Entrevista #02: Aparecida de Jesus Ferreira

Aparecida de Jesus Ferreira autora d’As bonecas negras de Lara | Foto: Ana Istschuk

Essa entrevista é com a escritora ponta-grossense Aparecida de Jesus Ferreira, autora de “As bonecas negras de Lara” e mais nove outros livros no Brasil e um nos Estados Unidos. A autora nos conta como foi se descobrir escritora, representatividade, seu livro infantil e a importância de encontrar livros representativos na infância, entre outros assuntos.

Trajetória com a escrita

Como foi o processo para você se descobrir escritora?

Eu acho que o processo começou por conta das próprias pesquisas que eu faço e eu acho que pela questão de querer mostrar um pouco de como trabalhar com um tema que se relaciona com a questão da diversidade étnico-racial. Eu quis começar a escrever para contar um pouco, para as pessoas terem um contato com relação ao que tem sido trabalhado, ao que tem sido dito, quais pesquisas têm sido feitas com relação a isso. Essas foram escritas um pouco mais acadêmicas e por conta dessas pesquisas acadêmicas eu também quis dialogar com o jovem, adolescente, adulto e criança, que é uma outra modalidade. Que fosse uma coisa de criar mesmo a necessidade das pessoas se colocarem no lugar do outro, de se aproximar do que o outro tem experienciado. Foi assim que eu acho que comecei a pensar nessa escrita um pouco mais livre, porque escrita acadêmica eu já fazia por conta da minha própria profissão, eu fiz um curso de letras, então tem toda essa questão de já escrever.
Eu sempre gostei muito de ler, eu acho que a leitura é o que me abriu janelas e portas, abriu várias possibilidades. Foi através da leitura que eu descobri, por exemplo, que eu gosto de escrever, foi através da leitura que eu descobri que eu gosto de viajar, foi através da leitura que eu descobri que eu podia sonhar alto, estudar, fazer cursos fora. E por conta da leitura e das vivências de ler um pouco dos trabalhos das outras pessoas foi que eu comecei a me desafiar. “Por que não escrever? Por que não mostrar um pouco dessa experiência que eu tenho visto que pudessem impactar as pessoas de outras formas?” Foi assim que surgiram esses livros que são mais acessíveis às pessoas que não estão dentro da universidade.
O livro “As bonecas negras de Lara” é um livro que fala bastante sobre a questão de diversidade, fala da questão de pertencimento, da identidade racial, gênero e de classe. Acho que essa é a função. O livro fala sobre ancestralidade e língua. Foi o acesso do livro. Concomitante a esse livro que vieram os outros de narrativas de letramento racial. É colocar mesmo as pessoas com a experiência dos outros. Eu fiz várias narrativas minhas, eu escrevi um livro meu, somente meu, com as minhas narrativas. E outros com narrativas de outras pessoas que contam um pouco dessas experiências para que as pessoas pudessem sentir um pouco

Representatividade e mercado editorial

Como você vê no mercado hoje a questão da representatividade negra no mercado? Hoje para um escritor ou uma escritora negra se lançar no mercado é diferente de quando você começou sua carreira?

A gente consegue ver uma diferença enorme. Se nós formos ver hoje na Academia Brasileira de Letras, quem são os autores negros e negras que estão na Academia? Afinal nós [negros e negras] somos 54% da população brasileira. Há uma dificuldade desse reconhecimento da sociedade e de fazer com que esses autores estejam presentes nas feiras de livros. A gente tem tido, claro, a Conceição Evaristo, a Djamila Ribeiro, que tem tido um pouco de evidência. Certamente a evidência dessas autoras foi possibilitada pelas redes sociais. As duas autoras que eu mencionei elas tem uma imensidão de seguidores e hoje a gente tem toda uma população negra de mulheres e homens que também estão muito ativos nas redes sociais.
A gente tem várias blogueiras que também fazem o trabalho de chamarem um pouco dessa reflexão da negritude. O que é ser negro na sociedade brasileira. Eu acho que a população negra está fazendo com que essa visibilidade se torne um pouco mais evidente. A gente percebe que a população negra tá aprendendo a se fortalecer entre si. É claro que temos parceiros brancos e brancas, mas a gente precisaria de muito mais para que os autores e autoras negros pudessem ter mais evidência. isso vai em todos os segmentos, desde escritores de telenovelas, diretores de filmes que podem estar representando livros, por exemplo.
Se formos pensar nos Estados Unidos, em que 13% da população é negra, a gente vê muito mais evidência dessa população negra estadunidense em todas as mídias. Como escritores, produtores de filme, produtores de documentários. A gente vê uma evidência muito maior do que vemos no Brasil. Então há uma lacuna muito grande, a gente está indo num crescendo, mas a gente precisa de muito mais.

