Resenha #24: ‘Efemérida’ da Indianara Santos

Por Ana Istschuk

Você já viu uma efemérida antes? Um inseto aquático que tem uma vida curtíssima e um nome categórico que lhe faz ter menos tempo ainda: dura um dia. Pode ser que você nunca tenha visto esse bichinho que parece uma borboleta, mas é certo que já tenha tido contato com coisas na vida que eram tão efêmeras ou mais que as efeméridas.

É sobre elas – as coisas e o bicho – que trata o livro da Indiana Santos, escritora ponta-grossense. Em poesia – não tinha como ser em outro estilo –, ela traz e questiona o sentir de um humano. De um indivíduo que sente a natureza e sente que existe, que vai não existir, que é efêmero, próximo da efemérida, do bicho. 

É um texto que reflete sobre a vida efêmera que levamos, sobre sermos bichos efeméridas. E é um livro de leitura curta também, com poemas curtos, sobre a curteza da vida, parecendo reforçar essa temática prálem da abordagem literal na escrita livre – e curta –, que brinca com palavras, as repete, e até se arrisca a arranjá-las de forma visual, provocando uma outra leitura – e respiro – do texto.

Não posso deixar de mencionar que um dos maiores encantos desta obra é ser de um selo cartonero. A Olaria Cartonera, selo de livros artesanais de Ponta Grossa, publicou de forma independente esta obra em 2019. O selo já publicou vários escritores e é um ótimo jeito de conhecer, incentivar e divulgar novos autores. 

Deixo aqui, para que você conheça um pouco mais, um poema de “Efemérida”:

até lá, Ian
um dia
toda vida saberá
da sua
inutilidade
um dia
todo dia será
apenas um dia
e no outro
já não seremos
nada
um dia
toda paixão
terá sua máscara
fragmentada.

eu queria
um dia
um dia
que seja
tatear
sua confusão
quebrada
vulnerável
mesmo
que renegada
um dia
apenas um dia
q seja
queria ter
fome saciada
mesmo sabendo
q a fome é
a única coisa
a qual se destina
o viver.

um dia
queria saber
dos seus demônios
um dia
nesse dia
em que nada
existirá
libertarei os meus
até lá
tudo bem, eu entendo
eu sei q a fome
é o mais importante.

Indiana Santos – Efemérida

FICHA TÉCNICA

Título: Efemérida
Autora: Indiana Santos
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Editora: Olaria Cartonera
Avaliação:

Avaliação: 3 de 5.

Indicação #05: Cinco livros crônicos por Kleber Bordinhão

No mês de junho convidamos Kleber Bordinhão, escritor (poeta é escritor?) ponta-grossense (não tô dizendo que é local, viu?! – o Kleber não gosta), indicando literaturas crônicas, melhor dizendo, cinco títulos de crônicas para se ler. Segue a listinha:

[nós, passarinhas, explicamos que esse textinho é uma brincadeira com o autor]

Meio intelectual, meio de esquerda – Antônio Prata

Este livro reúne quase 80 crônicas do autor, a maioria publicada entre 2004 e 2010 em jornais e revistas. São textos divertidos, poéticos e cheios de revelações sobre a vida nos grandes centros urbanos.

Ai de ti! Copacabana – Rubem Braga

O título junta crônicas, de 1955 a 1960, selecionadas pelo autor, que mostram o amor à vida simples, de quem é humilde e/ou de quem sofre. O livro é carregado de assuntos do dia-a-dia, da infância, da mocidade e dos primeiros amores.

O Louco de Palestra e outras crônicas urbanas – Vanessa Barbara

É um livro com pitadas de humor, delicadeza, escárnio, que tem como cenário o bairro paulistano Mandaqui. A escrita de Barbara mistura comentário cultural, reportagem e antropologia. O título do livro faz referência à uma crônica muito famosa da autora, que versa sobre um tipo de indivíduo que sempre existiu: o “louco de palestra”, aquele que meio abilolado comenta em conferências e debates.

