Resenha #07: ‘Forte Apache’ do Ramon Ronchi

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Luana Caroline

Uma das resenha dessa semana é um livro de poesia que veio indicado pela curadoria de outro poeta. ‘Forte Apache’ é o livro de estreia do ponta-grossense Ramon Ronchi, que chegou nas minhas mãos pelo Kleber Bordinhão, essa informação será necessária para que percebas o recorte desse texto. O livro divide os poemas em temáticas e nesta resenha usarei cinco poemas para demonstrar minhas impressões.

Os primeiros poemas são os mais fortes do livro, como o que dá título à obra, e tratam da violência doméstica a partir da memória infantil fazendo o ato de crescer presente na narrativa. A violência é retratada pelo olhar da criança que a época não entendia o que estava com clareza o que acontecendo. A imaginação infantil é uma memória forte nesta parte do livro.

Aquela realidade dolorida expressa pela sutileza de uma alma de passarinho impacta o leitor, lembrou-me a sensação que tive ao ler ‘O pai da menina morta’ (você pode conferir a resenha aqui), embora o foco das narrativas não sejam os mesmos a sensação de desconforto pela franqueza do texto é impressionante.

A segunda parte do livro trata de críticas políticas com versos abertos, como “a cadela do facismo é debochada/ a plena luz do dia morde canelas magras”. Dessa sessão temática destaco também o poema “brasil escravocrata” que em pequenas doses, tão sutis que os da primeira parte do livro, nos lembra que todo branco carrega o crime da escravidão consigo e que estes mesmos brancos tentam esquecer a qualquer custo essa memória sangrenta.

Fazer poesia disso tudo, por mais belo que pareça, é um processo de entrega. Mesmo com textos ficcionais (como o Fictícias, do já citado Kleber Bordinhão) cada página também revela um pouco do Ramon, em cada escolha de tema. Ainda que em uma das páginas esteja expresso que “o poeta é um fingidor/ e não há maneira mais sincera de mentir/ que a poesia/ assim como aprendi com pessoa/ assim como me ensinou manoel”, pois afinal o texto poético sempre nos expressa e fica impresso em quem lê. Digo isso, também, porque o posicionamento político presente no livro me foi claro e cativo desde o início e me pode ser reafirmado na entrevista concedida a blog (confira aqui).

Avançando pelas temáticas e antes de encerrar esse texto destaco uma última poesia que assim como a citada anteriormente brinca com as grandes referências literárias: “Ramon e o mundo”. Este texto não é feliz sozinho, mas sim e também, pela diagramação ao lado de “soneto ao fim de viagem”, pois as duas passam pelo tema do crescimento e que crescer nem sempre é fácil neste “mundo, mundo, vasto mundo”.

É uma obra completa, necessária para nossos dias. O autor em suas linhas saí do livro e nos abraça, seguiremos e resistiremos juntos.

Ficha técnica:
Título: Forte Apache
Autor: Ramon Ronchi
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Número de páginas: 105
Editora: Penalux
Estrelas: 5

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Entrevista #03: Ramon Ronchi

Ramon Ronchi autor de Forte Apache | Foto: José Aldinan/Diário dos Campos

Essa entrevista é com o escritor ponta-grossense Ramon Ronchi, autor de “Forte Apache”, seu livro de estreia. O autor escreve poesias e nos conta como foi se descobrir escritor, seu processo de escrita, sua obra, entre outros assuntos.

Trajetória com a escrita

Como você se descobriu escritor?

Então, acho que é uma resposta que muita gente dá. Eu comecei a escrever com a ideia de música. Eu ouvia música e queria ter uma banda. Ouvia lá e queria fazer. [Tinha] Várias influências, desde rock metal até o rap que ouvia na escola com os amigos. Queria fazer alguma coisa nesse sentido. Comecei a escrever pra fazer música mesmo, tentar fazer uma letra de música. E por muito tempo foi isso, tanto que eu percebi que daqui pode sair um poema. A estrutura é a mesma, dá pra trabalhar com isso. Então, escrevendo poema mesmo acho que desde 2008, 2009 que foi quando comecei a pensar no texto como um poema, mas a ideia do início era aquela ideia meio adolescente de ser um rockstar.

E prosa, você escreve também?

Não. Eu já tentei, até me arrisquei em alguns contos, já mandei para alguns concursos uma vez e não deu resultado nenhum, mas não é uma coisa que eu paro para fazer. Já tentei. Prefiro escrever poema, gosto mais de escrever poema pela própria questão de tempo mesmo, um pouco mais cotidiano, são visões um pouco mais curtas. Eu gosto mais do poema. Eu acredito que eu vou me arriscar ainda algum dia a escrever um romance, voltar a escrever prosa de novo. Mas no momento não tem nada, nenhum projeto de nada que eu pense ‘vai ser assim’. Eu acredito que vai acontecer, só não sei quando.

