Resenha #02: ‘Uma duas’ da Eliane Brum

Foto: Livro & café

Por Ana Istschuk

“Não há como escapar da carne da mãe. O útero é para sempre”. Com essa sentença, Eliane Brum nos arrebata com a história de Laura, a filha que “odeia e ama a mãe com a mesma intensidade, embora só tente odiar”. O primeiro livro de ficção da autora tem como tema a relação – impossível de romper e nem sempre saudável e harmoniosa – entre mãe e filha.

Laura acha – ou ainda procura – na escrita não só uma forma de fugir da realidade, mas de matar a mãe. Mesmo que no começo a intenção de Brum tenha sido apenas deixar que Laura contasse a história, lá pelas tantas a mãe invade – o quarto – e o relato da filha. E é nessa voz dada às duas que é possível entender a necessidade do afastamento entre elas e ao mesmo tempo a dependência que ambas têm uma da outra.

Com uma escrita imersiva e leve, o livro é, ao mesmo tempo, carregado de cenas duras e de difícil digestão. A abordagem de uma relação não-romantizada e abusiva da maternidade não é tão comum na literatura nem em outros espaços – apesar de já existirem discussões e produções a respeito disso. Portanto, acho que o trabalho dela é notável nesse sentido.

Por mais que a atmosfera de ‘Uma duas’ seja repleta de ódio, traumas e dores, a obra também trata sobre amor. E novamente é um amor retratado de uma forma diferente da habitual. Um amor não idealizado, ao meu ver, e complexo ao envolver outros sentimentos que não são só positivos e felizes. Além disso, o título retrata muito bem a relação conflituosa de unidade e individualidade das duas que são uma pela carne inescapável.

Eliane Brum é conhecida por seu olhar característico sobre os acontecimentos do mundo e ela também o traz na ficção. A gaúcha e jornalista ainda transporta para o romance sua sensibilidade ao tratar de pessoas – que nesse caso são as personagens fictícias de uma história perturbadora. Com um trabalho sem igual no jornalismo, a escritora não perde em nada na sua estreia no romance e na ficção.

Ficha técnica:
Título: Uma duas
Autora: Eliane Brum
Ano e país de publicação: 2011, Brasil
Editora: Leya (2011) e Arquipélago (2018)
Estrelas: 5

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Podcast #01: Weider Martins

Produção quinzenal sobre literaturas que podem derrubar o porco.
Ouça nosso podcast

Convidamos Weider Martins para conversar sobre os livros que o marcaram, sua relação com “O pequeno príncipe”, personagens preferidos e odiados da saga Harry Potter e quais seriam os cinco livros que ele salvaria em caso de incêndio.


A seguir todos os livros, filmes e listas citados no podcast:

Livros:

O pequeno príncipe – Antoine de Saint-Exupéry
Harry Potter e a criança amaldiçoada – J. K. Rowling, Jack Thorne e John Tiffany
Sete minutos depois da meia-noite – Patrick Ness
Coração é um caçador solitário – Carson McCullers
Afinação do mundo – Murray Schafer
Castrati e outros virtuoses: a prática vocal carioca sob a influência da Corte de D. João VI – Alberto J. V. Pacheco

Filmes:
O pequeno príncipe – direção: Mark Osborne
Sete minutos depois da meia-noite – direção: Juan Antonio Bayona
Corpo fechado – direção: M. Night Shyamalan

Indicação de leitura para nós:
Sete minutos depois da meia-noite – Patrick Ness

5 livros:
O pequeno príncipe – Antoine de Saint-Exupéry
Sete minutos depois da meia-noite – Patrick Ness
Harry Potter e as relíquias da morte – J. K. Rowling
Bíblia
Vidas secas – Graciliano Ramos
P.S.: a lista não está numa ordem de hierarquia – Weider disse que provavelmente pegaria fogo tentando salvar todos os seus livros.

O porco Napoleão é uma produção quinzenal do projeto “Pássaro Liberto”.

