Resenha #32: ‘Fim de Festa’ de Renata Wolff

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Luana Caroline Nascimento

*Texto alterado em 27 de agosto de 2020

É fim de mês aqui. No livro é fim de festa. Fim da névoa. Fim do porre. Descobri a literatura de Renata Wolff pela editora Dublinense. O livro “Fim de Festa” finalista do Prêmio Jabuti 2016 chegou na minha casa e eu devorei as páginas muito mais rápido do que imaginava. É uma leitura envolvente de uma obra extremamente bem escrita e delicada.

O livro Fim de Festa, da Renata Wolff publicada pela editora Dublinense, é uma coletânea de contos, porém há quatro personagens: Ana, Pedro, Sérgio e Carol que aparecerem em vários contos. Sérgio e Carol são um casal que se conhecem na festa de casamento de Ana e Pedro e durante as histórias que vemos o amor dos recém casados ficar abalado os dois novos pombinhos estão cada vez mais apaixonados para aquecer nossos corações de eternas adolescentes leitoras de romances. A obra foi finalista do Prêmio Jabuti 2016.

Há dois contos sobre amizades que foram os mais impactantes na minha leitura: “Roda Gigante”, que leio um trecho nas nossas redes sociais, e “Aviões de papel”. Cada história se passa em uma festa diferente e trata do amor entre amigos de uma forma delicada. Em ambas as histórias vemos amigos precisando ajudar o outro em algum momento difícil e neste momento pandemico que vivemos não há nada que nos de mais saudades do que estar com nossos amigos. É uma leitura envolvente de uma obra extremamente bem escrita e delicada.

Todas as histórias, amores e romances acontecem em alguma festa e a narrativa da história se estende até a manhã seguinte. Quando a ressaca começa. Assim como no nosso ninho aqui da Pássaro Liberto o livro tem personagens lésbica, gorda, heteronormativa, travesti, gay e negra. Nessa festa não há espaço para o preconceito e a ignorancia. Que assim seja nossa literatura sempre!

FICHA TÉCNICA

Título: Fim de Festa
Autora: Renata Wolff
Ano e país de publicação: 2016, Brasil
Editora: Dublinense
Avaliação:

Avaliação: 4 de 5.

Resenha #31: ‘Nossa poesia’ da Bruna Barreto

Imagem: MUM

Por MUM

18 de agosto de 2020

Faz chuva, chuva forte. O vento carrega as gotas num bater ritmado. Dançante. Cantante. Li “Nossa poesia” num dia assim antes de hoje.

Quando comecei a leitura não sabia o que iria acontecer, foi tão orgânico e tão fluido que não consegui parar por um segundo. As palavras de Bruna fluíam pela minha garganta que era só uma passagem de ar e eu uma ferramenta da sua palavra e do seu ritmo.  Li o livro todo em voz alta, cantei e inventei compassos que talvez pudessem existir também na cabeça de Bruna. Dei notas aquela escrita rimada e penetrante nos poros. Senti. 

“Nossa poesia” é o livro de estreia da autora catarinense Bruna Barreto e  vem com muitas verdades escancaradas sobre as vivências de uma mulher poeta, preta, sapatão e cheia de palavra viva e perspicaz. Conheci Bruna no ano passado nesses encontros bonitos que a vida de cantante oferece e me tornei apreciadora de sua multiplicidade em fazer arte por todo canto. 

 O livro “Nossa poesia” faz parte da série “Palavra de Mulher” que traz publicações de autoras catarinenses “que fazem da palavra escrita uma ferramenta para a reafirmação e reinvenção do que é ser mulher no mundo”. E antes de me despedir deixo com você o primeiro poema do livro: 

Com palavra me visto,
Desde menina.
Antes até de saber o que poesia era,
Já não me desgrudava dela.
Em todos os dias da minha vida,
Ela estava presente,
Desde o primeiro ralado,
Até o cair do primeiro dente.
Agora,
Já sou menina mulher,
Posso ser o que quiser,
Mas todo o dia,
Quero ser poesia.
A palavra me protege,
É meu escudo e munição,
Com ela,
Falo das lutas,
E da cegueira,
Que carrega uma sociedade,
a vida inteira.
Em todos os momentos,
Sejam eles de calor,
Ou nos dias cinzentos,
A palavra é o cimento,
Dessa minha construção,
É o que move todo meu ser,
E meu coração.
Quando penso em cair,
É ela quem segura minha mão,
Sem palavra já não posso viver,
Já que agora,
Somos um só ser.