Como é o processo de escrita para você?

Eu não tenho um ritual. Tem pessoas que têm esse ritual de pegar um dia da semana ou um local específico. Aquela ideia bem romântica de sentar no seu gabinete e escrever. Eu não tenho isso. Tem vezes que eu passo a semana inteira, o final de semana, tentando trabalhar dentro de uma ideia. Eu quero escrever sobre isso e não sai nada. Às vezes sai uma coisa legal, outras saem no cotidiano, de ouvido. [Como quando] Estou saindo da escola ou entrando, no meio da aula, estou dando uma aula e surge uma coisa e isso é bacana. Anoto no livro ali. Ou no estacionamento de mercado, aconteceu alguma coisa ali e isso dá uma imagem legal para um poema. Então eu não tenho um ritual, as coisas acontecem meio aleatoriamente. Algumas de dedicação, algumas de trabalho, algumas que obviamente irão ser editadas depois, mas que surgem no calor do momento e são mais espontâneas e outras que eu me dedico e ‘quero escrever sobre isso agora’. Mas não tenho um ritual ou um lugar específico.

Sobre as temáticas, como funciona para você? Você percebe que você tem uma necessidade, por exemplo, hoje de escrever sobre política porque a situação está complicada no país ou você acha que não tem tanto essa obrigatoriedade?

Eu tenho, eu me cobro um pouco para escrever sobre isso porque eu acho necessário. Uma das minhas visões pessoais de literatura: eu enxergo a literatura, a arte de uma forma geral como uma ferramenta de contestação, de discussão. Eu acho importante e me cobro muito para fazer isso. E isso é um problema porque como eu me cobro muita coisa que sai, sai no passional, às vezes sai naquele calor do momento e eu tenho dificuldade de editar coisas que são mais políticas. É uma temática que eu acho importante, que eu gosto e talvez por isso não tenha tanto. Eu tenho medo às vezes de colocar alguma coisa e pensar que falei besteira ou não deveria ter falado dessa forma. Então eu acabo escrevendo muito e apagando muito sobre essa temática. Eu acho que as coisas que mais são publicadas são as mais despretensiosas que aí eu consigo ter um distanciamento maior com o texto. Eu consigo reler o texto com distanciamento. Analisar mesmo: ‘aqui ficou bacana’, ‘isso funcionou’, ‘isso não funcionou’. Acho que tudo que envolve muito pessoal, emocional, você pode cometer o erro de ser muito imaturo ou de ser muito apaixonado e muitas vezes [pode ser que] a recepção desse texto não seja legal e a gente acabe se ofendendo mais por isso. Não que eu ligue muito pra isso também, mas tenho essa ideia.

E tem alguém que você corre mostrar as coisas que você escreve?

Já teve. Teve vezes que o Kleber [Bordinhão], a gente estudava juntos, eu escrevia e mostrava porque eu sabia que ele já tinha livro então era o cara crítico para ler, sempre mostrava. Agora ultimamente não tenho. [Tem o] Facebook. Acabo escrevendo e colocando lá, mas não tem ninguém que eu mostre direto, ‘olha veja o que eu escrevi’. Hoje não tenho mais.

O que significa escrever para você? Ou a poesia, como você a definiria?

Pessoalmente? Para mim é uma necessidade. Hoje eu acho que não consigo passar uma semana sem escrever alguma coisa. Mesmo que não seja algo que eu pense que isso possa ser publicado, mas a expressão literária para mim hoje ela é muito importante. Tem gente que faz isso com fotos, desconta tirando fotos. Para mim é escrever. Eu tenho a necessidade de escrever. Ainda mais no momento que vivemos hoje politicamente, principalmente, mas a necessidade de ressignificação de ver coisas e pensar em como essa imagem seria na literatura. Essa necessidade vem do meu trabalho, eu sou professor de literatura então eu vejo isso como uma coisa importante pra vida. Eu estou o todo dia falando isso, todo dia vivendo isso. Ela realmente se tornou importante pra mim, pra minha vida. Sempre lendo alguma coisa, escrevendo alguma coisa, estar trabalhando com o texto é importante.

Produção e reações

Tem alguns poemas que você brinca com o soneto, rima e formato. Você teve fases de começar rimando, começar nos formatos sonetos ou sempre foi uma escrita mais livre? Qual a tua relação com esse tipo de escrita?

