Resenha #33: ‘Até a alma ficar nua’ da Tanise R. Sutil

Foto: Ana Istschuk

Por Ana Istschuk

Entregar-se a alguém que possa te despir até a alma. Ser intensa. Sentir com o corpo as sensações físicas e as emocionais. Sentimento tátil. O toque físico, literal e o emocional, figurado. A não separação entre essas palavras entendidas como opostas, mas que na verdade são uma mistura e em que uma está incrustada na outra, uma é parte da outra.

Se deixar sentir assim, por si só, já é poesia. Tanise Sutil concretiza essas abstrações em palavras – literais e figuradas – poéticas no seu livro de estreia na poesia. A escrita demarca sua existência no corpo de uma mulher. Uma mulher que deseja ardentemente amar, sentir, transar e fazer da experiência e do prazer a inspiração para seus versos.

O livro é a expressão do corpo e da alma que andam juntas, entrelaçadas, que não existem de forma isolada e que são excitadas juntas. Excitadas a sentir e descobrir, a desejar e ter, a aceitar a entrega, a intimidade, a doação, a profundeza.

Sua poesia é simples em termos de fluidez de leitura – tanto que li durante o trajeto do ônibus para casa -, mas provoca reflexões ao propor vários sentidos às palavras escolhidas para formar os versos.

Ler a piraiense – que tem Ponta Grossa como sua segunda casa – me fez lembrar dos poemas da Ryane Leão e da Rupi Kaur – que fizeram e fazem tanto sucesso nas redes sociais. A autora é direta, fala sem rodeios, mas de forma bela sobre as coisas do corpo e da alma. A eu-lírica se despe na nossa frente e se mostra inteiramente nua, num despir intenso e íntimo.

Aos intensos, urgentes, sentimentais, corporais, físicos, emocionais, abstratos, concretos, enfim, aos que tem alma e corpo eu fortemente recomendo esta leitura que me foi tão bem-vinda, proveitosa e prazerosa.

FICHA TÉCNICA

Título: Até a alma ficar nua
Autora: Tanise R. Sutil
Ano e país de publicação: 2020, Brasil
Editora: Olaria Cartonera
Avaliação:

Avaliação: 4 de 5.

Indicação #08: Cinco livros de autores ponta-grossenses por Lucas Walker

Setembro é o mês de aniversário de Ponta Grossa, cidade onde montamos nosso ninho. A indicação do mês é do poeta ponta-grossense Lucas Walker para conhecermos escritores da princesa dos campos e – olha que legal – já resenhamos alguns dos livros indicados e também tem vários deles na nossa Biblioteca! O escritor convidado já publicou 4 livros de poesia e seu último livro, “Entre o batimento e o estilhaço“, foi lançado esse mês. Apoie a produção literária da tua cidade! Compre e leia livro de escritores da tua cidade!

Forte apacheRamon Ronchi

Livro de estreia do escritor, reúne poemas com temática doméstica, infantil, violenta, política, crítica, sem faltar poesia sobre escrever poemas, sobre ser poeta, sobre poesia. Um forte livro de poemas não necessariamente biográficos, mas reais.

Por extensoKleber Bordinhão

É o primeiro livro de crônicas do escritor que já lançou 5 livros de poesia. Seus textos lançam luz a situações que facilmente escapariam dos olhos de um transeunte desatento, mas que foram captados e registrados pelo escritor e poeta (e cronista).

Saudade – Melissa Garavelo e Phellip Willian

A HQ mais querida do coração dos ponta-grossenses, finalista do Prêmio Jabuti de 2019, foi produzida pelo casal jovem pronto para a produção literária: o roteirista e a ilustradora. A história é emocionante, bonita e vai ficar com os leitores pro resto de suas vidas.

Até a alma ficar nua – Tanise R. Sutil

A poesia da autora trata das relações entre os corpos em seu sentido físico e emocional de uma perspectiva de mulher. O livro é produzido manualmente – olha que carinho! – pela Olaria Cartonera e será resenhado este mês por uma das passarinhas.

Marina Brum Rosa

Marina Brun Rosa é escritora pontagrossense. No perfil @marinabrunrosa ela expões seus trabalhos de forma escrita e audiovisual. Em suas próprias palavras ela “escreve para que alguém se encontre em textos escritos sem grandes pretensões, apenas para aliviar a alma de quem escreve.”

Resenha #32: ‘Fim de Festa’ de Renata Wolff

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Luana Caroline Nascimento

*Texto alterado em 27 de agosto de 2020

É fim de mês aqui. No livro é fim de festa. Fim da névoa. Fim do porre. Descobri a literatura de Renata Wolff pela editora Dublinense. O livro “Fim de Festa” finalista do Prêmio Jabuti 2016 chegou na minha casa e eu devorei as páginas muito mais rápido do que imaginava. É uma leitura envolvente de uma obra extremamente bem escrita e delicada.

O livro Fim de Festa, da Renata Wolff publicada pela editora Dublinense, é uma coletânea de contos, porém há quatro personagens: Ana, Pedro, Sérgio e Carol que aparecerem em vários contos. Sérgio e Carol são um casal que se conhecem na festa de casamento de Ana e Pedro e durante as histórias que vemos o amor dos recém casados ficar abalado os dois novos pombinhos estão cada vez mais apaixonados para aquecer nossos corações de eternas adolescentes leitoras de romances. A obra foi finalista do Prêmio Jabuti 2016.