Obra(s) e recepção do público

O livro “As bonecas negras de Lara” é direcionado ao público infantil. Qual o impacto que as autoras negras tem com crianças negras? E que impacto as autoras negras tiveram em você quando você era criança?

No meu caso, infelizmente quando eu era criança eu não tive essa oportunidade que crianças tem hoje com “As bonecas negras de Lara” ou com outros tipos de literatura infantil que tem essa temática. Há um contingente grande hoje, embora não com tanta visibilidade quanto os demais livros. Os autores negros e negras tem um pouco mais de dificuldade de conseguir fazer seus livros serem publicados pelas editoras. Isso impede também que os livros cheguem nas escolas e nas mãos dos alunos também, mas eu acho que um livro como esse tem um impacto fantástico.
Eu tenho amostra, não só das minhas experiências familiares com a minha sobrinha (o livro foi feito para a minha sobrinha Lara), mas o impacto que teve e que tem tido para outras crianças também. No Facebook tem um grupo aberto que se chama “Livro – As bonecas negras de Lara” com uma imensidão de professores, de quase todo o Brasil, que tiveram acesso ao livro e tem me enviado. E eu coloco lá como amostra.
As pessoas fazendo trabalho com as abayomi, de ter na escola uma caixa de livros só com literatura de representatividade negra além de outros. A gente observa o impacto que tem numa criança. Inclusive soltar o cabelo. Tem o relato de uma professora que fez o trabalho com uma menina negra que não soltava o cabelo, ela passou além de soltar o cabelo a fazer tranças, deixar o cabelo solto. Houve uma revolução na própria menina e isso faz com que a menina se poste diferente, goste de si, queira falar mais na frente dos colegas. Isso dá um impacto na vida da pessoa substancialmente. A pessoa vê que pode ser representada. Que ela tem um lugar, ela pode estar em todos os lugares, ela pode se apresentar, apresentar um trabalho com orgulho de estar naquele lugar sem se sentir que ela não pode estar ocupando aquele lugar. Os livros trazem essa questão da representatividade, do orgulho, da autoestima elevada. E uma vez trabalhada essas questões as crianças acabam impactando as outras crianças que estão ao redor dela. É uma das grandes vantagens do livro, as crianças já tem um pouco mais de acesso, a gente percebe que as bibliotecas das escolas já tem um contingente de material um pouco maior do que tinha há 20 ou 30 anos, por conta do próprio apelo que tem sido feito. A gente observa que isso está em um crescendo, embora ainda não seja dentro do formato que a gente precisa.
A gente precisa de muito mais, mas acho que já temos um contingente importante hoje de meninos e meninas, mulheres negras e negros e pessoas brancas que estão engajadas e se sentido responsabilizadas pela questão sabendo que é a partir de nós que essa questão vai se tornar pública.

Como você, escritora, se sente quando recebe o relato por exemplo de uma menina que começou a soltar o cabelo?

Fantástico, nem eu sabia e nem eu pensei nisso quando eu escrevi o livro. Porque eu escrevi para a minha afilhada e sobrinha. Eu não pensei que teria esse impacto que está tendo o livro. A minha alegria de estar com as crianças apreciando. Quando você escuta uma criança dizendo o quanto ela gostou do livro, da história, isso criança brancas e negras, você percebe que elas entenderam o que está por trás do material. A questão do acolhimento a diversidade, de se relacionar com as pessoas independente do seu pertencimento étnico-racial, da sua identidade racial.
A força delas fará com que as coisas se modifiquem, porque as crianças levam essas coisas para dentro das casas. Elas mudam a percepção dos pais, responsáveis, dos familiares porque elas passam a questionar. É uma criança que se torna empoderada e a partir de que você cria essa tendência de reflexão e criticidade nessa criança não tem como você tirar mais, ou seja, essa criança só vai florescer e a partir daí trazer reflexões para outras pessoas. Fica questionador e quando a gente aprende a ser questionador nunca mais para.