Bruna Barreto – Nossa poesia

FICHA TÉCNICA

Título: Nossa poesia
Autora: Bruna Barreto
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Editora: Insular
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #30: ‘Amora’ da Natalia Borges Polesso

Foto: Ana Istschuk

Por Ana Istschuk

“Amora” é quase todo amor. Amor no feminino, amor de mulher que ama outra mulher. São contos que narram relacionamentos de todos os tipos, de idades variadas, de primeiros amores a casamentos… Enfim, mostra a pluralidade das mulheres lésbicas em seus relacionamentos diversos.

Este livro me marcou especialmente porque foi meu companheiro de trajetória até a casa da minha namorada. Minha primeira namorada. Em cada ônibus que percorria o caminho entre nossos bairros eu conhecia uma história nova de relacionamento. Relacionamentos que agora me eram próximos e que narravam na ficção situações que eu poderia encontrar na realidade.

E essas histórias no trajeto viram e acompanharam a construção do meu caminho nesse novo relacionamento. Era quase ritualístico chegar na casa dela e contar “amor, o conto que eu li hoje…” e ela me ouvir atenta, fazendo perguntas, interessada no que eu dizia (ela sempre ouve). 

Foi um livro que li devagar, quase sempre um conto por vez, um conto por dia. A leitura durou pouco mais de um mês (são 33 contos que compõem o livro), muito mais por essa rotina criada por mim do que pela narrativa fluida e convidativa da autora. Escrita tão bem construída que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Contos em 2016.

Ora grandes e sumarentas, ora pequenas e ácidas, as histórias de Natalia Borges Polesso versam sobre relacionamentos, no plural. A lesbianidade é o que tem em comum nas histórias, mas o foco são as relações em si, os vários relacionamentos que pessoas podem ter, mostrando nesses diversos cenários as particularidades vividas por quem ama outra mulher. 

“Amora” me foi um livro de referência. Me foi um livro onde li histórias que eu poderia viver, desde situações de descoberta de um novo amor, de términos, de abandonos, à cenas duras, de não aceitação, e até algumas cenas engraçadas relacionadas à família. 

Sei que não falei tanto sobre o livro e que tornei o texto bem pessoal, mas para mim é quase impossível falar dessa obra sem contar um pedaço da minha história.

FICHA TÉCNICA

Título: Amora
Autora: Natalia Borges Polesso
Ano e país de publicação: 2015, Brasil
Editora: Dublinense
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Indicação #07: Cinco livros de autoras lésbicas por Gabriela Soutello

A indicação de agosto – mês da visibilidade lésbica – é da nossa convidada Gabriela Soutello. Artista, escritora e jornalista, publicou “Ninguém vai lembrar de mim” em 2019, vencedor do I Prêmio Mix Literário (o livro dela já foi resenhado aqui no site e comentado na segunda edição da série “Desatravancando voos – migração literária” da Pássaro Liberto).

“Eu não sei se existe uma literatura lésbica. Existe uma literatura hétero? Acho que definir minha literatura, que ainda está tateando suas possibilidades, é limitá-la. Gosto de pensar que está em trânsito, e que tem todas as vertentes possíveis de caminho & expansão. Mas, sim, sou lésbica, ao menos até hoje, até agora, três da tarde. Minha literatura é literatura escrita por uma mulher cis lésbica, e certamente carrega absorções, vivências e percepções decorrentes disso. Acho importante, inclusive, falarmos sobre personagens lésbicas: termos espaço, termos histórias sendo contadas, reescritas, recriadas e lidas. Mas, mesmo entre lésbicas, há inúmeros recortes. Não somos todas iguais. Por isso a importâncias de estarmos em histórias, tantas de nós. Gosto de me ver como uma facilitadora disso; como alguém que buscou e busca tanto referências que se sente, hoje, capaz de também criá-las. Existir assim, à margem, fora do molde imposto, já é uma neonarrativa da existência.”