Há dois contos sobre amizades que foram os mais impactantes na minha leitura: “Roda Gigante”, que leio um trecho nas nossas redes sociais, e “Aviões de papel”. Cada história se passa em uma festa diferente e trata do amor entre amigos de uma forma delicada. Em ambas as histórias vemos amigos precisando ajudar o outro em algum momento difícil e neste momento pandemico que vivemos não há nada que nos de mais saudades do que estar com nossos amigos. É uma leitura envolvente de uma obra extremamente bem escrita e delicada.

Todas as histórias, amores e romances acontecem em alguma festa e a narrativa da história se estende até a manhã seguinte. Quando a ressaca começa. Assim como no nosso ninho aqui da Pássaro Liberto o livro tem personagens lésbica, gorda, heteronormativa, travesti, gay e negra. Nessa festa não há espaço para o preconceito e a ignorancia. Que assim seja nossa literatura sempre!

FICHA TÉCNICA

Título: Fim de Festa
Autora: Renata Wolff
Ano e país de publicação: 2016, Brasil
Editora: Dublinense
Avaliação:

Avaliação: 4 de 5.

Resenha #31: ‘Nossa poesia’ da Bruna Barreto

Imagem: MUM

Por MUM

18 de agosto de 2020

Faz chuva, chuva forte. O vento carrega as gotas num bater ritmado. Dançante. Cantante. Li “Nossa poesia” num dia assim antes de hoje.

Quando comecei a leitura não sabia o que iria acontecer, foi tão orgânico e tão fluido que não consegui parar por um segundo. As palavras de Bruna fluíam pela minha garganta que era só uma passagem de ar e eu uma ferramenta da sua palavra e do seu ritmo.  Li o livro todo em voz alta, cantei e inventei compassos que talvez pudessem existir também na cabeça de Bruna. Dei notas aquela escrita rimada e penetrante nos poros. Senti. 

“Nossa poesia” é o livro de estreia da autora catarinense Bruna Barreto e  vem com muitas verdades escancaradas sobre as vivências de uma mulher poeta, preta, sapatão e cheia de palavra viva e perspicaz. Conheci Bruna no ano passado nesses encontros bonitos que a vida de cantante oferece e me tornei apreciadora de sua multiplicidade em fazer arte por todo canto. 

 O livro “Nossa poesia” faz parte da série “Palavra de Mulher” que traz publicações de autoras catarinenses “que fazem da palavra escrita uma ferramenta para a reafirmação e reinvenção do que é ser mulher no mundo”. E antes de me despedir deixo com você o primeiro poema do livro: 

Com palavra me visto,
Desde menina.
Antes até de saber o que poesia era,
Já não me desgrudava dela.
Em todos os dias da minha vida,
Ela estava presente,
Desde o primeiro ralado,
Até o cair do primeiro dente.
Agora,
Já sou menina mulher,
Posso ser o que quiser,
Mas todo o dia,
Quero ser poesia.
A palavra me protege,
É meu escudo e munição,
Com ela,
Falo das lutas,
E da cegueira,
Que carrega uma sociedade,
a vida inteira.
Em todos os momentos,
Sejam eles de calor,
Ou nos dias cinzentos,
A palavra é o cimento,
Dessa minha construção,
É o que move todo meu ser,
E meu coração.
Quando penso em cair,
É ela quem segura minha mão,
Sem palavra já não posso viver,
Já que agora,
Somos um só ser.

Bruna Barreto – Nossa poesia

FICHA TÉCNICA

Título: Nossa poesia
Autora: Bruna Barreto
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Editora: Insular
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #30: ‘Amora’ da Natalia Borges Polesso

Foto: Ana Istschuk

Por Ana Istschuk

“Amora” é quase todo amor. Amor no feminino, amor de mulher que ama outra mulher. São contos que narram relacionamentos de todos os tipos, de idades variadas, de primeiros amores a casamentos… Enfim, mostra a pluralidade das mulheres lésbicas em seus relacionamentos diversos.

Este livro me marcou especialmente porque foi meu companheiro de trajetória até a casa da minha namorada. Minha primeira namorada. Em cada ônibus que percorria o caminho entre nossos bairros eu conhecia uma história nova de relacionamento. Relacionamentos que agora me eram próximos e que narravam na ficção situações que eu poderia encontrar na realidade.

E essas histórias no trajeto viram e acompanharam a construção do meu caminho nesse novo relacionamento. Era quase ritualístico chegar na casa dela e contar “amor, o conto que eu li hoje…” e ela me ouvir atenta, fazendo perguntas, interessada no que eu dizia (ela sempre ouve). 

Foi um livro que li devagar, quase sempre um conto por vez, um conto por dia. A leitura durou pouco mais de um mês (são 33 contos que compõem o livro), muito mais por essa rotina criada por mim do que pela narrativa fluida e convidativa da autora. Escrita tão bem construída que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Contos em 2016.

Ora grandes e sumarentas, ora pequenas e ácidas, as histórias de Natalia Borges Polesso versam sobre relacionamentos, no plural. A lesbianidade é o que tem em comum nas histórias, mas o foco são as relações em si, os vários relacionamentos que pessoas podem ter, mostrando nesses diversos cenários as particularidades vividas por quem ama outra mulher. 

“Amora” me foi um livro de referência. Me foi um livro onde li histórias que eu poderia viver, desde situações de descoberta de um novo amor, de términos, de abandonos, à cenas duras, de não aceitação, e até algumas cenas engraçadas relacionadas à família. 

Sei que não falei tanto sobre o livro e que tornei o texto bem pessoal, mas para mim é quase impossível falar dessa obra sem contar um pedaço da minha história.

FICHA TÉCNICA

Título: Amora
Autora: Natalia Borges Polesso
Ano e país de publicação: 2015, Brasil
Editora: Dublinense
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.