Indicação #07: Cinco livros de autoras lésbicas por Gabriela Soutello

A indicação de agosto – mês da visibilidade lésbica – é da nossa convidada Gabriela Soutello. Artista, escritora e jornalista, publicou “Ninguém vai lembrar de mim” em 2019, vencedor do I Prêmio Mix Literário (o livro dela já foi resenhado aqui no site e comentado na segunda edição da série “Desatravancando voos – migração literária” da Pássaro Liberto).

“Eu não sei se existe uma literatura lésbica. Existe uma literatura hétero? Acho que definir minha literatura, que ainda está tateando suas possibilidades, é limitá-la. Gosto de pensar que está em trânsito, e que tem todas as vertentes possíveis de caminho & expansão. Mas, sim, sou lésbica, ao menos até hoje, até agora, três da tarde. Minha literatura é literatura escrita por uma mulher cis lésbica, e certamente carrega absorções, vivências e percepções decorrentes disso. Acho importante, inclusive, falarmos sobre personagens lésbicas: termos espaço, termos histórias sendo contadas, reescritas, recriadas e lidas. Mas, mesmo entre lésbicas, há inúmeros recortes. Não somos todas iguais. Por isso a importâncias de estarmos em histórias, tantas de nós. Gosto de me ver como uma facilitadora disso; como alguém que buscou e busca tanto referências que se sente, hoje, capaz de também criá-las. Existir assim, à margem, fora do molde imposto, já é uma neonarrativa da existência.”

– Trecho da entrevista de Gabriela Soutello para o Leia Mulheres

Eu preferia ter perdido um olho – Paloma Franca Amorim

Este livro é uma reunião de textos escritos em primeira pessoa por Paloma Franca Amorim. São contos que foram publicados no jornal paraense OLiberal. A narrativa da autora tem tom de confissão e versa sobre a compreensão da vida e da realidade humana.

O corpo dela e outras farras – Carmen Maria Machado

O livro de contos da autora é considerado um Black Mirror feminista. Os textos ao mesmo tempo mostram questões de violência bruta e de sentimentos rebuscados, mapeando realidades de vidas de mulheres e da violência a que seus corpos são submetidos.

Um exu em Nova York – Cidinha da Silva

Os contos de Cidinha da Silva neste livro mostram um cotidiano ficcional que aborda muitas questões atuais da contemporaneidade, como política, crise ética, racismo religioso, perda de direitos em especial das mulheres, negros e grupos LGBT.

Néctar 44 – Aline Miranda

Primeiro livro de poesias da autora, versa sobre mulheres, as muitas mulheres que a autora nos apresenta. Aline Miranda tem vasta produção em mídias online, zines e publicações independentes realizadas em sua máquina de escrever.

Todos os meus humores – Dia Nobre

Esse livro de poesias traz a discussão sobre saúde mental, em especial sobre a saúde mental para mulheres, que historicamente foram vítimas dos abusos dos manicômios e sanatórios, que foram (e são) carimbadas como histéricas por não se adequarem aos limites da misoginia, por falarem em voz firme e alta contra ela.

Resenha #29 “transespírito” de Mel Bevacqua

Foto: MUM

Por MUM

28 de julho de 2020

Livros de capa vermelha sempre me chamam atenção. Acho que o vermelho que pulsa na veia, que desce pelas pernas e que queima nos olhos querem contato com todo o tipo de vermelho que também escorre, queima e pulsa. E foi isso o que eu encontrei dentro deste livro.

Foi a primeira vez que eu li um livro de uma travesti, mãe, feiticeira, taróloga, orácula, professora e artista multifacetada. Mel Bevacqua. Já fazem tempos que acompanho o trabalho da Mel de longe e agora “Transespírito” me trouxe pra perto, entrando, dentro do trânsito, dos transes do espírito.

Recebi esse livro em casa com o maior carinho e uma dedicatória tauriníssima pra uma tauriníssima do meio da terra “envio um quatro de ouros como marcador, carta que nos dá firmeza e estrutura”, e a partir dai entrei no transe que só poderia ter sido “escrito por uma travesti através do transe das palavras.”

Me alimentei das palavras, da paixão e de cada encontro sozinha ou juntas.

