras contemporâneas com desenhos exclusivos de artistas plásticas. É um livro sobre o feminino feito por mulheres. Há coisas que só uma mulher consegue expressar. Essa obra é uma delas!

A leitura é rápida, para ser feita em um dia apenas (ainda publicarei aqui uma lista de livros para se ler em um dia) e esquentar o coração. Se essa coletânea fosse um som, seria um violoncelo, e se fosse um carinho, seria carinho de avó. São poetisas brasileiras que expandem a conexão literária com as artes visuais promovendo um novo diálogo. Entre os assuntos em comum do livro, o doloroso ato de crescer representado em viagens, decadência, solidão adaptação e inequação que migra entre o menina e mulher.

Na apresentação o livro traz a cidade como poesia. Vagar, andar, tropeçar, enxergar. Tudo é poesia. São mulheres em deslocamento como na poesia de Alice Ruiz que pessoas chegam e se vão “como se pudessem chegar/ a algum lugar/ onde elas mesmas/ não estivessem”.

Aqui a personagem principal é si própria, é autoconhecimento, autoestima e compreensão do próprio lugar no mundo.

Ficha técnica:
Título: Rua Aribau
Organização: Alice Sant’Anna
Ano e país de publicação: 2018, Brasil
Número de páginas: 76
Editora: TAG Experiências Literárias
Estrelas: 5

Resenha #07: ‘Forte Apache’ do Ramon Ronchi

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Luana Caroline

Uma das resenha dessa semana é um livro de poesia que veio indicado pela curadoria de outro poeta. ‘Forte Apache’ é o livro de estreia do ponta-grossense Ramon Ronchi, que chegou nas minhas mãos pelo Kleber Bordinhão, essa informação será necessária para que percebas o recorte desse texto. O livro divide os poemas em temáticas e nesta resenha usarei cinco poemas para demonstrar minhas impressões.

Os primeiros poemas são os mais fortes do livro, como o que dá título à obra, e tratam da violência doméstica a partir da memória infantil fazendo o ato de crescer presente na narrativa. A violência é retratada pelo olhar da criança que a época não entendia o que estava com clareza o que acontecendo. A imaginação infantil é uma memória forte nesta parte do livro.

Aquela realidade dolorida expressa pela sutileza de uma alma de passarinho impacta o leitor, lembrou-me a sensação que tive ao ler ‘O pai da menina morta’ (você pode conferir a resenha aqui), embora o foco das narrativas não sejam os mesmos a sensação de desconforto pela franqueza do texto é impressionante.

A segunda parte do livro trata de críticas políticas com versos abertos, como “a cadela do facismo é debochada/ a plena luz do dia morde canelas magras”. Dessa sessão temática destaco também o poema “brasil escravocrata” que em pequenas doses, tão sutis que os da primeira parte do livro, nos lembra que todo branco carrega o crime da escravidão consigo e que estes mesmos brancos tentam esquecer a qualquer custo essa memória sangrenta.

Fazer poesia disso tudo, por mais belo que pareça, é um processo de entrega. Mesmo com textos ficcionais (como o Fictícias, do já citado Kleber Bordinhão) cada página também revela um pouco do Ramon, em cada escolha de tema. Ainda que em uma das páginas esteja expresso que “o poeta é um fingidor/ e não há maneira mais sincera de mentir/ que a poesia/ assim como aprendi com pessoa/ assim como me ensinou manoel”, pois afinal o texto poético sempre nos expressa e fica impresso em quem lê. Digo isso, também, porque o posicionamento político presente no livro me foi claro e cativo desde o início e me pode ser reafirmado na entrevista concedida a blog (confira aqui).

Avançando pelas temáticas e antes de encerrar esse texto destaco uma última poesia que assim como a citada anteriormente brinca com as grandes referências literárias: “Ramon e o mundo”. Este texto não é feliz sozinho, mas sim e também, pela diagramação ao lado de “soneto ao fim de viagem”, pois as duas passam pelo tema do crescimento e que crescer nem sempre é fácil neste “mundo, mundo, vasto mundo”.

É uma obra completa, necessária para nossos dias. O autor em suas linhas saí do livro e nos abraça, seguiremos e resistiremos juntos.

