Resenha #26: ‘Tibúrcia’ da Lenita Stark

Foto: MUM

Por MUM

30 de junho de 2020

Olho minhas mãos com maior atenção. 24 anos. Ação do tempo. Nossa pele é nossa página mais bem escrita. Todas as marcas, costuras, vivências de nossa experiência no plano físico. Encarnada nesse corpo que habitamos.

Sinto um aconchego imenso ao imaginar as mãozinhas enrugadas e calejadas de minha mãe. Todas as histórias de seu trabalho cravadas ali. Linhas do tempo. Lembro-me de quando juntava as mãos em reverência pra pedir “bença vó” e sentia suas duas mãozinhas macias em volta das minhas “Deus abençoe minha filha”. Adelina, era o nome dela.

Preciso dizer que “Tibúrcia” me fez adentrar em minha infância, muito parecida, apesar de eu e Lenita pertencermos a gerações diferentes. O tempo corre diferente em cidadezinhas do interior.

Em “Tibúrcia”, Lenita Stark conta sua própria história, a história de sua família e principalmente a história de sua avó Tibúrcia que a criou após o falecimento de sua mãe, Rosalina (que fora morta por seu pai).  A história é música, trama, sorrisos, lágrimas, força, natureza. Essa história é mulher.

Entre cantigas de roda (que confesso ter cantado todas em minha leitura), fotos de família, poemas rimados e desenhos de seu neto, Lenita me transportou de volta ao campo, as minhas amigas brincando na rua, meus vestidos feitos por minha mãe, fazer a reza e o cabeçalho na escolinha, andar no meio fio, pegar flores na rua, ir visitar minha avó nos finais de semana entre outro eventos que guardo com carinho no fundo de minhas lembranças. 

Sou grata por todas essas palavras, essas muitas lembranças que afloraste em mim. Não tenho dúvidas de que este foi um livro crucial em minha caminhada de escrita sobre as mulheres de minha família, obrigada por me fazer olhar pra minhas mãos novamente e para as mãos de todas que me seguraram no colo e zelaram por mim.

FICHA TÉCNICA

Título: Tibúrcia
Autora: Lenita Stark
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Editora: Texto e Contexto
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #25: ‘Assombro zen’ de Marco Aurélio de Souza

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Luana Caroline Nascimento

Reúna tudo que há de mais asqueroso na raça humana. As piores ações e sentenças. Os mais putrefatos julgamentos. O asco. A náusea. Aquilo que também compõe o humano. Assombro zen é o último lançamento do escritor Marco Aurélio de Souza – um livro do período pandêmico que chegou em minha casa envolto em álcool gel e máscaras. A fragilidade e a pequenez da espécie humana no maior genocídio do povo brasileiro já um Assombro. O livro é uma antologia de (nas próprias palavras do autor) anti-haicais que escancara a podridão da condição humana.

Somos apresentados a um lado da sobrevivência humana. É tudo brutal, é tudo podre, e pelas letras de Marco, é tudo poético. Uma obra irônica para ser lido em uma porrada só, contudo não é uma leitura única. É um livro para ser revisitado, reconsultado e estar perto das nossas mãos sempre.

São 38 poemas que nos deixam com vontade de ler mais e completam o clube de obras que podem ser julgadas pela capa, pois o projeto gráfico (tanto da capa quando das páginas internas) me conquistou desde a primeira vez que vi com jogos de linhas e cores. Nenhuma marca no livro é obra do acaso.

Quando comecei a leitura tinha em mente que seria um livro que me agradaria – contudo, não imaginava que seria um livro que me agradaria tanto. Mesmo sendo os poemas densos a leitura foi uma experiência agradável para uma tarde de domingo, diferente de outros livros que foram dolorosos ao também tratar da podridão humana. Por isso, deixe a falsa inocência e a hipocrisia de lado e assuma também o Assombro zen que corrói nossa estrutura social.

38.
Bonsai de fogo à explosão do infinito
Assombro zen
Mortes sãos números que brotam nos jornais

Marco Aurélio de Souza – Assombro zen

FICHA TÉCNICA

Título: Assombro zen
Autora: Marco Aurélio de Souza
Ano e país de publicação: 2020, Brasil
Editora: Kotter Editorial
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #24: ‘Efemérida’ da Indianara Santos

Por Ana Istschuk

Você já viu uma efemérida antes? Um inseto aquático que tem uma vida curtíssima e um nome categórico que lhe faz ter menos tempo ainda: dura um dia. Pode ser que você nunca tenha visto esse bichinho que parece uma borboleta, mas é certo que já tenha tido contato com coisas na vida que eram tão efêmeras ou mais que as efeméridas.

É sobre elas – as coisas e o bicho – que trata o livro da Indiana Santos, escritora ponta-grossense. Em poesia – não tinha como ser em outro estilo –, ela traz e questiona o sentir de um humano. De um indivíduo que sente a natureza e sente que existe, que vai não existir, que é efêmero, próximo da efemérida, do bicho. 

É um texto que reflete sobre a vida efêmera que levamos, sobre sermos bichos efeméridas. E é um livro de leitura curta também, com poemas curtos, sobre a curteza da vida, parecendo reforçar essa temática prálem da abordagem literal na escrita livre – e curta –, que brinca com palavras, as repete, e até se arrisca a arranjá-las de forma visual, provocando uma outra leitura – e respiro – do texto.