Me conectei com a escrita desse livro de uma forma muito visceral da introdução “sou uma escrita de pernas e braços, sou letras e garganta” ao final “existem tantas maneiras de compreender o tempo, mas sempre se entende o mesmo tempo” sem ponto final.

Pra Mel, o transe é contínuo no tempo.

Pra finalizar, deixo esse poema que tanto me identifiquei por ser uma árvore com excesso de terra, porém com falta de água e muito fogo. Desequilíbrios que as vezes podem queimar, mas tudo bem ter desequilíbrios no mapa astral “afinal é só esse excesso de terra que faz uma árvore”.

“a árvore tão inteira e tão desequilibrada. Aposto que ela olha seu mapa astral e diz tenho pouco fogo, não tenho nada de fogo, sou muito terra, tenho um pouco de ar e um pouco de água, mas sou muito terra. Mas logo ela percebe que está viajando e que o fogo nem faria tão bem pra ela assim, que o fogo a secaria, que o equilíbrio é brega e que é ótimo ter desequilíbrios no mapa astral, afinal é só esse excesso de terra que a faz uma árvore.”

FICHA TÉCNICA

Título: transespírito
Autora: Mel Mevacqua
Ano e país de publicação: 2020, Brasil
Editora: Imaginario
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #27: ‘Cartas para ninguém’ da Diana Salu

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Ana Istschuk

Quando sento para escrever uma resenha, em geral, sinto certo receio. É que não sei ao certo como falar de uma autora e de sua obra sem usar as palavras escritas por ela em sua criação. Sinto que, por mais que eu me esforce, minhas palavras são insuficientes para contar o que foi o livro e a experiência de leitura. E não raro recorro ao uso de palavras, expressões e olhares que existem no livro para compor o meu texto – o que nem sempre o torna compreensível.

Nunca antes de “Cartas para ninguém” da Diana Salu tinha me sentido tão fora de lugar para escrever. Como falar de um livro sobre o encontro de alguém consigo mesma?! Mas não de qualquer um no processo de conhecimento de si, mas de um alguém que é mulher-travesti-sapatão achando a si mesma em cartas que escreveu para ninguém (que na verdade são para um alguém: para ela mesma, numa autorreferência).

Certamente é desconcertante, além de emocionante, se deparar com a obra de Salu. Ela mostra que a linha pontilhada trilhando o caminho percorrido na busca de encontrar alguém que você reconheça como você mesmo, por mais que seja incerto, é mais importante que o xis no mapa marcando a chegada. Que esse caminho é permeado, por vezes, de medo e de solidão resultante e resultado de crises de (auto)consciência. 

Os quadrinhos da autora nos mostram que parte do processo de se conhecer é saber que é possível se encontrar nas falhas, que esse processo envolve borrar e riscar certezas, reescrever a grafia da vida, a biografia. 

E a vida grafada no livro de Salu nos convida a aprender a ver as histórias que as ruínas (em nós) nos contam, sobre ter ciência de que sempre fica algo de tudo e qualquer coisa-experiência que tenha sido nossa. 

Saber sobre si é entender que por mais que se deseje ser outro, ver pelos olhos de outro, viver como outro, você só pode ser você. É isto que te cabe, com isso escreverá a tua história. E com toda essa jornada em busca da descoberta de si, do autoamor, vem a necessidade do cuidado, de se autocuidar continuamente, para poder flores(c)er.

As cartas enquadrinhadas de Salu revelam a anatomia de uma travesti sapatão que merece e deve ser ouvida. Uma de muitas vozes que estão a falar e escrever suas vivências. Histórias que podem ser encontradas na cole-sã escrevivências da padê editorial que aposta, publica e dá espaço para narrativas LBTs. Cale-se um pouco e escute mais. Nos outros também podemos encontrar nós mesmos.

