Indicação #04: Cinco livros para despertar a mulher selvagem por MUM

No mês de maio temos a nossa convidada MUM – cantora, compositora, escritora e a mais nova membra da Pássaro Liberto – indicando literaturas para acordar a mulher selvagem que há dentro de todas as mulheres. Confira a listinha abaixo:

Mulheres que correm com os lobos – Dra. Clarissa Pinkola Estes

Através da interpretação de 19 lendas e histórias antigas, entre elas as de Barba-Azul, Patinho Feio, Sapatinhos Vermelhos e La Llorona, a autora procura identificar o arquétipo da Mulher Selvagem ou a essência da alma feminina, sua psique instintiva mais profunda. E propõe o resgate dese passado longínquo, como forma de atingir a verdadeira libertação.

Tudo nela brilha e queima – Ryane Leão

Livro de poesias sobre amor,desapego, rotina, as cidades que nos atravessam, os socos no estômago que a vida dá, o coração desenfreado, a pulsação que guia as estradas, os recomeços, os dias, as noites, as madrugadas, os fins, os jeitos que a gente dá, as transições,os discos, os tropeços, as partidas, as contrapartidas, os pés firmes que insistem em voar, e tudo isso que é maluco e lindo e nos faz ser quem somos.

Uma Duas – Eliane Brum

Livro de sobre como é tecida a trama de ódio e afeto entre duas mulheres (des)unidas pela carne. Uma duas é um retrato expressionista tão dramático quanto nauseante que foge de clichês e eufemismos que costumam cercar o tema.

O mito da beleza – Naomi Wolf

Livro da jornalista Naomi Wolf que afirma que o culto à beleza e à juventude da mulher é estimulado pelo patriarcado e atua como mecanismo de controle social para evitar que sejam cumpridos os ideais feministas de emancipação.

Lua Vermelha – Miranda Gray

Em Lua Vermelha, Miranda Gray resgata a sabedoria do sagrado feminino para mostrar às mulheres modernas como elas podem voltar a aceitar a sua natureza cíclica e se reconciliar com todos os aspectos da feminilidade.

Indicação #03: Seis livros desavessos

A indicação desse mês de abril (agora nossas indicações mensais são com convidados) são as mulheres do Desavesso: Mafer e Nicoly. Confira as leituras que elas recomendam na lista abaixo.

Admirável mundo novo – Aldous Huxley

Uma distopia social para o ano de 2540 com sociedade inteiramente organizada segundo princípios científicos. O ser humano é incorporado em um universo que louva o avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série.

O menino do pijama listrado – John Boyne

A história se passa durante o período do Holocausto, tendo como personagem principal, Bruno, filho de um militar alemão, que faz amizade com um garoto do outro lado da cerca, que curiosamente tem a mesma idade que ele.

Nu de botas – Antonio Prata

O enredo revisita as memórias da infância de Antonio Prata com o mesmo humor das crônicas publicadas nos jornais. Contudo ao olhar para o passado o autor não carrega a nostalgia de um adulto, mas revive o menino que sempre foi.

O milagre da manhã – Hal Elrod

Um método eficaz para às 08h da manhã. O livro aborda os benefícios de acordar cedo e desenvolver todo o potencial de quem se arrisca a mudar de hábitos.

A lua que existe em mim – Isadora Sofia

Um livro sobre formas e frases sobre sentir demais. Uma coletânea com muito sentimento nas páginas que trata do caos e a intensidade de se permitir ser.

Nada dura para sempre – Sidney Sheldon

A história de três amigas com personalidades bastante diferentes, mas unidas pela emoção de trabalhar no Hospital Público Embarcadero em uma rotina de completa correria e contratempos.

Resenha #19: ‘Mais ao sul’ da Paloma Vidal

Foto: Ana Istschuk

Por Ana Istschuk

Sabe aquele breve momento entre o acontecer das coisas? Aquele momento em que você está indo fazer algo importante, ou que quer muito, ou se preparando para falar com alguém, para bater numa porta… Momentos que, por vezes, não parecem breves, mas parecem se estender por horas e horas. 

Ou aquela ocasião em que você começa a se dar conta de coisas da sua vida, inicia reflexões, se sente assombrada por fantasmas do passado, quer muito contar algo e não sente que tem forças pra isso…

Mas falo desses momentos apenas. Sem histórias com começo, meio e fim, necessariamente, ou com todas as informações ditas, com todas os fechos de possibilidades concluídos.

É com esses momentos que quase nunca são os protagonistas sozinhos e únicos que se desenha “Mais ao sul”. E foi justamente por tratar dessas situações que o livro me encantou tanto. 

Obviamente a obra não foca apenas nisso, nem é a grande questão do texto, mas foi o que mais me despertou atenção. Esses instantes narrados numa lentidão como a qual sentimos às vezes quando nos deparamos com circunstâncias análogas e com uma cronologia e ordenação do recorte temporal do qual se tratava o texto que me pareceram realistas. Isto é, com a lentidão que garante a descrição do momento e com uma disposição de informações que me parecem se assemelhar naturalmente a um fluxo de consciência – que não tem sempre todos os dados de uma história no momento em que acessamos a ele.

Em dez contos, divididos em duas partes: viagens e fantasmas, Paloma Vidal aproveita o esticar dos momentos para desenvolver muito bem em poucas páginas personagens fortes e marcantes. Com uma escrita descritiva, um texto de leitura fácil, histórias e contextos interessantes, a autora me conquistou com seu livro e me deixou com vontade de ler mais de sua obra. 