– Trecho da entrevista de Gabriela Soutello para o Leia Mulheres

Eu preferia ter perdido um olho – Paloma Franca Amorim

Este livro é uma reunião de textos escritos em primeira pessoa por Paloma Franca Amorim. São contos que foram publicados no jornal paraense OLiberal. A narrativa da autora tem tom de confissão e versa sobre a compreensão da vida e da realidade humana.

O corpo dela e outras farras – Carmen Maria Machado

O livro de contos da autora é considerado um Black Mirror feminista. Os textos ao mesmo tempo mostram questões de violência bruta e de sentimentos rebuscados, mapeando realidades de vidas de mulheres e da violência a que seus corpos são submetidos.

Um exu em Nova York – Cidinha da Silva

Os contos de Cidinha da Silva neste livro mostram um cotidiano ficcional que aborda muitas questões atuais da contemporaneidade, como política, crise ética, racismo religioso, perda de direitos em especial das mulheres, negros e grupos LGBT.

Néctar 44 – Aline Miranda

Primeiro livro de poesias da autora, versa sobre mulheres, as muitas mulheres que a autora nos apresenta. Aline Miranda tem vasta produção em mídias online, zines e publicações independentes realizadas em sua máquina de escrever.

Todos os meus humores – Dia Nobre

Esse livro de poesias traz a discussão sobre saúde mental, em especial sobre a saúde mental para mulheres, que historicamente foram vítimas dos abusos dos manicômios e sanatórios, que foram (e são) carimbadas como histéricas por não se adequarem aos limites da misoginia, por falarem em voz firme e alta contra ela.

Resenha #29 “transespírito” de Mel Bevacqua

Foto: MUM

Por MUM

28 de julho de 2020

Livros de capa vermelha sempre me chamam atenção. Acho que o vermelho que pulsa na veia, que desce pelas pernas e que queima nos olhos querem contato com todo o tipo de vermelho que também escorre, queima e pulsa. E foi isso o que eu encontrei dentro deste livro.

Foi a primeira vez que eu li um livro de uma travesti, mãe, feiticeira, taróloga, orácula, professora e artista multifacetada. Mel Bevacqua. Já fazem tempos que acompanho o trabalho da Mel de longe e agora “Transespírito” me trouxe pra perto, entrando, dentro do trânsito, dos transes do espírito.

Recebi esse livro em casa com o maior carinho e uma dedicatória tauriníssima pra uma tauriníssima do meio da terra “envio um quatro de ouros como marcador, carta que nos dá firmeza e estrutura”, e a partir dai entrei no transe que só poderia ter sido “escrito por uma travesti através do transe das palavras.”

Me alimentei das palavras, da paixão e de cada encontro sozinha ou juntas.

Me conectei com a escrita desse livro de uma forma muito visceral da introdução “sou uma escrita de pernas e braços, sou letras e garganta” ao final “existem tantas maneiras de compreender o tempo, mas sempre se entende o mesmo tempo” sem ponto final.

Pra Mel, o transe é contínuo no tempo.

Pra finalizar, deixo esse poema que tanto me identifiquei por ser uma árvore com excesso de terra, porém com falta de água e muito fogo. Desequilíbrios que as vezes podem queimar, mas tudo bem ter desequilíbrios no mapa astral “afinal é só esse excesso de terra que faz uma árvore”.

“a árvore tão inteira e tão desequilibrada. Aposto que ela olha seu mapa astral e diz tenho pouco fogo, não tenho nada de fogo, sou muito terra, tenho um pouco de ar e um pouco de água, mas sou muito terra. Mas logo ela percebe que está viajando e que o fogo nem faria tão bem pra ela assim, que o fogo a secaria, que o equilíbrio é brega e que é ótimo ter desequilíbrios no mapa astral, afinal é só esse excesso de terra que a faz uma árvore.”

FICHA TÉCNICA

Título: transespírito
Autora: Mel Mevacqua
Ano e país de publicação: 2020, Brasil
Editora: Imaginario
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.