Resenha #25: ‘Assombro zen’ de Marco Aurélio de Souza

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Luana Caroline Nascimento

Reúna tudo que há de mais asqueroso na raça humana. As piores ações e sentenças. Os mais putrefatos julgamentos. O asco. A náusea. Aquilo que também compõe o humano. Assombro zen é o último lançamento do escritor Marco Aurélio de Souza – um livro do período pandêmico que chegou em minha casa envolto em álcool gel e máscaras. A fragilidade e a pequenez da espécie humana no maior genocídio do povo brasileiro já um Assombro. O livro é uma antologia de (nas próprias palavras do autor) anti-haicais que escancara a podridão da condição humana.

Somos apresentados a um lado da sobrevivência humana. É tudo brutal, é tudo podre, e pelas letras de Marco, é tudo poético. Uma obra irônica para ser lido em uma porrada só, contudo não é uma leitura única. É um livro para ser revisitado, reconsultado e estar perto das nossas mãos sempre.

São 38 poemas que nos deixam com vontade de ler mais e completam o clube de obras que podem ser julgadas pela capa, pois o projeto gráfico (tanto da capa quando das páginas internas) me conquistou desde a primeira vez que vi com jogos de linhas e cores. Nenhuma marca no livro é obra do acaso.

Quando comecei a leitura tinha em mente que seria um livro que me agradaria – contudo, não imaginava que seria um livro que me agradaria tanto. Mesmo sendo os poemas densos a leitura foi uma experiência agradável para uma tarde de domingo, diferente de outros livros que foram dolorosos ao também tratar da podridão humana. Por isso, deixe a falsa inocência e a hipocrisia de lado e assuma também o Assombro zen que corrói nossa estrutura social.

38.
Bonsai de fogo à explosão do infinito
Assombro zen
Mortes sãos números que brotam nos jornais

Marco Aurélio de Souza – Assombro zen

FICHA TÉCNICA

Título: Assombro zen
Autora: Marco Aurélio de Souza
Ano e país de publicação: 2020, Brasil
Editora: Kotter Editorial
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

#05: Cinco livros crônicos por Kleber Bordinhão

No mês de junho convidamos Kleber Bordinhão, escritor (poeta é escritor?) ponta-grossense (não tô dizendo que é local, viu?! – o Kleber não gosta), indicando literaturas crônicas, melhor dizendo, cinco títulos de crônicas para se ler. Segue a listinha:

[nós, passarinhas, explicamos que esse textinho é uma brincadeira com o autor]

Meio intelectual, meio de esquerda – Antônio Prata

Este livro reúne quase 80 crônicas do autor, a maioria publicada entre 2004 e 2010 em jornais e revistas. São textos divertidos, poéticos e cheios de revelações sobre a vida nos grandes centros urbanos.

Ai de ti! Copacabana – Rubem Braga

O título junta crônicas, de 1955 a 1960, selecionadas pelo autor, que mostram o amor à vida simples, de quem é humilde e/ou de quem sofre. O livro é carregado de assuntos do dia-a-dia, da infância, da mocidade e dos primeiros amores.

O Louco de Palestra e outras crônicas urbanas – Vanessa Barbara

É um livro com pitadas de humor, delicadeza, escárnio, que tem como cenário o bairro paulistano Mandaqui. A escrita de Barbara mistura comentário cultural, reportagem e antropologia. O título do livro faz referência à uma crônica muito famosa da autora, que versa sobre um tipo de indivíduo que sempre existiu: o “louco de palestra”, aquele que meio abilolado comenta em conferências e debates.

Impurezas Amorosas – Miguel Sanches Neto

Neste livro, Miguel Sanches Neto, escritor paranaense, apresenta crônicas em que há protagonismo do tempo: são histórias que falam do menino no homem e do homem-menino, mostrando um sujeito que carrega consigo todas as idades.

A descoberta do Mundo – Clarice Lispector

“A descoberta do mundo” reúne textos que Lispector publicava colunas no Jornal do Brasil em 1984. São textos em vários formatos, que tratam de acontecimentos recentes e do cotidianos, reflexões sobre a existência, sobre sua família e suas angústias.

Resenha #20: ‘Vazio Pesado’ de Mayrus de Mello

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por: Luana Caroline Nascimento

“Vazio pesado” é uma coletânea de poesias que como o próprio nome já sugere trata dos sentimentos mais profundos do ser humano. A dor, o desânimo e a depressão vistas de dentro de quem está prestes a desistir de tudo – e da vida. Ao contrário de outras obras não é um livro que consegui ler de uma vez só. Precisei de camadas para enfrentar cada poesia.

O personagem retratado nos poemas já não tem mais esperanças, carrega a culpa toda em si – e culpa foi um sentimento que me despertou durante toda a leitura. Gerou sim certo desconforto e dificuldade de prosseguir com a leitura como já estava anunciado no prefácio, porém cada página parecia revelar uma verdade oculta de algum dia. A carga emocional entregue é forte.