Impurezas Amorosas – Miguel Sanches Neto

Neste livro, Miguel Sanches Neto, escritor paranaense, apresenta crônicas em que há protagonismo do tempo: são histórias que falam do menino no homem e do homem-menino, mostrando um sujeito que carrega consigo todas as idades.

A descoberta do Mundo – Clarice Lispector

“A descoberta do mundo” reúne textos que Lispector publicava colunas no Jornal do Brasil em 1984. São textos em vários formatos, que tratam de acontecimentos recentes e do cotidianos, reflexões sobre a existência, sobre sua família e suas angústias.

Resenha #23: ‘Lundu’ da Tatiana Nascimento

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por MUM

5 de maio de 2020

Acordei com o sol me dizendo que já era hora de esticar, de esquentar dentro e fora pra além das cobertas. Comecei a ler LUNDU numa madrugada de insônia bem antes do dia de hoje. Pesei a leitura junto com os olhos. Sentia, mas não entendia. Não era meu plano terminar “LUNDU” hoje, mas quem disse que tudo precisa de um plano? O inesperado tem sido uma fuga da rotina. O vento externo trouxe Tatiana de volta.

Conheci Tatiana há pouco tempo por uma amiga e minha primeira impressão foi um encantamento. Seus poemas são como feitiços rítmicos abracadêmicos. Fui encantada por suas palavras (des)conectadas, cruas e dançantes.

E como dançam essas palavras! Nos olhos, na boca, no corpo e nas páginas. As páginas são desenhadas pelas palavras que preenchem lugares específicos, às vezes de cabeça pra baixo, às vezes num cantinho, às vezes silêncio. Pra mim, que trabalho com música, enxergo todo aquele espaço em branco como silêncio, pausa, fazendo parte do texto, trazendo o ritmo.

E que diferença faz quando em som. O ar passando pelas cordas vocais na pronuncia do todo. “Batuque úmido ancestral do vento”.

LUNDU me trouxe balanço, alegria e choro de cunho individual, de cunho coletivo. Algumas coisas muito sentidas, outras coisas apenas ouvidas de quem sentiu e sente.

Acho que meu poema favorito foi o que me fez sentir saudade da família, tenho pensado bastante nela essa semana.  Muito obrigada por “Manhã” y por todas as palavras que me fizeram tatear tambores no meu interior. 

FICHA TÉCNICA

Título: Lundu
Autora: Tatiana Nascimento
Ano e país de publicação: 2016, Brasil
Editora: Padê editorial
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #22: ‘Coração na aldeia, pés no mundo’ da Auritha Tabajara

Foto: Ana Istschuk

Por Luana Caroline Nascimento

A história de uma princesa sem um grande castelo ou um príncipe para salvá-la do dragão. No livro “Coração na aldeia, pés no mundo” da indígena Auritha Tabajara conhecemos a jornada da escritora que saí da própria aldeia onde nasceu para conhecer o mundo. A jovem indígena conheceu desde o mundo a maldade humana. Tudo narrado na forma de cordel e com xilogravuras da paranaense Regina Drozina, o enredo se passa no nordeste brasileiro desde o nascimento da pequena até a vida adulta.

Auritha é a primeira mulher indígena a publicar um livro de cordel, gênero brasileiro marcado pela figura masculina. Para a autora a literatura significa duas coisas principais: a autoexpressão e a resistência da mulher indígena. Porque tudo na história e arte de Auritha é resistência, desde a relação com a avó parteira e benzedeira que ela carinhosamente chama de Mãe-Vó, a relação com as filhas e as orações que faz a Tupã.