No início era a preocupação com rima, a música. Quando eu comecei a estudar, entrei no curso de letras, comecei a estudar poesia a estrutura do poema é uma coisa que encanta, uma coisa formal, na régua. Então, sim, teve um momento que a minha ideia era: ‘nossa tenho que escrever um soneto decassílabo’ e eu ficava brincando, brincando não, trabalhando mesmo e tentando montar. Foi interessante também para a prática de escrita. Talvez na época não tivesse tanta consciência de que não é necessário e que existem outras coisas. Essa ideia de brincar com o soneto é que hoje na minha visão essa questão de por uma regra para a literatura chega a ser cômica, as brincadeiras surgem por isso, mas sim é legal as vezes o desafio de ‘vou me propor a isso hoje porque quero fazer um poema na métrica’. Então tem haicais no livro que são dentro da métrica, que tem a ideia do haicai tradicional de ter uma estação do ano e não ter rima. Alguns são nesse sentido e outros haicais são simplesmente três versos e pronto. Alguns são sonetos que são uma brincadeira, mas que por mais que esteja falando eles estão dentro da estrutura dois versos dentro da métrica. É óbvio que tem uma importância histórica e às vezes é um desafio também tentar colocar. A ideia da brincadeira é que isso não é necessário, você pode fazer também, mas não é isso só que é um poema.

E você chegou a se surpreender com o que você já tinha escrito há anos? Ou não, foi mais um processo de [achar] coisas que você nem lembrava, por exemplo, que você tinha escrito e você falou ‘meu deus, eu escrevi isso’?

Teve coisa assim que eu pensei ‘cara, não fui eu que escrevi isso aqui’. Teve coisa que eu li e falei ‘será que fui eu?’ e joguei no Google, de pensar ‘será que não foi outra pessoa que escreveu?’, e acabava marcando o meu Facebook, foi publicado lá. Teve bastante coisa interessante nesse sentido de reler e gostar mais ainda do que eu tinha escrito e ficar na dúvida. Eu gostei tanto que não acreditei que fui eu que escrevi isso daqui. Aconteceu a surpresa legal também.

Você comentou que publicava no Facebook, como era a recepção de quem lia?

No Facebook é horrível. Você põe um poema lá, pouca gente curte e às vezes você põe um texto, sei lá um negócio nada a ver, e milhões e milhões de curtidas. Não dá pra ter muito como parâmetro porque no Facebook muito gente está para passar o tempo mesmo, para se divertir. O cara não quer ler um poema agora, quer ver notícia rápida, o que a galera está comentando, ver foto. No Facebook não sei se pode ser um termômetro, mas se for um termômetro é muito ruim porque poucos poemas tiveram curtidas legais, bastante gente curtindo, mas às vezes rola comentários ou gente que manda mensagem: ‘gostei do que você escreveu lá’. Às vezes acontece, mas na maior parte das vezes não acontece uma resposta significativa.

Obra

E por que você resolveu lançar um livro só agora?

Um pouco no início era medo do julgamento de como as pessoas vão encarar isso, embora pareça que falar isso é um pouco suspeito porque ao mesmo tempo em que eu falava que eu tinha medo do julgamento eu estava colocando no Facebook. Só que no Facebook você tem uma liberdade, é a tua linha do tempo e você pode escrever o que quiser independente, se a galera não curtiu não curte, pode apagar o comentário e pronto. Um pouco era por isso, por medo do julgamento. Aí chega um momento que isso vira uma curiosidade, ‘como será que a galera receberia isso como um livro?’, e obviamente também a influencia dos amigos. Tem o Kleber [Bordinhão], um amigo meu que também é poeta, e ele mesmo falava ‘cara, você vive escrevendo porque você não lança isso em livro. Põe no papel, manda pra editora. Vamos ver no que vai dar’. Essa ideia da curiosidade de como vai ser a recepção… Porque ler os meus amigos já liam, a não ser quem me excluiu ou que me bloqueou. Mas ter o livro físico é interessante também. E por trabalhar com literatura eu percebo a importância do livro mesmo, da publicação. Então ‘vamos tentar, vamos colocar na roda para ver o que dá’.

No lançamento do livro você falou que nem todos os poemas são vivências tuas. Inclusive você contou que no sarau você leu um poema e alguém te abraçou achando que você tinha vivido o que retratava no texto. Veio primeiro o poema de um eu lírico que não é você ou primeiro veio o poema de coisa que eram suas?