Resenha #01: ‘O pai da menina morta’ de Tiago Ferro

Foto: Luane Caroline

Por Luane Caroline Nascimento

‘O pai da menina morta’ escrito por Tiago Ferro foi minha última leitura de 2018. Uma leitura pesada. Uma obra sobre uma ferida e que causa uma ferida, que tira o leitor da zona de conforto. A obra escancara, de forma sincera, sensível e inteligente o processo do luto que passa pelos sentimentos de culpa, negação, raiva.

Conheci o livro por indicação do Canal Livrada! (a resenha dele você pode conferir aqui). Com um texto não linear o autor mistura várias formas de linguagens com trechos de diários, conversas, listas de compras, fotografias, páginas da web. Ao meu ver a mescla de formas de linguagem é um dos maiores ganhos da narrativa e a melhor forma do pai da menina morta demonstrar que, mesmo sem querer, o pensamento dele não sai da filha e que ela estará sempre presente em tudo. Há, por exemplo, uma lista de compra do supermercado que inclui itens como “ficar firme” e “pensar na Minha Filha a cada cinco minutos”. A narrativa é difusa como o pensamento humano em crise e as lembranças são misturadas como se ele procurasse sinais ou avisos que ela morreria antes disso acontecer.

Alguns relatos parecem escritos logo após acontecer por tratarem o sentimento como uma dor física do pai.

O tema da morte de crianças ainda é tabulado e Tiago Ferro conseguiu fazer uma entrega (ficcional, vale reforçar) extremamente sincera e verdadeira. Ele quer o trocar de lugar com a filha por temer esquecer o rosto dela ou de se afastar da filha por esquecer da dor.

O sentimento de culpa percorre o personagem pela narrativa toda. Por ter deixado a menina morrer, por tudo que ele não fez enquanto ela estava viva, além do medo de um dia ter que enterrar a Outra Filha.

Há alguns trechos que me marcaram como, logo no início, ele diz que não quer ser o pai da menina morta. Mas ele sempre será o pai da menina morta. Ou o trecho que ele imagina um tribunal que o julga por deixar a filha morrer. “Que espécie de pai você é?”. Também há uma lembrança da temperatura do corpo da menina saindo da febre inicial de 37,8° até o momento que o corpo gela completamente já sem vida.

Todo mundo que já perdeu alguém se identifica em pelo menos uma página do livro. Não há como ser a mesma pessoa depois dessa leitura. Quem convive comigo sabe que indico a obra sem titubear.

Ficha técnica:
Título: O pai da menina morta
Autor: Tiago Ferro
Ano e país de publicação: 2018, Brasil
Editora: Todavia
Estrelas: 5

Entrevista #01: Tiago Ferro

Tiago Ferro autor d’O pai da menina morta | Foto: divulgação

Nossa primeira entrevista é com o escritor paulista Tiago Ferro, autor de “O pai da menina morta”, seu primeiro romance. O autor nos conta como foi o processo de construção do seu livro, sua relação com a escrita, referências literárias e seus planos para este ano.

Trajetória com a escrita

Quando a escrita entrou na sua vida? Como foi esse processo?

Há muitos anos escrevo ensaios de cultura, principalmente crítica literária, para publicações como a revista Cult, Suplemento Pernambuco, revista Peixe-elétrico e a Quatro Cinco Um. Mas até escrever o romance O pai da menina morta, nunca havia tentado ou até mesmo desejado escrever ficção.

O que escrever significa para você?

Depois de escrever o romance, me parece hoje que as duas formas de escrita (ensaística e ficcional) se misturam, complementam e em alguns casos problematizam os textos. Na escrita ficcional do livro entrou em boa medida essa veia ensaística, o que permitiu tratar de questões que correm por fora da trama principal do livro e arejaram o tecido narrativo. Se não estou enganado, o leitor mais familiarizado com a crítica, consegue notar como essas preocupações atravessam o romance. Por outro lado, textos acadêmicos exigem uma série de padrões e formatações que a liberdade experimentada no romance pode gerar problemas. De qualquer forma me parece artificial separar as duas formas de escrita.