Não há quem não tenha passado pelas sensações transcritas no livro e não se identifique com pelo menos uma das poesias. O livro traz todas as dores de vivos, mortos, amores e desamores que até as pessoas mais fechadas já experimentaram. Há sujeira na alma do personagem e essa sujeira aparece nas poesias transcritas nos objetos, nos cheiros, nas ações dos outros. Tudo ao redor o leva mais abaixo.

É preciso abrir o espírito para receber esses desabafos em versos. Confortar o coração triste com uma canção mais triste ainda. Ao mesmo tempo que a leitura gera angústia é sempre reconfortante saber que não somos os únicos a passar por tais sentimentos ou que não estamos sozinhos em nossas aflições. Saber que outras pessoas já pensaram em tudo transcrito na obra também é uma forma de dizer que está tudo bem.

“Vazio Pesado” é a primeira obra de Mayrus de Mello e chegou em minhas mãos pelo próprio autor. Você está preparado para confrontar seu lado mais sombrio também?

Ficha técnica:
Título: Vazio Pesado
Autor: Mayrus de Mello
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Editora: Kazuá
Estrelas: 4

Resenha #15: ‘Por Extenso’ de Kleber Bordinhão

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por: Luana Caroline Nascimento

Por extenso é o primeiro livro de crônicas de Kleber Bordinhão e como todo “primeiro livro” a expectativa para a leitura era grande. Confesso que até o momento já o li três vezes, a primeira ainda no pdf antes do livro físico existir. A segunda vez, enfim, segurando livro, li antes do lançamento oficial. E leio mais uma vez para escrever essa resenha.

É um livro para ler numa porrada única e só parar no final da última página. A primeira leitura fiz assim, corrida, e nas próprias palavras do escritor “a primeira leitura de um livro é algo muito íntimo”. Kleber é, além de alguém que admiro muito é, um amigo e por isso entre as sensações que tive ao ler o livro foi uma mistura de orgulho com vontade de também escrever.

A vontade de escrever surge porque tudo no livro é Kleber Bordinhão, soa tão verdadeiro e transparente que parece natural. A palavra fui do autor com tanta calma que parece fácil, algumas páginas li com exata entonação e fonema da voz do Kleber – é aquela mesma sensação quando vemos um bailarino no palco tão tranquilo e seguro que nos dá vontade de levantar da plateia e dançar com ele, ou quando vemos um músico tocando e queremos pegar o instrumento e ser música também.

O livro é um pouco do Kleber por extenso. E isso é o mais incrível porque tudo soa tão verdadeiro que todas as crônicas poderiam ter acontecido pelas ruas de Ponta Grossa, não há como separar o que é realidade do que ficção. São crônicas do cotidiano, de situações do dia-a-dia e que poderiam acontecer com qualquer um de nós, embora apenas o Kleber teria a ousadia de coloca-las no papel. O cotidiano presente na escrita, que já estava nos poemas do escritor, lembra-me a paixão do João do Rio pelas histórias que aconteciam na rua. Onde a História se faz.

Ficha técnica:
Título: Por extenso
Autora: Kleber Bordinhão
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Editora: Penalux
Estrelas: 5

Resenha #14: ‘Samba de uma noite de verão’ de Renato Forin Jr.

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por: Luana Caroline Nascimento

Renato Forin é um artista completo e o livro “Samba de uma noite de verão” demonstra isso. Primeiro é preciso situar a ousadia que a obra traz: uma releitura de Shekespeare (Sonhos de uma noite de verão) com o que há de mais brasileiro no casamento das culturas africanas, indígenas e europeias.

A obra casa o cânone com o popular e casa duas coisas que sempre fui muito apaixonada: a cultura popular e a música brasileira. O enredo da história é cíclico, termina no início e deixa quem lê com a sensação de quero mais. Durante toda a narrativa Renato intercala composições próprias com célebres músicas brasileiras como Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Waldemar Henrique (para quem assim como eu ama uma MPB aqui você confere uma playlist do Spotify com as músicas citadas na peça).

A história de troca-troca de amores clássica é recontada na Vila de Vera Cruz e no Bosque com um texto leve que desliga o leitor/espectador do entorno. Não há como fechar o livro sem chegar na última página. Faziam anos que eu não lia teatro e a experiencia foi mais agradável e divertida que achei que seria.

“Samba de uma noite de verão” foi finalista do Jabuti em 2017 e não é para menos. No Brasil de Renato Forin tudo é música, tudo é cultura e no livro/espetáculo tudo também é música: o andar, o falar ritmado, a poesia, o malandro brasileiro, o índio, a religião africana, o troca-troca de amores. Além das composições autorais para a peça (em que as partituras estão no final do livro junto com um CD) o autor produziu grafites que intercalam o começo de cada ato.

Conheci Renato e a obra dele quando veio para Ponta Grossa em 2019 e participou do Festival Literário dos Campos Gerais, há uma entrevista com ele dividida em duas partes aqui e aqui. O livro do Samba de Uma Noite de Verão incorpora o acervo da Biblioteca Solidária Professora Aparecida de Jesus Ferreira e estará disponível para as mulheres da Casulo Social descobrirem o mundo do troca-troca de amores.

Ficha técnica:
Título: Samba de uma noite de verão
Autor: Renato Forin
Ano e país de publicação: 2016, Brasil
Publicação Independente
Estrelas: 5