Acredito que no início tudo é muito pessoal. Começa escrevendo para se identificar, você vai se lendo nos poemas. Então os primeiros poemas eram ou do que eu estava sentindo, aquela coisa adolescente, jovem, e outros poemas, coisas que realmente eram da minha vida, o que eu vivenciava. Com o tempo fui percebendo a própria literatura como a ficção, algo que não precisa ser necessariamente realidade. Não é estar mentindo, é a realidade, mas não a minha necessariamente. É um tipo de realidade, pode ser. Com o tempo você vai descobrindo a ficção ou a escrita artística, mas no início é muito pessoal.

Como foi o processo o processo de construção do livro e a seleção dos poemas que estão no livro?

Como é uma coletânea de coisas que eu estou escrevendo há muito tempo eu juntei a maior parte do que eu encontrei, tem muita coisa que se perdeu mesmo, computador que deu pau, celular que estragou. O que eu consegui reunir de coisas que eu tinha guardado no Facebook eu juntei, imprimi tudo e comecei a selecionar o que era mais ou menos dentro da temática. Os primeiros poemas não, os primeiros poemas que são aqueles que trabalham mais com a violência doméstica eles foram escritos propositadamente para isso. Era uma ideia lançar um livro com essa temática que acabou não saindo, existe um projeto, mas só falando de violência. Aqueles primeiros foram escritos para isso. Os outros não, eu selecionei por temática mesmo. Joguei tudo no chão e fui vendo: ‘olha, esse é um pouco mais político’, ‘isso aqui é brincadeira com as palavras mesmo. Brinca com rima e com métrica’, tem outros que são mais pessoais, do eu, parafraseando a ideia do Drummond ‘eu e o mundo’, como eu me enxergava a questão da solidão e foi por temática mesmo. O que era relacionado um pouco à cidade, o que era político. Foi por temas. Mas eles não são escritos ao mesmo tempo, tem uma diferença de escrita muito grande até mesmo dentro da mesma temática. Acho que isso é perceptível também na leitura, ‘esse aqui é bem imaturo’, outro mais bem escrito…

Como foi esse processo para você de revisitar? Porque eram coisas que você já tinha escrito há certo tempo. Como foi para você pegar esses poemas, reler para selecionar para o livro?

É uma coisa interessante, um pouco constrangedor, mas é legal também. Porque uma ideia foi essa: não reescrever o que já estava pronto. As coisas mais recentes eu até mudei para o livro, reescrevi, mudei algumas palavras. Eu tentei manter as coisas mais antigas do jeito que elas estavam porque eu acho interessante olhar para trás e ver o que era o Ramon naquele tempo, como era a escrita. Mesmo que o livro não esteja organizado cronologicamente para mim foi uma sensação legal, mas é um pouco constrangedor; ‘eu escrevi isso mesmo? Será que era isso’. Obviamente teve alguns que foram cortados, ‘nossa isso é muito cretino, não vou colocar aqui’, mas a ideia de pegar esses poemas mais antigos e reler eles a sensação não tem nada de saudosismo, mas de autoconhecimento mesmo de como foi esse período.

Você fala também da temática de crescer ao longo do livro e em alguns poemas podemos ver bem isso. Qual foi a sua relação com o crescer? Foi uma coisa boa ou uma coisa ruim? Porque parece que foi uma coisa complicada para o personagem.

Dentro da narrativa ela é bem mais complicada do que ela é na realidade até porque as temáticas têm algumas que são bem fortes e teve um período que eu tinha alguns ataques de pânico e uma leve depressão e algumas coisas são muito dessa época, não foram escritos nesse período, mas retomando esse período. Mas é óbvio que quando você coloca na literatura para quem lê pode mudar um pouco o sentido também e ficar um pouco mais forte ou não, mas esse crescimento, esse amadurecimento ele acontece. Às vezes a palavra quando a gente fala em crescimento, amadurecimento, parece que tudo que foi pra trás é menos importante ou mais infantil. Não nesse sentido. Amadurecimento da percepção do que é o meu poema, do que é a minha literatura. Tem alguns poemas aqui que parecem bem infantis e foram os últimos que eu escrevi. Tem um haicai que o nome é ‘cu’ então é uma brincadeira tão infantil com a palavra e acho que foi um dos últimos que na hora que eu estava terminando de editar eu falei ‘vou colocar uma coisa nesse sentido’. O amadurecimento é a minha visão em relação a minha própria escrita, mas não que ela se torna mais séria ou mais importante ao longo do tempo. Não nesse sentido.

Como foi a concepção da capa desse livro e a escolha do título ‘Forte Apache’?