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Entrevista #01: Tiago Ferro

Tiago Ferro autor d’O pai da menina morta | Foto: divulgação

Nossa primeira entrevista é com o escritor paulista Tiago Ferro, autor de “O pai da menina morta”, seu primeiro romance. O autor nos conta como foi o processo de construção do seu livro, sua relação com a escrita, referências literárias e seus planos para este ano.

Trajetória com a escrita

Quando a escrita entrou na sua vida? Como foi esse processo?

Há muitos anos escrevo ensaios de cultura, principalmente crítica literária, para publicações como a revista Cult, Suplemento Pernambuco, revista Peixe-elétrico e a Quatro Cinco Um. Mas até escrever o romance O pai da menina morta, nunca havia tentado ou até mesmo desejado escrever ficção.

O que escrever significa para você?

Depois de escrever o romance, me parece hoje que as duas formas de escrita (ensaística e ficcional) se misturam, complementam e em alguns casos problematizam os textos. Na escrita ficcional do livro entrou em boa medida essa veia ensaística, o que permitiu tratar de questões que correm por fora da trama principal do livro e arejaram o tecido narrativo. Se não estou enganado, o leitor mais familiarizado com a crítica, consegue notar como essas preocupações atravessam o romance. Por outro lado, textos acadêmicos exigem uma série de padrões e formatações que a liberdade experimentada no romance pode gerar problemas. De qualquer forma me parece artificial separar as duas formas de escrita.

Como foi o processo e a experiência de escrever um livro?

O livro foi escrito em pouco tempo: dois, três meses. Portanto foi tudo muito intenso. O processo foi “escrever” mentalmente incessantemente vários trechos do livro e só ir para o computador quando se tornava muito difícil reter o conteúdo. Não foi muito agradável… Uma espécie de ideia fixa o tempo todo e o receio de perder alguma passagem. Essa intensidade se encerra quando o livro é entregue e paradoxalmente não gera um alívio, mas uma perda de intensidade desagradável. Resumindo então eu diria que não é exatamente um prazer o momento da escrita, é impossível ficar por muito tempo envolvido naquele tipo de alta-voltagem, mas quando acaba, os vazios que pareciam estar sendo preenchidos pela forma literária, ressurgem com força, e pedindo novas formas.

Obra(s)

Você trata seu romance como uma ficção, queríamos saber o porquê dessa sua visão e do que trata o livro ‘O pai da menina morta’?

Apesar do livro partir de um evento vivido por mim, em nenhum momento o livro foi construído para contar o que havia acontecido. Sendo assim, não me preocupei em ser fiel aos fatos, cronologia, etc. Meu interesse era investigar o que estava latente comigo e que a linguagem do senso comum, os clichês, simplesmente não davam conta. É nesse sentido que o livro pode ser considerado uma ficção. É na liberdade da criação da forma artística-literária, que o Eu do autor é superado e o livro ganha os contornos de um romance e não de um livro de memórias.

O narrador do romance não tem nome, ele é o pai da menina morta. Queríamos que você falasse um pouco sobre o processo do anonimato do personagem e de enfraquecimento da personalidade dele.

Me parece que a questão não é anonimato e muito menos enfraquecimento. O que está em jogo nesse personagem sem nome é a questão da identidade, do jogo de máscaras das relações sociais da sociedade. Se há “o pai de família”, “o funcionário honesto”, “a mãe dedicada”, “o rebelde” etc, como lidar com “o pai da menina morta”? Uma identidade indesejada e incômoda que vai caminhando durante o livro e desfazendo os outros papéis até então muito seguros que sustentam o teatro do mundo no qual vivemos. O que acontece se nos despirmos de todas as máscaras? Meu palpite é que não encontramos algo autêntico, mas apenas a linguagem. Portanto essa escolha está implicada muito menos em caracterizar desta ou daquela forma o personagem, mas de causar curtos-circuitos nas relações estabelecidas da sociedade que desabam quando um evento trágico explode de forma violenta, como foi a morte da minha filha.

A decisão de escrever o seu primeiro romance foi consciente ou foi algo que aconteceu de uma forma mais natural?