FICHA TÉCNICA

Título: Cartas para ninguém
Autora: Diana Salu
Ano e país de publicação: 2019, Brasil (2ª edição)
Editora: Padê editorial
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Indicação #06: Cinco livros para refletir e explorar as diferenças por Bruna Barreto

Nossa convidada de julho para indicar livros que PRECISAMOS ler é a Bruna Barreto. Mulher de 23 anos, preta, lésbica e poeta, sempre utilizou da escrita como forma principal de expressão. Quando criança escrevia para fugir da realidade e expressar os sentimentos, hoje entende como enfrentamento, fazendo da palavra um instrumento de representatividade. Nasceu na cidade de Jundiaí, no interior de São Paulo, reside em Florianópolis há cinco anos. Em 2017, pela primeira vez, teve a oportunidade de declamar um poema em público, no evento “Fazendo Gênero/Mundo de Mulheres”. Atualmente, divide o tempo entre a graduação em Animação na UFSC e a poesia, sempre pautando questões étnico-raciais e de gênero.

Conheça a lista dela:

No seu pescoço – Chimamanda Ngozi Adichie

Este livro reúne 12 contos da já consagrada autora romancista e ensaísta, sobre a imigração, a desigualdade racial, os conflitos religiosos e as relações familiares. Lançado em 2009, a obra provoca no leitor uma experiência de empatia num texto de experimentações narrativas.

Nascido do crime – Trevor Noah

Com caráter biográfico, o livro conta a história da infância e juventude do autor, um comediante de grande reconhecimento. A narrativa é ambientada no final do apartheid e nos dias de liberdade que se sucederam.

Herdeira do mar – Mary Lynn Bracht

A desconhecida história de mulheres coreanas durante a Segunda Guerra Mundial é o tema deste livro. Um romance sobre duas irmãs, rico em detalhes históricos e em emoção.

Querem nos calar – Mel Duarte (org.)

Esta antologia, organizada pela Mel Duarte, reúnem poemas de 15 mulheres slammers de todo o Brasil. São poemas fortes para serem lidos em voz alta!

Meu crespo é de rainha – Bell Hooks

Publicado originalmente em 1999, este livro de poema rimado apresenta às meninas negras diferentes penteados e cortes de cabelo de forma positiva e elogiosa. É um livro que enaltece a beleza dos fenótipos negros, exaltando penteados e texturas afro, servindo de referência e representatividade.

Resenha #26: ‘Tibúrcia’ da Lenita Stark

Foto: MUM

Por MUM

30 de junho de 2020

Olho minhas mãos com maior atenção. 24 anos. Ação do tempo. Nossa pele é nossa página mais bem escrita. Todas as marcas, costuras, vivências de nossa experiência no plano físico. Encarnada nesse corpo que habitamos.

Sinto um aconchego imenso ao imaginar as mãozinhas enrugadas e calejadas de minha mãe. Todas as histórias de seu trabalho cravadas ali. Linhas do tempo. Lembro-me de quando juntava as mãos em reverência pra pedir “bença vó” e sentia suas duas mãozinhas macias em volta das minhas “Deus abençoe minha filha”. Adelina, era o nome dela.

Preciso dizer que “Tibúrcia” me fez adentrar em minha infância, muito parecida, apesar de eu e Lenita pertencermos a gerações diferentes. O tempo corre diferente em cidadezinhas do interior.

Em “Tibúrcia”, Lenita Stark conta sua própria história, a história de sua família e principalmente a história de sua avó Tibúrcia que a criou após o falecimento de sua mãe, Rosalina (que fora morta por seu pai).  A história é música, trama, sorrisos, lágrimas, força, natureza. Essa história é mulher.

Entre cantigas de roda (que confesso ter cantado todas em minha leitura), fotos de família, poemas rimados e desenhos de seu neto, Lenita me transportou de volta ao campo, as minhas amigas brincando na rua, meus vestidos feitos por minha mãe, fazer a reza e o cabeçalho na escolinha, andar no meio fio, pegar flores na rua, ir visitar minha avó nos finais de semana entre outro eventos que guardo com carinho no fundo de minhas lembranças. 

Sou grata por todas essas palavras, essas muitas lembranças que afloraste em mim. Não tenho dúvidas de que este foi um livro crucial em minha caminhada de escrita sobre as mulheres de minha família, obrigada por me fazer olhar pra minhas mãos novamente e para as mãos de todas que me seguraram no colo e zelaram por mim.

FICHA TÉCNICA

Título: Tibúrcia
Autora: Lenita Stark
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Editora: Texto e Contexto
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.