Resenha #21: ‘Ninguém vai lembrar de mim’ da Gabriela Soutello

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Ana Istschuk

[escorre uma lágrima ardida para quebrar o silêncio]

Existir deixa marcas, fissuras, cortes e cicatrizes. E enquanto existimos, por vezes, buscamos construir um ser, quem somos. Mas quem nos olha de volta quando nos vemos no espelho pode nos parecer uma estranha que rege e mora dentro desse corpo – que habito?

Ninguém vai lembrar de mim” da Gabriela Soutello é um livro essencialmente sobre essa construção do ser. Também é sobre solidão, o que faz sentido ao considerarmos que se construir é um processo solitário, apesar das nossas interações com os outros e com o mundo terem impactos em nós. 

É a solidão, temida e necessária. É o existir que pesa e as lembranças constantes das coisas que existem “lá fora”, no não-dentro. Um “lá fora” que enfrentamos com versões nossas – ou máscaras de gesso, argila e osso, como põe a autora. Quem somos com elas? Quem somos sem elas?

Se pareço estar expondo reflexões fragmentadas, me perdoem, é que o livro é inteiro fragmentado, quebrado (até em algumas fotos). E me levou a senti-lo assim: em pedaços, em três pedaços: as três partes do livro.

É um livro de contos? Sim, mas ele tem uma unidade, paradoxalmente, tão forte que parece um romance. Ou melhor, um monólogo poético em prosa. Além do capricho da narrativa, a diagramação do livro é de tirar o fôlego. Vermelho. Capa vermelha, fotos vermelhas, palavras vermelhas. O livro parece ter sangue percorrendo por suas páginas. Um livro vivo, histórias vivas.

Assim como os pedaços de vida narrados que contam relações entre mulheres, relações descritas de uma maneira que mostra a complexidade de relacionar-se com alguém – nem sempre de forma harmoniosa – que é um mundo inteiro e diferente de você. E, claro, também trata das marcas que essas relações deixam em quem somos: “[…] o rasgo que você abriu e me permitiu me enxergar assim numa análise bem fake psicanalítica, autointerna mesmo, eu mulher, eu, mulheres, rasgo assim sexual, rasgo assim estrutura.” p. 36 – este trecho é de uma narrativa de sexo, pertencente à segunda parte do livro.

Mas uma das coisas mais lindas sobre essa obra é o fato de, além de ter sido escrita por uma mulher lésbica, sua equipe de profissionais envolvidos para a produção foi composta por mulheres. Destas, oitenta por cento delas são lésbicas, bissexuais ou pansexuais. A representatividade, valorização do trabalho e visibilidade ultrapassa a autoria. Soutello acertou em cheio com seu livro de estreia e me arrebatou com ele. 

“Já faço das minhas memórias costura. Mas acho as cicatrizes, quando após, desenhos tão inteiros. São peles em grito. Elas dizem: existi e existo, nunca a mesma.”

Gabriela Soutello – Ninguém vai lembrar de mim

Ficha técnica

Título: Ninguém vai lembrar de mim
Autora: Gabriela Soutello
Ano e país de publicação: 2019, Brasil
Editora: Pólen Livros
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #10: ‘Um útero é do tamanho de um punho’ da Angélica Freitas

Foto: Bruna Kosofski

Por Ana Istschuk

a mulher é uma construção
deve ser

a mulher basicamente é pra ser
um conjunto habitacional
tudo igual
tudo rebocado
só muda a cor
[…]
nada vai mudar –

nada nunca vai mudar –

a mulher é uma construção

Um útero é do tamanho de um punho. É do tamanho do punho de uma mulher. O punho fechado ou aberto de uma mulher? O título do livro da Angélica Freitas, por si só, já provoca milhares de percepções e cogitações. Os poemas dentro dele também.

E é sobre a mulher que se trata este livro. Ser mulher. Mulher que sofre opressões, pressões e censuras. A mulher que tem que ser limpa, boa, mansa, bela e limpa de novo – “porque uma mulher boa/é uma mulher limpa/e se ela é uma mulher limpa/ela é uma mulher boa”. Uma mulher de que tudo se aproveita. Uma mulher domesticada. Uma construção.

Mas os “3 poemas com auxílio do Google” me foram especialmente impactantes. Neles, Angélica Freitas expoẽ o que se é relacionado quando se busca saber onde a mulher vai, o que a mulher pensa e o que a mulher quer – o que em partes evidencia a mulher como construção, como previsível e mansa, ao mesmo tempo que critica essas antecipações características de quando se é mulher.

A autora trata sem eufemismos de situações que, infelizmente, são familiares a nós, mulheres. Como na parte “mulher de”, que traz as mulheres de vermelho, as de valores, as de posses, as depois, as de rollers, as depressa, as de um homem só, as de respeito, as de malandro e as de regime. A realidade das mulheres-de em poesia.

Enfim, um útero é do tamanho de um punho e foi um livro que escolhi pela capa e eu “não queria fazer uma leitura/equivocada/mas todas as leituras de poesia/são equivocadas”.

Ficha técnica:
Título: Um útero é do tamanho de um punho
Autora: Angélica Freitas
Ano e país de publicação: 2012, Brasil
Editora: Companhia das letras (poesia de bolso)
Estrelas: 5