Ficha técnica:
Título: Mais ao sul
Autora: Paloma Vidal
Ano e país de publicação: 2008, Brasil
Editora: Língua Geral
Estrelas: 5

Resenha #18: ‘Todos nós adorávamos caubóis’ de Carol Bensimon

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por: Luana Caroline Nascimento

Todos nós adorávamos caubóis é um romance de camadas, cada leitura irá desabrochar em uma viagem diferente. Todo mundo uma vez na vida sentiu vontade de largar tudo e cair na estrada numa viagem sem destino certo. Sem sombra de dúvida é um dos meus enviados prediletos da TAG Curadoria e daqueles que quero que todo mundo leia. As personagens fazem uma viagem que todo mundo deveria fazer, mas não falo de conhecer o interior do país e sim conhecer o interior de si.

A viagem da Cora (personagem principal da obra) trata-se disso, ela está se redescobrindo e desconstruindo. Ela vive a sensação de rejeição do pai perante o meio-irmão que vai nascer e mesmo tentando passar a aparência de independente Cora está solitária e não consegue lidar com isso.

“E agora meu pai ia ter um filho. Fazia meses que eu digeria essa notícia. Mesmo assim, talvez porque eu me encontrasse a milhares de quilómetros de distância, aquilo ainda me parecia um bocado irreal. Meu meio-irmão já tinha um grau de concretude. […] Pensando bem, talvez faltasse concretude era em mim mesma. […] Mas tudo isso só indicava que eles tinham me reservado um ótimo lugar do lado de fora”

Todos nós adorávamos caubóis de Carol Bensimon

Eliane Brum constrói uma narrativa fantástica em Umaduas ao escancarar uma relação de mãe e filha que não é romantizada, aqui em “Todos nós adorávamos caubóis” também temos duas personagens que vivem relações tóxicas (para usar o termo em voga) com as famílias. Cada uma encontra na outra o conforto para enfrentar os conflitos que tem com a família.

O drama familiar de Julia é o confronto adiado com o irmão. Julia veio do interior, era a menina pacata, recatada (em oposição a Cora que era rebelde sem causa) e viveu anos para aceitar em si sua sexualidade e seu inconformismo com o que a vida reservou para a própria cunhada, Gisele.

No capítulo em que Julia enfrenta o irmão Mathias sobre o machismo presente nas falas dele há uma frase, uma única frase que resume a inconformidade que Julia estava passando. “A mulher submissa abraça qualquer culpa sem hesitar”. Ela nasceu em uma família que ser submissa era normal, mas descobriu que o mundo poderia ser dela e ela dona do próprio destino. Ninguém que descobre o tamanho do universo volta a viver em um grão de areia e está tudo bem nisso. Por mais óbvio que isso pareça as vezes precisamos que alguém nos diga que está tudo bem isso.

Título: Todos nós adorávamos caubóis
Autor: Carol Bensimon
Ano e país de publicação: 2013, Brasil
Número de páginas: 196
Editora: Companhia das Letras
Estrelas: 5

Resenha #17: ‘O peso do pássaro morto’ da Aline Bei

Foto: Ana Istschuk

Por Ana Istschuk

Morte. 

Perda, ferida, renúncia e abandono. Uma vida cheia de morte. Quanta morte cabe numa vida? “A cura não existe”, descobre tristemente a personagem sem nome e protagonista do primeiro romance da escritora paulista Aline Bei. 

Acompanhamos pela transformação da narrativa o crescimento e amadurecimento da personagem que nos conta sua vida dos 8 aos 52 anos (escrever é mais forte). Uma vida com muito peso de coisas mortas e de violentas coisas vivas. 

De forma seca e direta, como a vida é, assim como simples e poética, como ela também é, Bei escreve uma história muito envolvente e imersiva, mesmo que não linear e permeada de frases que ora são lembranças contadas, ora são cenas vividas e ora são pensamentos e reflexões.

A criação da personagem protagonista é feita de forma que qualquer pessoa possa se identificar com suas reflexões e questionamentos existenciais. Uma personagem que por falta de definição – feliz escolha da autora – cabe em tantas diversas mulheres.

Cheio de simbolismos e significados, o livro nos arrebata e destrói, nos marcando profunda e inevitavelmente. Mas não é uma destruição ruim. Mortes metafóricas a partir de mortes físicas e morte física com sonho de vida. Sobrevivência.

Sem mais saber como falar desse livro sem contar detalhes importantes que podem revelar a história para quem não a conhece, deixo um trecho para aumentar a curiosidade pela busca da obra: 

é um menino. – o médico disse
e colocou o bebê
no meu colo.
eu estava chorando
de cansaço,
olhei praquela criança
também chorosa, ela que
não fazia ideia
do que é no mundo nascer um menino,
alguém precisa contar.
não da parte física, claro,
isso ela vai descobrir sozinho
e muito rápido,
alguém precisa contar da outra parte, doutor,
as mulheres
abusadas nas trincheiras e
nos viadutos
não estão nos livros de história.
os ditadores sim
todos em itens
numa longa biografia.
olho para o meu Filho,
ele está
quente,
magro demais.
a enfermeira pega ele de volta
todo mundo está sorrindo
e eu precisando contar
pro menino
tanta coisa,
a maioria
triste.
o ser humano, filho, matou um alce
e também a África.
também a
Amazônia. também o boto
cor de rosa, também o Rio.
quando um bebê nasce
é preciso contar devagar pra ele
sobre a terra,
o futuro
espera numa concha.

Aline Bei – O peso do pássaro morto

Ficha técnica:
Título: O peso do pássaro morto
Autora: Aline Bei
Ano e país de publicação: 2017, Brasil
Editora: Nós
Estrelas: 5