Ser mulher no Brasil é também uma resistência e a autora com toda a poesia que nela é natural descontrói os estereótipos atribuídos à mulher indígena que não é uma “fantasia”. Não é possível saber se o cordel é biográfico ou autoficção porque tudo parece muito sincero. Para nós fica a lição do amor-próprio, de seguirmos nossos sonhos e anseios. Nossos pés estão no mundo e podemos ir aonde quisermos, afinal lugar de mulher é aonde ela quiser: na aldeia, na literatura, no cordel e na presidência. Sejamos Auritha, a princesa que não precisa ser salva por um homem porque sabe exatamente aonde quer chegar sem nunca esquecer das próprias origens. O livro “Coração na aldeia, pés no mundo” fez parte do projeto “Desatravancando voos” apresentado no Instagram do Pássaro Liberto pelo edital ‘Em casa com cultura’ da Prefeitura de Ponta Grossa e integra o acervo da Biblioteca Solidária Professora Aparecida de Jesus Ferreira.

Ficha técnica

Título: Coração na aldeia, pés no mundo
Autora: Auritha Tabajara
Ano e país de publicação: 2018, Brasil
Editora: Uk’a Editorial
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #21: ‘Ninguém vai lembrar de mim’ da Gabriela Soutello

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Ana Istschuk

[escorre uma lágrima ardida para quebrar o silêncio]

Existir deixa marcas, fissuras, cortes e cicatrizes. E enquanto existimos, por vezes, buscamos construir um ser, quem somos. Mas quem nos olha de volta quando nos vemos no espelho pode nos parecer uma estranha que rege e mora dentro desse corpo – que habito?

Ninguém vai lembrar de mim” da Gabriela Soutello é um livro essencialmente sobre essa construção do ser. Também é sobre solidão, o que faz sentido ao considerarmos que se construir é um processo solitário, apesar das nossas interações com os outros e com o mundo terem impactos em nós. 

É a solidão, temida e necessária. É o existir que pesa e as lembranças constantes das coisas que existem “lá fora”, no não-dentro. Um “lá fora” que enfrentamos com versões nossas – ou máscaras de gesso, argila e osso, como põe a autora. Quem somos com elas? Quem somos sem elas?

Se pareço estar expondo reflexões fragmentadas, me perdoem, é que o livro é inteiro fragmentado, quebrado (até em algumas fotos). E me levou a senti-lo assim: em pedaços, em três pedaços: as três partes do livro.

É um livro de contos? Sim, mas ele tem uma unidade, paradoxalmente, tão forte que parece um romance. Ou melhor, um monólogo poético em prosa. Além do capricho da narrativa, a diagramação do livro é de tirar o fôlego. Vermelho. Capa vermelha, fotos vermelhas, palavras vermelhas. O livro parece ter sangue percorrendo por suas páginas. Um livro vivo, histórias vivas.

Assim como os pedaços de vida narrados que contam relações entre mulheres, relações descritas de uma maneira que mostra a complexidade de relacionar-se com alguém – nem sempre de forma harmoniosa – que é um mundo inteiro e diferente de você. E, claro, também trata das marcas que essas relações deixam em quem somos: “[…] o rasgo que você abriu e me permitiu me enxergar assim numa análise bem fake psicanalítica, autointerna mesmo, eu mulher, eu, mulheres, rasgo assim sexual, rasgo assim estrutura.” p. 36 – este trecho é de uma narrativa de sexo, pertencente à segunda parte do livro.

Mas uma das coisas mais lindas sobre essa obra é o fato de, além de ter sido escrita por uma mulher lésbica, sua equipe de profissionais envolvidos para a produção foi composta por mulheres. Destas, oitenta por cento delas são lésbicas, bissexuais ou pansexuais. A representatividade, valorização do trabalho e visibilidade ultrapassa a autoria. Soutello acertou em cheio com seu livro de estreia e me arrebatou com ele. 

“Já faço das minhas memórias costura. Mas acho as cicatrizes, quando após, desenhos tão inteiros. São peles em grito. Elas dizem: existi e existo, nunca a mesma.”

Gabriela Soutello – Ninguém vai lembrar de mim

Ficha técnica

Título: Ninguém vai lembrar de mim
Autora: Gabriela Soutello
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Editora: Pólen Livros
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.