Essa capa foi uma loucura porque o nome do livro não era esse e não era essa capa também. Era outro nome e eu pedi pra editora fazer, eles montaram certinho. Quando a arte chegou pra mim eu olhei para a capa e para o nome e não tinha nada a ver com o livro. Eles fizeram exatamente o que eu pedi e a minha visão era totalmente diferente do produto, do material que veio. Quando eu reli o texto pronto, já diagramado eu vi que estava meio perdido e já estava meio próximo do lançamento. Então, eu tive que mudar tudo na hora. Perguntei se dava pra mudar e eles falaram que dava, mas tinha que ser meio rápido. Essa ideia do ‘Forte Apache’, como é um poema que é bem forte dentro do livro, bem significativo, eu o reli para buscar um nome novo. Quando eu li esse poema eu disse ‘cara, tem que ser esse! O nome tem que ser esse’. Foi assim: eu li, mandei o nome, falei ‘olha, eu tenho uma ideia do Forte Apache, o poema fala sobre isso. Tentar trabalhar com uma mesa, uma cadeira, a ideia do lar mesmo, doméstico’. Porque é isso mesmo, o poema é sobre isso. Eu fui muito feliz porque foram dois dias que eu mandei a ideia para o editor e eles já me mandaram a capa e eu me apaixonei na hora. Perfeito, era isso mesmo que tinha que estar lá.

Inspirações e referências

Você comentou antes de um poema que faz referência a Drummond. Quais seriam as suas influências de escritores?

Essa é sempre uma pergunta complicada. Quando se fala em referência, de influência, [também se inclui] o que se está lendo nesse momento. Eu acho que muito da influência do livro é Leminski, uma coisa que eu conheci lá por 2009, por aí, e gostei bastante e que motivou também a escrever. Entender que o poema pode ser curto pode ser cotidiano, ele não precisa necessariamente trabalhar com a rima, mas é legal brincar com a rima também. O Leminski é uma das influências. Teve um período que eu li bastante Drummond, então a ideia de entender as coisas um pouco mais amplas da vida, o conceito da própria felicidade, de solidão e coisas assim. Acho que são os dois que eu poderia citar hoje porque são os que eu lembro que influenciaram bastante, mas no período, no processo da escrita, tem muita coisa que influencia e não só em poemas. Coisas que estamos lendo em prosas também, romances que influenciam a maneira que a gente dá significação para a vida então seria muita coisa para colocar, mas esses dois eu acredito que são bem emblemáticos no processo de escrita. Não só eles, mas são os principais.

Você participou do concurso de TOC 140. Como é o processo de escrever em um espaço tão reduzido de texto?

Isso foi legal, esse concurso foi em 2010, 2011. Foram as duas vezes que eu fui publicado e foi uma fase que eu estava lendo muito Leminski e no Leminski tem muito haicai, coisa curta então eu estava escrevendo muita coisa curta e 140 caracteres é isso. Acho que foi uma fase que me pegou no movimento, não foi tão difícil escrever, mas eu mandei muita coisa, muitos poemas e muito que eu escrevi na hora. Sentava, na caixa de texto escrevia e mandava. Escrevia e mandava. Escrevia e mandava. E alguns foram selecionados, mas hoje eu tenho maior dificuldade em fazer isso de colocar a ideia em um texto mais curto. Hoje eu vejo que eu necessito falar um pouquinho mais, de explicar um pouco mais ou de trabalhar um pouco mais com as palavras. Mas naquele momento aquele concurso foi bem oportuno para mim por aquele momento que eu estava vivendo, aquela influência direta que tinha ali.

Expectativas de mercado

Qual a sua expectativa quanto a mercado editorial?

A gente vive um momento bem complicado para autor. Não hoje, o escritor em geral no Brasil não tem um grande público leitor como tem para alguns outros países. Claro que a ideia é ser lido pelo maior número de pessoas e que esse livro vai chegar para todo mundo, mas a realidade é outra. Eu tenho consciência dessa realidade, eu sei que dificilmente terei um livro muito lido, bem provável que fique restrito ao campo regional da cidade ou aos conhecidos. Não sei. Talvez outras edições, outras temáticas acabem indo mais para fora. Eu tenho mandado alguns livros também para bibliotecas. A ideia de fazer o livro circular, mas eu acredito que estou bem pé no chão em relação a isso, não tenho grandes expectativas enquanto a questão do mercado. Claro que se escreve pensando em mercado, eu quero vender e obviamente isso seria legal, mas eu sei que é difícil, poucas pessoas conseguem no Brasil viver de literatura. É algo quase utópico.