Como foi o processo e a experiência de escrever um livro?

O livro foi escrito em pouco tempo: dois, três meses. Portanto foi tudo muito intenso. O processo foi “escrever” mentalmente incessantemente vários trechos do livro e só ir para o computador quando se tornava muito difícil reter o conteúdo. Não foi muito agradável… Uma espécie de ideia fixa o tempo todo e o receio de perder alguma passagem. Essa intensidade se encerra quando o livro é entregue e paradoxalmente não gera um alívio, mas uma perda de intensidade desagradável. Resumindo então eu diria que não é exatamente um prazer o momento da escrita, é impossível ficar por muito tempo envolvido naquele tipo de alta-voltagem, mas quando acaba, os vazios que pareciam estar sendo preenchidos pela forma literária, ressurgem com força, e pedindo novas formas.

Obra(s)

Você trata seu romance como uma ficção, queríamos saber o porquê dessa sua visão e do que trata o livro ‘O pai da menina morta’?

Apesar do livro partir de um evento vivido por mim, em nenhum momento o livro foi construído para contar o que havia acontecido. Sendo assim, não me preocupei em ser fiel aos fatos, cronologia, etc. Meu interesse era investigar o que estava latente comigo e que a linguagem do senso comum, os clichês, simplesmente não davam conta. É nesse sentido que o livro pode ser considerado uma ficção. É na liberdade da criação da forma artística-literária, que o Eu do autor é superado e o livro ganha os contornos de um romance e não de um livro de memórias.

O narrador do romance não tem nome, ele é o pai da menina morta. Queríamos que você falasse um pouco sobre o processo do anonimato do personagem e de enfraquecimento da personalidade dele.

Me parece que a questão não é anonimato e muito menos enfraquecimento. O que está em jogo nesse personagem sem nome é a questão da identidade, do jogo de máscaras das relações sociais da sociedade. Se há “o pai de família”, “o funcionário honesto”, “a mãe dedicada”, “o rebelde” etc, como lidar com “o pai da menina morta”? Uma identidade indesejada e incômoda que vai caminhando durante o livro e desfazendo os outros papéis até então muito seguros que sustentam o teatro do mundo no qual vivemos. O que acontece se nos despirmos de todas as máscaras? Meu palpite é que não encontramos algo autêntico, mas apenas a linguagem. Portanto essa escolha está implicada muito menos em caracterizar desta ou daquela forma o personagem, mas de causar curtos-circuitos nas relações estabelecidas da sociedade que desabam quando um evento trágico explode de forma violenta, como foi a morte da minha filha.

A decisão de escrever o seu primeiro romance foi consciente ou foi algo que aconteceu de uma forma mais natural?

Acho difícil falar em intenções, seja para contar uma história muito bem amarrada de que lá no comecinho estava tudo previsto, ou o retorno à ideia de inspiração etc. Aqui me parece que o que importa é o texto, o livro. Não cabe ao autor ser o seu próprio intérprete, aquele que sabe do que trata o livro e paira sobre as outras interpretações. A cada nova resenha, mais eu fico sabendo sobre o livro que escrevi. E levo vários sustos! Um romance só faz sentido para o autor quando o surpreende, e essa surpresa deve necessariamente vir da leitura de terceiros.

Como foi o processo para você, Tiago Ferro, expor de forma tão honesta uma dor e um sentimento seu, misturado com a ficção do pai da menina morta? Ela foi intencional ou você não parou para refletir enquanto escrevia?

Foi um livro escrito de forma despudorada. Meu único cuidado e revisões foi para ter certeza que não implicava ou feria a intimidade de alguém. Fora isso escrevi o que eu queria da forma que queria. Não tenho preocupação alguma com leituras que procurem o autor no narrador, apesar de achar um caminho que empobrece o texto. Talvez por ter vivido um evento tão violento, as preocupações dessa ordem perdem importância. E salvo engano isso gera um ganho para o livro.