Ficha técnica:
Título: Forte Apache
Autor: Ramon Ronchi
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Número de páginas: 105
Editora: Penalux
Estrelas: 5

Resenha #06: ‘A mulher de pés descalços’ da Scholastique Mukasonga

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Por Ana Istschuk

–  Amanhã vou te trazer o livro daquela escritora da FLIP, acho que você vai gostar.

Assim, em 2018, numa conversa de corredor entre aluna – eu – e professor que conheci “A mulher de pés descalços”. Scholastique Mukasonga foi uma das atrações principais da Flip 2017. A autora foi publicada no Brasil pela editora Nós. O livro que me foi emprestado é a narrativa de uma filha sobre sua infância e adolescência, mas é especificamente uma homenagem a sua mãe, uma narrativa de Scholastique sobre Stefania. É esperado que o texto tenha um tom de admiração, já que se trata de uma relação de mãe e filha, mas essa obra vai além, porque mostra a luta de uma mãe tutsi para sua sobrevivência, de sua família e das tradições de seu povo num cenário de guerra civil em Ruanda.

Stefania foi uma das vítimas do genocídio de 1994 praticado pelos hutus. Scholastique já não estava mais em Ruanda na época, tinha ido para França dois anos antes. Ela acompanhou de longe o destino da sua família. Não pode cobrir o cadáver da mãe, protegendo-o dos olhares estranhos, como Stefania a havia ensinado, como obrigação de filha que ela aprendeu que tinha. Daí nasceu o romance, para ser a mortalha que o corpo de Stefania não recebeu.

Apesar desse cenário trágico e triste, o livro mostra cenas familiares, da infância da autora, do cotidiano de uma família tutsi. Há várias histórias nesse tom e por vezes me peguei esquecida do contexto de guerra que perpassa o livro – quando eu estava imersa nessas cenas cotidianas e tradicionais vinha a escritora e me lembrava de que ainda se trata de um cenário de guerra. É esse equilíbrio entre o leve e o pesado, o costumeiro cotidiano de infância/adolescência e a guerra, que constrói a narrativa da Scholastique.

A autora tem cinco livros publicados, sendo “Baratas” (2006) sua obra de estreia. Ela também já ganhou prêmios como o importante francês Renaudot. No Brasil, a editora Nós foi a responsável pela publicação das até então inéditas obras da escritora: “Nossa senhora do Nilo” (2012) e “A mulher de pés descalços”. Scholastique atualmente vive na França. Com seus 63 anos de idade, a autora busca em suas obras manter viva a memória dos que morreram na guerra de Ruanda, pois, segundo a autora, esquecer dessas pessoas significa matá-las uma segunda vez.

Ficha técnica:
Título: A mulher de pés descalços
Autora: Scholastique Mukasonga
Ano e país de publicação: 2008, França
Editora: Nós
Estrelas: 5

Resenha #05: ‘Quarto de despejo’ da Carolina de Jesus

Foto: um metro e meio de livros

Por Luana Caroline Nascimento

Quarto de Despejo é um diário de uma negra, que mora na favela de São Paulo, e sonha em ser escritora. Logo na primeira página o primeiro registro é de uma mãe negra que quer dar um presente de aniversário para a filha que sonha em ter sapatos. A mãe procura até encontrar um sapato no lixo. O sapato tirado do lixo é o presente de aniversário da filha. Durante a leitura Caroline de Jesus escancara a realidade crua das favelas brasileiras.

Um livro forte, chocante, que fere e incomoda o leitor. Não se pode ser o mesmo depois de ler esta obra. Eu conheci o livro por acaso na minha adolescência e li um exemplar da Biblioteca Pública da minha cidade, anos depois reli o livro para o encontro do Clube de Leitura Só Garotas – o mesmo exemplar da mesma biblioteca. Foram duas leituras diferentes para duas Luanas diferentes.

A história se passa na década de 1960, porém as marcas temporais se perdem fazendo da narrativa extremamente atual para os dias de hoje. Ainda há diversas Carolinas de Jesus pelos morros e favelas que sofrem de fome e abandono social. Para mim outra marca forte da narrativa são os erros de português da escrita que não foram corrigidos na edição, é uma realidade sem retoques; se eles fossem apagados a história não chocaria tanto.

