Resenha #29 “transespírito” de Mel Bevacqua

Foto: MUM

Por MUM

28 de julho de 2020

Livros de capa vermelha sempre me chamam atenção. Acho que o vermelho que pulsa na veia, que desce pelas pernas e que queima nos olhos querem contato com todo o tipo de vermelho que também escorre, queima e pulsa. E foi isso o que eu encontrei dentro deste livro.

Foi a primeira vez que eu li um livro de uma travesti, mãe, feiticeira, taróloga, orácula, professora e artista multifacetada. Mel Bevacqua. Já fazem tempos que acompanho o trabalho da Mel de longe e agora “Transespírito” me trouxe pra perto, entrando, dentro do trânsito, dos transes do espírito.

Recebi esse livro em casa com o maior carinho e uma dedicatória tauriníssima pra uma tauriníssima do meio da terra “envio um quatro de ouros como marcador, carta que nos dá firmeza e estrutura”, e a partir dai entrei no transe que só poderia ter sido “escrito por uma travesti através do transe das palavras.”

Me alimentei das palavras, da paixão e de cada encontro sozinha ou juntas.

Me conectei com a escrita desse livro de uma forma muito visceral da introdução “sou uma escrita de pernas e braços, sou letras e garganta” ao final “existem tantas maneiras de compreender o tempo, mas sempre se entende o mesmo tempo” sem ponto final.

Pra Mel, o transe é contínuo no tempo.

Pra finalizar, deixo esse poema que tanto me identifiquei por ser uma árvore com excesso de terra, porém com falta de água e muito fogo. Desequilíbrios que as vezes podem queimar, mas tudo bem ter desequilíbrios no mapa astral “afinal é só esse excesso de terra que faz uma árvore”.

“a árvore tão inteira e tão desequilibrada. Aposto que ela olha seu mapa astral e diz tenho pouco fogo, não tenho nada de fogo, sou muito terra, tenho um pouco de ar e um pouco de água, mas sou muito terra. Mas logo ela percebe que está viajando e que o fogo nem faria tão bem pra ela assim, que o fogo a secaria, que o equilíbrio é brega e que é ótimo ter desequilíbrios no mapa astral, afinal é só esse excesso de terra que a faz uma árvore.”

FICHA TÉCNICA

Título: transespírito
Autora: Mel Mevacqua
Ano e país de publicação: 2020, Brasil
Editora: Imaginario
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #28: ‘Transderella’ de Lino

Foto: Luana Caroline

Por Luana Caroline Nascimento

Acho que não há sensação melhor no mundo quando nos deparamos com um personagem de um livro e pensamos “essa pessoa sou eu. Esse livro foi escrito para mim”. Quantas vezes não encontramos pequenas porções de nós em livros, filmes e músicas e temos eles como referência, um lugar para onde queremos voltar quando precisamos de acalento. E é por isso que a representatividade importa tanto, pois todo mundo tem o direito de se sentir incluso no grande mundo da literatura.

É por isso que nosso ninho aqui da Pássaro Liberto é um ninho de amor, o amor de Cindy e Malik. Acreditamos na literatura inclusiva, das pessoas normativas, negras, homossexuais, fada drag madrinha e das pessoas transexuais – insira aqui quem mais for do bonde do amor. É aqui que entra o mundo encantado de Transderella. Ainda não sei me expressar sobre esse livro, não fazem cinco minutos que terminei a leitura e precisei sentar na frente do computador para redigir esse texto que você agora está lendo.

Eu amei tanta coisa nesse mergulho literário que não sei o que apontar primeiro. A mulher trans tratada como igual e vivendo um romance digno de uma princesa em um grande castelo. Ao lado da melhor Fada Drag Madrinha que já conheci e com certeza uma das minhas personagens favoritas da literatura brasileira. É uma história gostosa, rápida de ler, contudo é uma história para ficar no coração-leitor para todo sempre.

O livro aborda as questões de gênero e sexualidade de uma forma tão simples, leve e tranquila; tais como elas deveriam ser vistas na sociedade. Por isso quando alguém disser que não entende nada do mundo LGBTQIA+ indique o livro “Transderella” sem mais demora. Mesmo os personagens vilões nos despertam compaixão, pois são pessoas machucadas pelo machismo e pela gordofobia e que refletem as cicatrizes que carregam.

Não darei mais spoilers dessa obra que reconta o clássico da Cinderela com uma personagem trans como protagonista. Ao Lino, o ser humano que deu vida a essa obra, todo meu amor e admiração.

FICHA TÉCNICA

Título: Transderella
Autora: Lino
Ano e país de publicação: 2019, Brasil (2ª edição)
Editora: Se Liga Editorial
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #27: ‘Cartas para ninguém’ da Diana Salu

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Ana Istschuk

Quando sento para escrever uma resenha, em geral, sinto certo receio. É que não sei ao certo como falar de uma autora e de sua obra sem usar as palavras escritas por ela em sua criação. Sinto que, por mais que eu me esforce, minhas palavras são insuficientes para contar o que foi o livro e a experiência de leitura. E não raro recorro ao uso de palavras, expressões e olhares que existem no livro para compor o meu texto – o que nem sempre o torna compreensível.

Nunca antes de “Cartas para ninguém” da Diana Salu tinha me sentido tão fora de lugar para escrever. Como falar de um livro sobre o encontro de alguém consigo mesma?! Mas não de qualquer um no processo de conhecimento de si, mas de um alguém que é mulher-travesti-sapatão achando a si mesma em cartas que escreveu para ninguém (que na verdade são para um alguém: para ela mesma, numa autorreferência).

