Bookhaul #03: Leituras de maio

Todo mês faremos um vídeo com os títulos que pretendemos ler. O objetivo é apresentar os livros contando sobre seu conteúdo e mostrar as suas edições. Confira a nossa seleção de obras para o mês de maio.

Lista dos livros indicados no vídeo:

  • Rua Aribau – Alice Santtanna org.
  • Pó de lua: nas noites em claro – Clarice Freire
  • Um útero é do tamanho de um punho – Angélica Freitas
  • Vida e vidas – Luiza Loreiro
  • Star Wars: o último jedi – Jason Fry
  • A guerra não tem rosto de mulher – Svetlana Aleksiévitch
  • O sonho dos heróis – Adolfo Bioy Casares
  • Saudade – Melissa Garabeli e Phellip William
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Resenha #06: ‘A mulher de pés descalços’ da Scholastique Mukasonga

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Por Ana Istschuk

–  Amanhã vou te trazer o livro daquela escritora da FLIP, acho que você vai gostar.

Assim, em 2018, numa conversa de corredor entre aluna – eu – e professor que conheci “A mulher de pés descalços”. Scholastique Mukasonga foi uma das atrações principais da Flip 2017. A autora foi publicada no Brasil pela editora Nós. O livro que me foi emprestado é a narrativa de uma filha sobre sua infância e adolescência, mas é especificamente uma homenagem a sua mãe, uma narrativa de Scholastique sobre Stefania. É esperado que o texto tenha um tom de admiração, já que se trata de uma relação de mãe e filha, mas essa obra vai além, porque mostra a luta de uma mãe tutsi para sua sobrevivência, de sua família e das tradições de seu povo num cenário de guerra civil em Ruanda.

Stefania foi uma das vítimas do genocídio de 1994 praticado pelos hutus. Scholastique já não estava mais em Ruanda na época, tinha ido para França dois anos antes. Ela acompanhou de longe o destino da sua família. Não pode cobrir o cadáver da mãe, protegendo-o dos olhares estranhos, como Stefania a havia ensinado, como obrigação de filha que ela aprendeu que tinha. Daí nasceu o romance, para ser a mortalha que o corpo de Stefania não recebeu.

Apesar desse cenário trágico e triste, o livro mostra cenas familiares, da infância da autora, do cotidiano de uma família tutsi. Há várias histórias nesse tom e por vezes me peguei esquecida do contexto de guerra que perpassa o livro – quando eu estava imersa nessas cenas cotidianas e tradicionais vinha a escritora e me lembrava de que ainda se trata de um cenário de guerra. É esse equilíbrio entre o leve e o pesado, o costumeiro cotidiano de infância/adolescência e a guerra, que constrói a narrativa da Scholastique.

A autora tem cinco livros publicados, sendo “Baratas” (2006) sua obra de estreia. Ela também já ganhou prêmios como o importante francês Renaudot. No Brasil, a editora Nós foi a responsável pela publicação das até então inéditas obras da escritora: “Nossa senhora do Nilo” (2012) e “A mulher de pés descalços”. Scholastique atualmente vive na França. Com seus 63 anos de idade, a autora busca em suas obras manter viva a memória dos que morreram na guerra de Ruanda, pois, segundo a autora, esquecer dessas pessoas significa matá-las uma segunda vez.

Ficha técnica:
Título: A mulher de pés descalços
Autora: Scholastique Mukasonga
Ano e país de publicação: 2008, França
Editora: Nós
Estrelas: 5

Podcast #03: Barbara Popadiuk


Produção quinzenal sobre literaturas que podem derrubar o porco.

Convidamos Barbara Popadiuk para conversar sobre livros e produção de autoria feminina. Barbara é uma das fundadoras do Leia Mulheres PG e conversou com a gente sobre poesia, quadrinhos e representatividade feminina. E, claro, perguntamos para nossa convidada quais seriam os cinco livros que ela salvaria em caso de incêndio e ela nos contou que tem um plano de fuga para salvar todos os livros.