Acho difícil falar em intenções, seja para contar uma história muito bem amarrada de que lá no comecinho estava tudo previsto, ou o retorno à ideia de inspiração etc. Aqui me parece que o que importa é o texto, o livro. Não cabe ao autor ser o seu próprio intérprete, aquele que sabe do que trata o livro e paira sobre as outras interpretações. A cada nova resenha, mais eu fico sabendo sobre o livro que escrevi. E levo vários sustos! Um romance só faz sentido para o autor quando o surpreende, e essa surpresa deve necessariamente vir da leitura de terceiros.

Como foi o processo para você, Tiago Ferro, expor de forma tão honesta uma dor e um sentimento seu, misturado com a ficção do pai da menina morta? Ela foi intencional ou você não parou para refletir enquanto escrevia?

Foi um livro escrito de forma despudorada. Meu único cuidado e revisões foi para ter certeza que não implicava ou feria a intimidade de alguém. Fora isso escrevi o que eu queria da forma que queria. Não tenho preocupação alguma com leituras que procurem o autor no narrador, apesar de achar um caminho que empobrece o texto. Talvez por ter vivido um evento tão violento, as preocupações dessa ordem perdem importância. E salvo engano isso gera um ganho para o livro.

O livro é construído com várias formas de linguagens, com textos, listas, fotografias, como foi o processo de construção dessa narrativa mesclada e o impacto que ela causa na redação final?

No início o livro foi escrito como um diário tradicional. Mas conforme surgiram outras questões: memórias, desejos, política, o diário foi sendo desconstruído para acolher esses conteúdos. Ou seja, a forma foi sendo adaptada conforme a escrita evoluía e pedia soluções de acordo com o que estava sendo contado. Nesse processo fui libertando a linguagem e a narrativa até chegar no ponto que me deixou satisfeito: um fragmentário caótico que ainda guarda uma narrativa, uma história.

Inspirações e referências

Teve alguma obra que você leu com o estilo de escrita ou com um tema parecidos com o d’O pai da menina morta que te inspiraram para escrever o teu livro?

Não fiz nenhum tipo de pesquisa com o intuito de buscar soluções para a minha própria escrita. Nem soluções formais e nem nos livros mais conhecidos que lidam com o tema do luto. Não quero com isso proclamar nenhum tipo de grande originalidade, obviamente as leituras de uma vida toda entram nesse processo de construção do próprio livro. Mas voltando ao que disse sobre a intensidade do processo de escrita, livros teoricamente laterais ao tema mas que estavam comigo na época da escrita, são citados no romance e ganham relevo na trama: A história do olho e a A idade viril.

Você tem autores que são referência para a tua escrita, teu estilo – de forma geral, não especificamente para o teu livro? Quais são?

Se por um lado sempre tive interesse nas vanguardas literárias do século 20, nunca deixei de ler os romancistas preocupados em contar uma boa história, sendo talvez o Roth o meu preferido. Procuro sempre estar atento aos autores brasileiros contemporâneos e leio muita crítica e ensaio.

Expectativas para 2019

Você pretende escrever mais livros?

Sim, pretendo.

Quais são as tuas expectativas para 2019 quanto ao mercado literário?

Apesar da crise econômica dos últimos anos e do esgotamento do modelo de mega stores que causou sérios prejuízos ao mercado como um todo, principalmente para as grandes editoras, minha leitura é que o mercado editorial é hoje mais maduro do que jamais foi. Traduções sempre de línguas originais, projetos gráficos bem feitos, ótimos acabamentos gráficos. Títulos clássicos disponíveis e lançamentos acompanhando o que tem importância no exterior e muito espaço para iniciativas independentes. Além disso as possibilidades sempre democratizantes com o digital. Se o mercado atingiu esse nível de profissionalização é porque há leitores. As formas de distribuição vão sempre se alterando, isso não é novidade. Em 2019 acredito que essas formas vão se ajeitando.

Você tem algum próximo projeto? Pode nos contar um pouquinho dele?

Hoje estou envolvido em um projeto de doutorado sobre “As ideias fora do lugar” do Roberto Schwarz, no departamento de história da USP. Para me concentrar nessa pesquisa e escrita, deixei por enquanto o segundo romance esperando. É claro que essa espera tem sempre alguma atividade. Aqui e ali você guarda uma impressão, uma leitura, uma anotação para o romance. E lá na frente não sabe dizer quais foram as influências diretas…