Certamente é desconcertante, além de emocionante, se deparar com a obra de Salu. Ela mostra que a linha pontilhada trilhando o caminho percorrido na busca de encontrar alguém que você reconheça como você mesmo, por mais que seja incerto, é mais importante que o xis no mapa marcando a chegada. Que esse caminho é permeado, por vezes, de medo e de solidão resultante e resultado de crises de (auto)consciência. 

Os quadrinhos da autora nos mostram que parte do processo de se conhecer é saber que é possível se encontrar nas falhas, que esse processo envolve borrar e riscar certezas, reescrever a grafia da vida, a biografia. 

E a vida grafada no livro de Salu nos convida a aprender a ver as histórias que as ruínas (em nós) nos contam, sobre ter ciência de que sempre fica algo de tudo e qualquer coisa-experiência que tenha sido nossa. 

Saber sobre si é entender que por mais que se deseje ser outro, ver pelos olhos de outro, viver como outro, você só pode ser você. É isto que te cabe, com isso escreverá a tua história. E com toda essa jornada em busca da descoberta de si, do autoamor, vem a necessidade do cuidado, de se autocuidar continuamente, para poder flores(c)er.

As cartas enquadrinhadas de Salu revelam a anatomia de uma travesti sapatão que merece e deve ser ouvida. Uma de muitas vozes que estão a falar e escrever suas vivências. Histórias que podem ser encontradas na cole-sã escrevivências da padê editorial que aposta, publica e dá espaço para narrativas LBTs. Cale-se um pouco e escute mais. Nos outros também podemos encontrar nós mesmos.

FICHA TÉCNICA

Título: Cartas para ninguém
Autora: Diana Salu
Ano e país de publicação: 2019, Brasil (2ª edição)
Editora: Padê editorial
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #23: ‘Lundu’ da Tatiana Nascimento

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por MUM

5 de maio de 2020

Acordei com o sol me dizendo que já era hora de esticar, de esquentar dentro e fora pra além das cobertas. Comecei a ler LUNDU numa madrugada de insônia bem antes do dia de hoje. Pesei a leitura junto com os olhos. Sentia, mas não entendia. Não era meu plano terminar “LUNDU” hoje, mas quem disse que tudo precisa de um plano? O inesperado tem sido uma fuga da rotina. O vento externo trouxe Tatiana de volta.

Conheci Tatiana há pouco tempo por uma amiga e minha primeira impressão foi um encantamento. Seus poemas são como feitiços rítmicos abracadêmicos. Fui encantada por suas palavras (des)conectadas, cruas e dançantes.

E como dançam essas palavras! Nos olhos, na boca, no corpo e nas páginas. As páginas são desenhadas pelas palavras que preenchem lugares específicos, às vezes de cabeça pra baixo, às vezes num cantinho, às vezes silêncio. Pra mim, que trabalho com música, enxergo todo aquele espaço em branco como silêncio, pausa, fazendo parte do texto, trazendo o ritmo.

E que diferença faz quando em som. O ar passando pelas cordas vocais na pronuncia do todo. “Batuque úmido ancestral do vento”.

LUNDU me trouxe balanço, alegria e choro de cunho individual, de cunho coletivo. Algumas coisas muito sentidas, outras coisas apenas ouvidas de quem sentiu e sente.

Acho que meu poema favorito foi o que me fez sentir saudade da família, tenho pensado bastante nela essa semana.  Muito obrigada por “Manhã” y por todas as palavras que me fizeram tatear tambores no meu interior. 

FICHA TÉCNICA

Título: Lundu
Autora: Tatiana Nascimento
Ano e país de publicação: 2016, Brasil
Editora: Padê editorial
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #22: ‘Coração na aldeia, pés no mundo’ da Auritha Tabajara

Foto: Ana Istschuk

Por Luana Caroline Nascimento

A história de uma princesa sem um grande castelo ou um príncipe para salvá-la do dragão. No livro “Coração na aldeia, pés no mundo” da indígena Auritha Tabajara conhecemos a jornada da escritora que saí da própria aldeia onde nasceu para conhecer o mundo. A jovem indígena conheceu desde o mundo a maldade humana. Tudo narrado na forma de cordel e com xilogravuras da paranaense Regina Drozina, o enredo se passa no nordeste brasileiro desde o nascimento da pequena até a vida adulta.

Auritha é a primeira mulher indígena a publicar um livro de cordel, gênero brasileiro marcado pela figura masculina. Para a autora a literatura significa duas coisas principais: a autoexpressão e a resistência da mulher indígena. Porque tudo na história e arte de Auritha é resistência, desde a relação com a avó parteira e benzedeira que ela carinhosamente chama de Mãe-Vó, a relação com as filhas e as orações que faz a Tupã.

Ser mulher no Brasil é também uma resistência e a autora com toda a poesia que nela é natural descontrói os estereótipos atribuídos à mulher indígena que não é uma “fantasia”. Não é possível saber se o cordel é biográfico ou autoficção porque tudo parece muito sincero. Para nós fica a lição do amor-próprio, de seguirmos nossos sonhos e anseios. Nossos pés estão no mundo e podemos ir aonde quisermos, afinal lugar de mulher é aonde ela quiser: na aldeia, na literatura, no cordel e na presidência. Sejamos Auritha, a princesa que não precisa ser salva por um homem porque sabe exatamente aonde quer chegar sem nunca esquecer das próprias origens. O livro “Coração na aldeia, pés no mundo” fez parte do projeto “Desatravancando voos” apresentado no Instagram do Pássaro Liberto pelo edital ‘Em casa com cultura’ da Prefeitura de Ponta Grossa e integra o acervo da Biblioteca Solidária Professora Aparecida de Jesus Ferreira.

Ficha técnica

Título: Coração na aldeia, pés no mundo
Autora: Auritha Tabajara
Ano e país de publicação: 2018, Brasil
Editora: Uk’a Editorial
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.