A seguir todos os livros, artistas, bandas, músicas e listas citados no podcast:

Livros:
Outros jeitos de usar a boca – Rupi Kaur
Gibi da turma da Mônica – Maurício de Sousa
Insubimissas lágrimas de mulheres – Conceição Evaristo
Presos que menstruam – Nana Queiroz
Luluzinha – Marjorie Henderson Buell
Conto ‘Maria’ do livro ‘Olhos d’água’ – Conceição Evaristo
Olhos d’água – Conceição Evaristo
A guerra não tem rosto de mulher – Svetlana Alexijevich
Vozes De Tchernóbil: A História Oral Do Desastre Nuclear – Svetlana Alexijevich
O Fim do Homem Soviético – Svetlana Alexijevich
As últimas testemunnhas: crianças na Segunda Guerra Mundial – Svetlana Alexijevich
Homens interessantes e outras histórias – Nikolai Leskov
Simone de Beauvoir
Rachel de Queiroz
Kleber Bordinhão
Ramon Ronchi
A bolsa amarela – Lygia Bojunga
Clube de leitura Leia Mulheres PG
Clube de leitura Só Garotas
Clube de leitura Pretaria BlackBooks

Artista:
Djanira da Motta e Silva
Yoko Ono

Podcast:
Botecast
O porco Napoleão – Weider Martins

Canal no YouTube:
Nunca vi 1 cientista – Marie Curie

Filmes:
Estrelas Além do Tempo – direção: Theodore Melfi
O jogo da imitação – direção: Morten Tyldum
O quarto de Jack – direção: Lenny Abrahamson

Desafio de literatura do Pássaro Liberto 2019

Indicação de leitura para nós:
Quarto – Emma Donoghue

5 livros:
Mulheres que correm com os lobos – Clarissa Estés Pinkola
O Hobbit – J. R. R. Tolkien
Harry Potter e a ordem da fênix – J. K. Rowling
Alice: Aventuras de Alice no país das maravilhas – Lewis Carroll
Orgulho e preconceito – Jane Austen
Extra: uma HQ da turma da Mônica
P.S.: a Barbara tem uma rota de fuga para poder salvar todos os livros da estante em caso de incêndio além dos cachorros que ela tem.

O porco Napoleão é uma produção quinzenal do projeto “Pássaro Liberto”, gravado no Cactus Coffee Bar.

Resenha #05: ‘Quarto de despejo’ da Carolina de Jesus

Foto: um metro e meio de livros

Por Luana Caroline Nascimento

Quarto de Despejo é um diário de uma negra, que mora na favela de São Paulo, e sonha em ser escritora. Logo na primeira página o primeiro registro é de uma mãe negra que quer dar um presente de aniversário para a filha que sonha em ter sapatos. A mãe procura até encontrar um sapato no lixo. O sapato tirado do lixo é o presente de aniversário da filha. Durante a leitura Caroline de Jesus escancara a realidade crua das favelas brasileiras.

Um livro forte, chocante, que fere e incomoda o leitor. Não se pode ser o mesmo depois de ler esta obra. Eu conheci o livro por acaso na minha adolescência e li um exemplar da Biblioteca Pública da minha cidade, anos depois reli o livro para o encontro do Clube de Leitura Só Garotas – o mesmo exemplar da mesma biblioteca. Foram duas leituras diferentes para duas Luanas diferentes.

A história se passa na década de 1960, porém as marcas temporais se perdem fazendo da narrativa extremamente atual para os dias de hoje. Ainda há diversas Carolinas de Jesus pelos morros e favelas que sofrem de fome e abandono social. Para mim outra marca forte da narrativa são os erros de português da escrita que não foram corrigidos na edição, é uma realidade sem retoques; se eles fossem apagados a história não chocaria tanto.

Coralina reforça o tempo todo que o pobre não pode repousar nunca e que a favela não é lar. O pobre não se compadece com a pobreza do outro na favela, e ali naquele meio elas não tem sororidade com as outras mulheres da favela, perpetuando comentários e a cultura machista do meio.