O livro é construído com várias formas de linguagens, com textos, listas, fotografias, como foi o processo de construção dessa narrativa mesclada e o impacto que ela causa na redação final?

No início o livro foi escrito como um diário tradicional. Mas conforme surgiram outras questões: memórias, desejos, política, o diário foi sendo desconstruído para acolher esses conteúdos. Ou seja, a forma foi sendo adaptada conforme a escrita evoluía e pedia soluções de acordo com o que estava sendo contado. Nesse processo fui libertando a linguagem e a narrativa até chegar no ponto que me deixou satisfeito: um fragmentário caótico que ainda guarda uma narrativa, uma história.

Inspirações e referências

Teve alguma obra que você leu com o estilo de escrita ou com um tema parecidos com o d’O pai da menina morta que te inspiraram para escrever o teu livro?

Não fiz nenhum tipo de pesquisa com o intuito de buscar soluções para a minha própria escrita. Nem soluções formais e nem nos livros mais conhecidos que lidam com o tema do luto. Não quero com isso proclamar nenhum tipo de grande originalidade, obviamente as leituras de uma vida toda entram nesse processo de construção do próprio livro. Mas voltando ao que disse sobre a intensidade do processo de escrita, livros teoricamente laterais ao tema mas que estavam comigo na época da escrita, são citados no romance e ganham relevo na trama: A história do olho e a A idade viril.

Você tem autores que são referência para a tua escrita, teu estilo – de forma geral, não especificamente para o teu livro? Quais são?

Se por um lado sempre tive interesse nas vanguardas literárias do século 20, nunca deixei de ler os romancistas preocupados em contar uma boa história, sendo talvez o Roth o meu preferido. Procuro sempre estar atento aos autores brasileiros contemporâneos e leio muita crítica e ensaio.

Expectativas para 2019

Você pretende escrever mais livros?

Sim, pretendo.

Quais são as tuas expectativas para 2019 quanto ao mercado literário?

Apesar da crise econômica dos últimos anos e do esgotamento do modelo de mega stores que causou sérios prejuízos ao mercado como um todo, principalmente para as grandes editoras, minha leitura é que o mercado editorial é hoje mais maduro do que jamais foi. Traduções sempre de línguas originais, projetos gráficos bem feitos, ótimos acabamentos gráficos. Títulos clássicos disponíveis e lançamentos acompanhando o que tem importância no exterior e muito espaço para iniciativas independentes. Além disso as possibilidades sempre democratizantes com o digital. Se o mercado atingiu esse nível de profissionalização é porque há leitores. As formas de distribuição vão sempre se alterando, isso não é novidade. Em 2019 acredito que essas formas vão se ajeitando.

Você tem algum próximo projeto? Pode nos contar um pouquinho dele?

Hoje estou envolvido em um projeto de doutorado sobre “As ideias fora do lugar” do Roberto Schwarz, no departamento de história da USP. Para me concentrar nessa pesquisa e escrita, deixei por enquanto o segundo romance esperando. É claro que essa espera tem sempre alguma atividade. Aqui e ali você guarda uma impressão, uma leitura, uma anotação para o romance. E lá na frente não sabe dizer quais foram as influências diretas…

Bookhal #01: Leituras de março – piloto

Todo mês faremos um vídeo com os títulos que pretendemos ler. O objetivo é apresentar os livros contando sobre seu conteúdo e mostrando as suas edições. Confira a nossa seleção de obras para o mês de março.

Lista dos livros indicados no vídeo:

  • Primavera num espelho partido – Mario Benedetti
  • Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa
  • Quem tem medo do feminismo negro – Djamila Ribeiro
  • Outros jeitos de usar a boca – Rupi Kaur
  • Nada – Carmen Laforet
  • Presos que menstruam – Nana Queiroz