Nos últimos anos é crescente o espaço dos chamados ‘booktubers’, são pessoas que se dedicam a fazer resenhas de obras literárias em vídeos para redes sociais. O papel do crítico ele está saindo dos grandes jornais e adentrando a internet. Você, como escritor e professor, como vê esse fenômeno principalmente para a geração dos seus alunos que passa mais tempo na internet?

Eu acho fantástico porque a democratização da arte é exatamente isso. Você abrir o canal para que todo mundo possa participar ativamente da leitura e o trabalho de crítica é o trabalho do leitor. Todo leitor é um crítico. É claro que vamos encontrar também muita besteira na internet, gente que não leu ou que tem uma dificuldade e que vai falar por intuição. Mas eu acho que esse trabalho desses booktubers é importante primeiro para mostrar livros que as pessoas talvez não saibam que existem, para mostrar esses livros novos e também para que todo mundo saiba que a crítica e a leitura pode ser feita por qualquer um. Um dos grandes estigmas da literatura é esse de sempre algo superior, supremo, quase uma divindade. O escritor é alguém que para pra pensar sobre o mundo, e não, ele pode ser algo sobre o cotidiano e a crítica literária ou a leitura, a discussão literária pode ser feita por todo mundo, exatamente todo mundo que lê. Eu acho que isso é bem importante para aproximar a literatura principalmente do público jovem que consome muito esses canais, esse tipo de linguagem, esse tipo de estrutura de programa.

Você tem mais algum ponto que queira destacar?

É importante falar, para quem quiser saber, para comprar [meu livro] pode ser comigo ou pela Editora Penalux. Isso é importante falar também: esse livro foi editado e lançado pela Editora Penalux, uma editora de Guaratinguetá. Ela tem lançado bastantes livros literários, ela tem essa preocupação com a literatura. Se você entrar no site deles vai encontrar bastante coisa legal e com um preço acessível. Você pode comprar o ebook também, mas tem os livros físicos e são preços legais para comprar. A Penalux têm várias edições: da poesia é uma lâmpada, do romance é uma vela; a ideia da luz, do livro como luz mesmo. E eles têm um projeto que é ‘Chama Literária’ e trabalha com a ideia de você chamar a galera pra ler e também a questão da luz mesmo, de acender essa chama da literatura. Eles têm enviado bastantes livros para bibliotecas, bastantes livros para outras pessoas lerem, estão fazendo um trabalho de incentivo a leitura bem legal. Eu acho que vale muito a pena conhecer o trabalho da editora e dos outros autores que estão publicando com eles. É uma editora legal, bem acessível e bem atenciosa também para quem pensa em lançar um livro vale a pena entrar em contato com eles, levar o livro para avaliação lá que é bem legal.

Resenha #01: ‘O pai da menina morta’ de Tiago Ferro

Foto: Luane Caroline

Por Luane Caroline Nascimento

‘O pai da menina morta’ escrito por Tiago Ferro foi minha última leitura de 2018. Uma leitura pesada. Uma obra sobre uma ferida e que causa uma ferida, que tira o leitor da zona de conforto. A obra escancara, de forma sincera, sensível e inteligente o processo do luto que passa pelos sentimentos de culpa, negação, raiva.

Conheci o livro por indicação do Canal Livrada! (a resenha dele você pode conferir aqui). Com um texto não linear o autor mistura várias formas de linguagens com trechos de diários, conversas, listas de compras, fotografias, páginas da web. Ao meu ver a mescla de formas de linguagem é um dos maiores ganhos da narrativa e a melhor forma do pai da menina morta demonstrar que, mesmo sem querer, o pensamento dele não sai da filha e que ela estará sempre presente em tudo. Há, por exemplo, uma lista de compra do supermercado que inclui itens como “ficar firme” e “pensar na Minha Filha a cada cinco minutos”. A narrativa é difusa como o pensamento humano em crise e as lembranças são misturadas como se ele procurasse sinais ou avisos que ela morreria antes disso acontecer.

Alguns relatos parecem escritos logo após acontecer por tratarem o sentimento como uma dor física do pai.

O tema da morte de crianças ainda é tabulado e Tiago Ferro conseguiu fazer uma entrega (ficcional, vale reforçar) extremamente sincera e verdadeira. Ele quer o trocar de lugar com a filha por temer esquecer o rosto dela ou de se afastar da filha por esquecer da dor.

O sentimento de culpa percorre o personagem pela narrativa toda. Por ter deixado a menina morrer, por tudo que ele não fez enquanto ela estava viva, além do medo de um dia ter que enterrar a Outra Filha.