Coralina reforça o tempo todo que o pobre não pode repousar nunca e que a favela não é lar. O pobre não se compadece com a pobreza do outro na favela, e ali naquele meio elas não tem sororidade com as outras mulheres da favela, perpetuando comentários e a cultura machista do meio.

Ela fala muito da fome, só entende o que ela fala quem passa fome no Brasil. “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”, escreve ela. Os registro de Carolina são um ato revolucionário do povo negro, é um instrumento múltiplo de luta contra o preconceito.

Ficha técnica:
Título: Quarto de Despejo: Diário de uma favelada
Autor: Carolina de Jesus
Ano e país de publicação: 1960, Brasil
Número de páginas: 173
Editora: Ática
Estrelas: 5

Resenha #04: ‘Insubmissas lágrimas de mulheres’ da Conceição Evaristo

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Ana Istschuk

Procurando uma autora brasileira e contemporânea pela internet achei uma lista que trazia o nome de Conceição Evaristo. Era meio do ano e o “Leia Mulheres PG” tava montando sua programação semestral. Na lista que visitei tinha especificamente o livro “Insubmissas lágrimas de mulheres” – hoje me pergunto o por quê ao considerar que a autora ganhou um Jabuti com “Olhos d’água” (informação que só tive depois) – e achei esse título atraente.

Li um pouco sobre o que se tratava a obra e a coloquei na lista de livros para discutirmos no clube da leitura. A escolha foi despretensiosa e eu não sabia o que me esperava. Quando abri o livro senti um soco no estômago e um nó na garganta. Soube no primeiro dos treze contos que os temas de escrita da Conceição seriam pesados e que eu precisava me preparar pro que viria. Acredito que o que mais doía era pensar que, por mais que o livro seja categorizado como ficcional, várias mulheres brasileiras passam por situações similares, quando não piores.

Foram treze histórias. Treze vidas de mulheres que passaram pela minha mão. Treze vidas brasileiras. Vidas negras e periféricas das quais nunca tive contato dada minha classe e por ser branca. Treze mulheres com suas insubmissas lágrimas que sobrevivem a dura realidade de ser mulher, de ser negra, de ser da periferia do Brasil. Que sobreviveram à violência doméstica, estupro, machismo, falta de reconhecimento e aceitação, ao suicídio, ao racismo e tantas outras coisas que tornam a vida mais difícil de suportar – a injustiça escancarada.

Por vezes me peguei chorando, com o livro fechado, numa mistura de raiva, afeto e desilusão. Mas era justamente a não desistência dessas mulheres que me impulsionava para continuar a minha leitura. Acho curioso quando dizem que mulheres são fortes. Parece que é como se elas tivessem escolhido ser assim e não fossem obrigadas pelo meio, por suas condições a serem fortes. Às vezes me pergunto se já foi dada a chance uma uma mulher poder ser fraca. Acredito que não. O “sexo frágil” é na verdade o “sexo forte”. Forte para existir, forte para sobreviver.

Bom, nem só de temas pesados o livro é feito. Histórias de mulheres inspiradoras que tiveram conquistas de sonhos e de suas vontades também são contadas. Há uma mulher artista que se usa de matéria-prima, uma mulher bailarina que enfrenta preconceitos para conseguir viver da dança, uma mulher que ama de uma forma tão única que é impossível não se encantar com sua história… Enfim, Conceição captura vidas e captura também quem lê.

A autora conta as histórias com muita sensibilidade e respeito pelas personagens. Ela se mostra no livro como a observadora e “escutadora” que é e traz traços de certas vivências em outras, o que nos evidencia uma percepção atenta e zelosa. Outra característica que considero significativa no livro é que os treze contos têm como títulos apenas os nomes das mulheres protagonistas das histórias – e de suas vidas. Não sei se haveria jeito melhor de intitular um texto assim – focado numa vida, leve quanto a linguagem, poético, simples e real – do que usando um dos recursos que conhecemos que mais se aproxima – por vezes – da definição de uma pessoa: seu nome.

Ficha técnica:
Título: Insubmissas lágrimas de mulheres
Autora: Conceição Evaristo
Ano e país de publicação: 2011, Brasil
Editora: Malê
Estrelas: 5