Ela fala muito da fome, só entende o que ela fala quem passa fome no Brasil. “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”, escreve ela. Os registro de Carolina são um ato revolucionário do povo negro, é um instrumento múltiplo de luta contra o preconceito.

Ficha técnica:
Título: Quarto de Despejo: Diário de uma favelada
Autor: Carolina de Jesus
Ano e país de publicação: 1960, Brasil
Número de páginas: 173
Editora: Ática
Estrelas: 5

Resenha #04: ‘Insubmissas lágrimas de mulheres’ da Conceição Evaristo

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Ana Istschuk

Procurando uma autora brasileira e contemporânea pela internet achei uma lista que trazia o nome de Conceição Evaristo. Era meio do ano e o “Leia Mulheres PG” tava montando sua programação semestral. Na lista que visitei tinha especificamente o livro “Insubmissas lágrimas de mulheres” – hoje me pergunto o por quê ao considerar que a autora ganhou um Jabuti com “Olhos d’água” (informação que só tive depois) – e achei esse título atraente.

Li um pouco sobre o que se tratava a obra e a coloquei na lista de livros para discutirmos no clube da leitura. A escolha foi despretensiosa e eu não sabia o que me esperava. Quando abri o livro senti um soco no estômago e um nó na garganta. Soube no primeiro dos treze contos que os temas de escrita da Conceição seriam pesados e que eu precisava me preparar pro que viria. Acredito que o que mais doía era pensar que, por mais que o livro seja categorizado como ficcional, várias mulheres brasileiras passam por situações similares, quando não piores.

Foram treze histórias. Treze vidas de mulheres que passaram pela minha mão. Treze vidas brasileiras. Vidas negras e periféricas das quais nunca tive contato dada minha classe e por ser branca. Treze mulheres com suas insubmissas lágrimas que sobrevivem a dura realidade de ser mulher, de ser negra, de ser da periferia do Brasil. Que sobreviveram à violência doméstica, estupro, machismo, falta de reconhecimento e aceitação, ao suicídio, ao racismo e tantas outras coisas que tornam a vida mais difícil de suportar – a injustiça escancarada.

Por vezes me peguei chorando, com o livro fechado, numa mistura de raiva, afeto e desilusão. Mas era justamente a não desistência dessas mulheres que me impulsionava para continuar a minha leitura. Acho curioso quando dizem que mulheres são fortes. Parece que é como se elas tivessem escolhido ser assim e não fossem obrigadas pelo meio, por suas condições a serem fortes. Às vezes me pergunto se já foi dada a chance uma uma mulher poder ser fraca. Acredito que não. O “sexo frágil” é na verdade o “sexo forte”. Forte para existir, forte para sobreviver.

Bom, nem só de temas pesados o livro é feito. Histórias de mulheres inspiradoras que tiveram conquistas de sonhos e de suas vontades também são contadas. Há uma mulher artista que se usa de matéria-prima, uma mulher bailarina que enfrenta preconceitos para conseguir viver da dança, uma mulher que ama de uma forma tão única que é impossível não se encantar com sua história… Enfim, Conceição captura vidas e captura também quem lê.

A autora conta as histórias com muita sensibilidade e respeito pelas personagens. Ela se mostra no livro como a observadora e “escutadora” que é e traz traços de certas vivências em outras, o que nos evidencia uma percepção atenta e zelosa. Outra característica que considero significativa no livro é que os treze contos têm como títulos apenas os nomes das mulheres protagonistas das histórias – e de suas vidas. Não sei se haveria jeito melhor de intitular um texto assim – focado numa vida, leve quanto a linguagem, poético, simples e real – do que usando um dos recursos que conhecemos que mais se aproxima – por vezes – da definição de uma pessoa: seu nome.

Ficha técnica:
Título: Insubmissas lágrimas de mulheres
Autora: Conceição Evaristo
Ano e país de publicação: 2011, Brasil
Editora: Malê
Estrelas: 5