Há alguns trechos que me marcaram como, logo no início, ele diz que não quer ser o pai da menina morta. Mas ele sempre será o pai da menina morta. Ou o trecho que ele imagina um tribunal que o julga por deixar a filha morrer. “Que espécie de pai você é?”. Também há uma lembrança da temperatura do corpo da menina saindo da febre inicial de 37,8° até o momento que o corpo gela completamente já sem vida.

Todo mundo que já perdeu alguém se identifica em pelo menos uma página do livro. Não há como ser a mesma pessoa depois dessa leitura. Quem convive comigo sabe que indico a obra sem titubear.

Ficha técnica:
Título: O pai da menina morta
Autor: Tiago Ferro
Ano e país de publicação: 2018, Brasil
Editora: Todavia
Estrelas: 5

Entrevista #01: Tiago Ferro

Tiago Ferro autor d’O pai da menina morta | Foto: divulgação

Nossa primeira entrevista é com o escritor paulista Tiago Ferro, autor de “O pai da menina morta”, seu primeiro romance. O autor nos conta como foi o processo de construção do seu livro, sua relação com a escrita, referências literárias e seus planos para este ano.

Trajetória com a escrita

Quando a escrita entrou na sua vida? Como foi esse processo?

Há muitos anos escrevo ensaios de cultura, principalmente crítica literária, para publicações como a revista Cult, Suplemento Pernambuco, revista Peixe-elétrico e a Quatro Cinco Um. Mas até escrever o romance O pai da menina morta, nunca havia tentado ou até mesmo desejado escrever ficção.

O que escrever significa para você?

Depois de escrever o romance, me parece hoje que as duas formas de escrita (ensaística e ficcional) se misturam, complementam e em alguns casos problematizam os textos. Na escrita ficcional do livro entrou em boa medida essa veia ensaística, o que permitiu tratar de questões que correm por fora da trama principal do livro e arejaram o tecido narrativo. Se não estou enganado, o leitor mais familiarizado com a crítica, consegue notar como essas preocupações atravessam o romance. Por outro lado, textos acadêmicos exigem uma série de padrões e formatações que a liberdade experimentada no romance pode gerar problemas. De qualquer forma me parece artificial separar as duas formas de escrita.

Como foi o processo e a experiência de escrever um livro?

O livro foi escrito em pouco tempo: dois, três meses. Portanto foi tudo muito intenso. O processo foi “escrever” mentalmente incessantemente vários trechos do livro e só ir para o computador quando se tornava muito difícil reter o conteúdo. Não foi muito agradável… Uma espécie de ideia fixa o tempo todo e o receio de perder alguma passagem. Essa intensidade se encerra quando o livro é entregue e paradoxalmente não gera um alívio, mas uma perda de intensidade desagradável. Resumindo então eu diria que não é exatamente um prazer o momento da escrita, é impossível ficar por muito tempo envolvido naquele tipo de alta-voltagem, mas quando acaba, os vazios que pareciam estar sendo preenchidos pela forma literária, ressurgem com força, e pedindo novas formas.

Obra(s)

Você trata seu romance como uma ficção, queríamos saber o porquê dessa sua visão e do que trata o livro ‘O pai da menina morta’?

Apesar do livro partir de um evento vivido por mim, em nenhum momento o livro foi construído para contar o que havia acontecido. Sendo assim, não me preocupei em ser fiel aos fatos, cronologia, etc. Meu interesse era investigar o que estava latente comigo e que a linguagem do senso comum, os clichês, simplesmente não davam conta. É nesse sentido que o livro pode ser considerado uma ficção. É na liberdade da criação da forma artística-literária, que o Eu do autor é superado e o livro ganha os contornos de um romance e não de um livro de memórias.

O narrador do romance não tem nome, ele é o pai da menina morta. Queríamos que você falasse um pouco sobre o processo do anonimato do personagem e de enfraquecimento da personalidade dele.

Me parece que a questão não é anonimato e muito menos enfraquecimento. O que está em jogo nesse personagem sem nome é a questão da identidade, do jogo de máscaras das relações sociais da sociedade. Se há “o pai de família”, “o funcionário honesto”, “a mãe dedicada”, “o rebelde” etc, como lidar com “o pai da menina morta”? Uma identidade indesejada e incômoda que vai caminhando durante o livro e desfazendo os outros papéis até então muito seguros que sustentam o teatro do mundo no qual vivemos. O que acontece se nos despirmos de todas as máscaras? Meu palpite é que não encontramos algo autêntico, mas apenas a linguagem. Portanto essa escolha está implicada muito menos em caracterizar desta ou daquela forma o personagem, mas de causar curtos-circuitos nas relações estabelecidas da sociedade que desabam quando um evento trágico explode de forma violenta, como foi a morte da minha filha.