Não posso deixar de mencionar que um dos maiores encantos desta obra é ser de um selo cartonero. A Olaria Cartonera, selo de livros artesanais de Ponta Grossa, publicou de forma independente esta obra em 2019. O selo já publicou vários escritores e é um ótimo jeito de conhecer, incentivar e divulgar novos autores. 

Deixo aqui, para que você conheça um pouco mais, um poema de “Efemérida”:

até lá, Ian
um dia
toda vida saberá
da sua
inutilidade
um dia
todo dia será
apenas um dia
e no outro
já não seremos
nada
um dia
toda paixão
terá sua máscara
fragmentada.

eu queria
um dia
um dia
que seja
tatear
sua confusão
quebrada
vulnerável
mesmo
que renegada
um dia
apenas um dia
q seja
queria ter
fome saciada
mesmo sabendo
q a fome é
a única coisa
a qual se destina
o viver.

um dia
queria saber
dos seus demônios
um dia
nesse dia
em que nada
existirá
libertarei os meus
até lá
tudo bem, eu entendo
eu sei q a fome
é o mais importante.

Indiana Santos – Efemérida

FICHA TÉCNICA

Título: Efemérida
Autora: Indiana Santos
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Editora: Olaria Cartonera
Avaliação:

Avaliação: 3 de 5.

Resenha #20: ‘Vazio Pesado’ de Mayrus de Mello

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por: Luana Caroline Nascimento

“Vazio pesado” é uma coletânea de poesias que como o próprio nome já sugere trata dos sentimentos mais profundos do ser humano. A dor, o desânimo e a depressão vistas de dentro de quem está prestes a desistir de tudo – e da vida. Ao contrário de outras obras não é um livro que consegui ler de uma vez só. Precisei de camadas para enfrentar cada poesia.

O personagem retratado nos poemas já não tem mais esperanças, carrega a culpa toda em si – e culpa foi um sentimento que me despertou durante toda a leitura. Gerou sim certo desconforto e dificuldade de prosseguir com a leitura como já estava anunciado no prefácio, porém cada página parecia revelar uma verdade oculta de algum dia. A carga emocional entregue é forte.

Não há quem não tenha passado pelas sensações transcritas no livro e não se identifique com pelo menos uma das poesias. O livro traz todas as dores de vivos, mortos, amores e desamores que até as pessoas mais fechadas já experimentaram. Há sujeira na alma do personagem e essa sujeira aparece nas poesias transcritas nos objetos, nos cheiros, nas ações dos outros. Tudo ao redor o leva mais abaixo.

É preciso abrir o espírito para receber esses desabafos em versos. Confortar o coração triste com uma canção mais triste ainda. Ao mesmo tempo que a leitura gera angústia é sempre reconfortante saber que não somos os únicos a passar por tais sentimentos ou que não estamos sozinhos em nossas aflições. Saber que outras pessoas já pensaram em tudo transcrito na obra também é uma forma de dizer que está tudo bem.

“Vazio Pesado” é a primeira obra de Mayrus de Mello e chegou em minhas mãos pelo próprio autor. Você está preparado para confrontar seu lado mais sombrio também?

Ficha técnica:
Título: Vazio Pesado
Autor: Mayrus de Mello
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Editora: Kazuá
Estrelas: 4

Resenha #13: ‘Pó de lua nas noites em claro’ da Clarice Freire

Foto: Luana Caroline

Por Luana Caroline

Tenho falado em várias resenhas sobre livros que me encontram. A resenha dessa semana é mais uma dessas obras. Há livros que nos encontram, não somos nós que o encontramos, ‘Pó de lua das noites em claro’ é mais um desses casos – inclusive pelo contato que sempre tive com a poesia.

Conheci a obra por um programa de premiação de uma livraria e esteve na minha lista de leituras em maio (reveja aqui). O livro é lindo pelo conjunto completo da obra, os cantos arredondados do papel, a lombada amarela e o papel em um tom menos branco já conquistaram um lugar no meu coração. Clarice Freire escreve poesias para a alma e para os olhos, os textos casam com os desenhos e os silêncios da linguagem nas páginas em branco, e também em preto. Tudo que está no livro é parte da obra.

Ao decorrer da leitura me sentia uma criança maravilhada lendo um livro ilustrado sozinha pela primeira vez. A cada página eu lembrava de uma pessoa diferente e aos poucos me revi na adolescência de madrugadas adentro fechada no quarto e escrevendo páginas e páginas de um diário sem fim.

O livro reúne poemas desenhados ou desenhos poéticos produzidos pela Clarice (confira no Instagram da autora). Em 2011 ela criou um blog para publicar seus trabalhos. Este é o segundo livro lançado e mal posso esperar para ver o terceiro.

Nos agradecimentos a autora ressalta que mesmo que escrever seja um ato solitário ela não escreve sozinha, o Pássaro Liberto nasceu de um sentimento muito parecido: a leitura não é um ato sozinho. Viver experiências literárias é muito mais enriquecedor em conjunto. 

Ficha técnica:
Título: Pó de lua nas noites em claro
Autora: Clarice Freire
Ano e país de publicação: 2016, Brasil
Editora: Intrínseca
Estrelas: 5