A decisão de escrever o seu primeiro romance foi consciente ou foi algo que aconteceu de uma forma mais natural?

Acho difícil falar em intenções, seja para contar uma história muito bem amarrada de que lá no comecinho estava tudo previsto, ou o retorno à ideia de inspiração etc. Aqui me parece que o que importa é o texto, o livro. Não cabe ao autor ser o seu próprio intérprete, aquele que sabe do que trata o livro e paira sobre as outras interpretações. A cada nova resenha, mais eu fico sabendo sobre o livro que escrevi. E levo vários sustos! Um romance só faz sentido para o autor quando o surpreende, e essa surpresa deve necessariamente vir da leitura de terceiros.

Como foi o processo para você, Tiago Ferro, expor de forma tão honesta uma dor e um sentimento seu, misturado com a ficção do pai da menina morta? Ela foi intencional ou você não parou para refletir enquanto escrevia?

Foi um livro escrito de forma despudorada. Meu único cuidado e revisões foi para ter certeza que não implicava ou feria a intimidade de alguém. Fora isso escrevi o que eu queria da forma que queria. Não tenho preocupação alguma com leituras que procurem o autor no narrador, apesar de achar um caminho que empobrece o texto. Talvez por ter vivido um evento tão violento, as preocupações dessa ordem perdem importância. E salvo engano isso gera um ganho para o livro.

O livro é construído com várias formas de linguagens, com textos, listas, fotografias, como foi o processo de construção dessa narrativa mesclada e o impacto que ela causa na redação final?

No início o livro foi escrito como um diário tradicional. Mas conforme surgiram outras questões: memórias, desejos, política, o diário foi sendo desconstruído para acolher esses conteúdos. Ou seja, a forma foi sendo adaptada conforme a escrita evoluía e pedia soluções de acordo com o que estava sendo contado. Nesse processo fui libertando a linguagem e a narrativa até chegar no ponto que me deixou satisfeito: um fragmentário caótico que ainda guarda uma narrativa, uma história.

Inspirações e referências

Teve alguma obra que você leu com o estilo de escrita ou com um tema parecidos com o d’O pai da menina morta que te inspiraram para escrever o teu livro?

Não fiz nenhum tipo de pesquisa com o intuito de buscar soluções para a minha própria escrita. Nem soluções formais e nem nos livros mais conhecidos que lidam com o tema do luto. Não quero com isso proclamar nenhum tipo de grande originalidade, obviamente as leituras de uma vida toda entram nesse processo de construção do próprio livro. Mas voltando ao que disse sobre a intensidade do processo de escrita, livros teoricamente laterais ao tema mas que estavam comigo na época da escrita, são citados no romance e ganham relevo na trama: A história do olho e a A idade viril.

Você tem autores que são referência para a tua escrita, teu estilo – de forma geral, não especificamente para o teu livro? Quais são?

Se por um lado sempre tive interesse nas vanguardas literárias do século 20, nunca deixei de ler os romancistas preocupados em contar uma boa história, sendo talvez o Roth o meu preferido. Procuro sempre estar atento aos autores brasileiros contemporâneos e leio muita crítica e ensaio.

Expectativas para 2019

Você pretende escrever mais livros?

Sim, pretendo.

Quais são as tuas expectativas para 2019 quanto ao mercado literário?

Apesar da crise econômica dos últimos anos e do esgotamento do modelo de mega stores que causou sérios prejuízos ao mercado como um todo, principalmente para as grandes editoras, minha leitura é que o mercado editorial é hoje mais maduro do que jamais foi. Traduções sempre de línguas originais, projetos gráficos bem feitos, ótimos acabamentos gráficos. Títulos clássicos disponíveis e lançamentos acompanhando o que tem importância no exterior e muito espaço para iniciativas independentes. Além disso as possibilidades sempre democratizantes com o digital. Se o mercado atingiu esse nível de profissionalização é porque há leitores. As formas de distribuição vão sempre se alterando, isso não é novidade. Em 2019 acredito que essas formas vão se ajeitando.

Você tem algum próximo projeto? Pode nos contar um pouquinho dele?

Hoje estou envolvido em um projeto de doutorado sobre “As ideias fora do lugar” do Roberto Schwarz, no departamento de história da USP. Para me concentrar nessa pesquisa e escrita, deixei por enquanto o segundo romance esperando. É claro que essa espera tem sempre alguma atividade. Aqui e ali você guarda uma impressão, uma leitura, uma anotação para o romance. E lá na frente não sabe dizer quais foram as influências diretas…