Resenha #38: ‘Onírica’ de Phellip William e Melissa Garabeli

Foto: Ana Istschuk

Por Ana Istschuk

Sonho sempre foi um assunto que, sem algum motivo muito consolidado, me interessava muito. As histórias que vivemos nesse mundo inteiro e todo nosso, onde tanta coisa é possível, são encantadoras ao mesmo tempo em que podem nos perturbar terrivelmente.

“Onírica” foi assim para mim: encantador e perturbador. O quadrinho, de texto do Phellip William e de ilustração da Melissa Garabelli, traz cinco histórias-sonhos que nos levam pra esse mundo ficcional que vivemos na realidade.

E como em vários de nossos sonhos, algumas histórias parecem sem fim, inacabadas, interrompidas. A minha preferida é assim. Sua última página é rasgada – manualmente! Que cuidado e capricho lindo, pessoal – nos arrancando – literalmente – o final da história.

Comprei esse livro do casal quando eles expunham com a Velociraptor Pirata na feirinha da Estação Saudade. Não lembro ao certo em que ano foi isso, mas acredito ser perto do lançamento, em 2015. Na época ouvi do Phellip: São sonhos que a Melissa teve quando criança e alguns são bem perturbadores (acredito que foi algo nessa linha, se minha memória não me pregou uma peça). 

De fato eles souberam explorar o potencial de produção que esse estado tão criativo que é o sonho pode proporcionar. Mas não se engane, esses sonhos de criança não tornam o livro leve, infantil ou lúdico. O quadrinho tende muito mais ao tenebroso e assustador ao trabalhar com medos muito reais e humanos. 

Uma leitura rápida, surpreendente, com ilustrações lindas – em preto e branco que ajudam a criar a atmosfera que o livro quer passar – e algumas preciosidades em texto. É um livro que recomendo, principalmente para quem é fã das produções maravilhosas desse casal.

FICHA TÉCNICA

Título: Onírica
Autora: Phellip William e Melissa Garabeli
Ano e país de publicação: 2015, Brasil
Editora: Criado Mudo/Independente
Avaliação:

Avaliação: 4 de 5.

Resenha #37: ‘Meu pai é um homem da montanha’ de Bianca Pinheiro e Gregório Bert

Foto: MUM

Por MUM

Eu conheci Bianca Pinheiro em uma lista de internet sobre HQ’s brasileiros de terror e foi paixão a primeira vista. Meio que fiquei obcecada pela estética do livro presente nessa lista: “Dora”.

Não é de hoje que histórias de terror me intrigam, mas meu gosto para terror é um tanto quanto subjetivo até pra mim, mas o traço de Bianca me chamou de alguma forma. Mas hoje não é de Dora que vamos falar (quem sabe em breve), mas sim de “Meu pai é um homem da montanha” emprestado pelo meu amigo Phellip (que também é roteirista de quadrinhos). Quando descobri Bianca, já sabia que o Phe poderia ter algum livro dela pra me emprestar, dito e feito. Muito obrigada amigo!

“Meu pai é um homem da montanha” é um HQ feito por Bianca Pinheiro (ilustradora, quadrinista e roteirista) e Gregório Bert (tradutor e roteirista) que fala sobre o passado de uma filha e seu pai “o homem da montanha”. Acho que talvez seja um tipo de terror psicológico, mas não sei bem se seria essa a definição. O roteiro é tão exato, dosado e ao mesmo tempo não concreto, que te transporta diretamente pra montanha e te mergulha na pele da protagonista seja pelas questões literais ou metafóricas (relacionada à separação dos pais e a ausência do pai).

Posso dizer com tranquilidade que essa HQ se tornou uma das minhas preferidas agora. O mistério que cada quadrinho trás, o ritmo da história e o final encaixadamente perfeito. É uma leitura bem visual pra ser consumida lentamente.

 Eu pessoalmente, sou uma pessoa com muitos medos sendo o escuro um dos mais pavorosos pra mim. É como se tudo de ruim estivesse escondido ali, pronto pra me devorar. Em uma parte específica da HQ, Bianca consegue me fazer sentir o escuro visualmente me engolindo e eu tão pequena ali no meio dele.

FICHA TÉCNICA

Título: Meu pai é um homem da montanha
Autora: Bianca Pinheiro e Gregório Bert
Ano e país de publicação: 2015, Brasil
Editora: Publicação independente
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Resenha #27: ‘Cartas para ninguém’ da Diana Salu

Foto: Luana Caroline Nascimento

Por Ana Istschuk

Quando sento para escrever uma resenha, em geral, sinto certo receio. É que não sei ao certo como falar de uma autora e de sua obra sem usar as palavras escritas por ela em sua criação. Sinto que, por mais que eu me esforce, minhas palavras são insuficientes para contar o que foi o livro e a experiência de leitura. E não raro recorro ao uso de palavras, expressões e olhares que existem no livro para compor o meu texto – o que nem sempre o torna compreensível.

Nunca antes de “Cartas para ninguém” da Diana Salu tinha me sentido tão fora de lugar para escrever. Como falar de um livro sobre o encontro de alguém consigo mesma?! Mas não de qualquer um no processo de conhecimento de si, mas de um alguém que é mulher-travesti-sapatão achando a si mesma em cartas que escreveu para ninguém (que na verdade são para um alguém: para ela mesma, numa autorreferência).

Certamente é desconcertante, além de emocionante, se deparar com a obra de Salu. Ela mostra que a linha pontilhada trilhando o caminho percorrido na busca de encontrar alguém que você reconheça como você mesmo, por mais que seja incerto, é mais importante que o xis no mapa marcando a chegada. Que esse caminho é permeado, por vezes, de medo e de solidão resultante e resultado de crises de (auto)consciência. 

Os quadrinhos da autora nos mostram que parte do processo de se conhecer é saber que é possível se encontrar nas falhas, que esse processo envolve borrar e riscar certezas, reescrever a grafia da vida, a biografia. 

E a vida grafada no livro de Salu nos convida a aprender a ver as histórias que as ruínas (em nós) nos contam, sobre ter ciência de que sempre fica algo de tudo e qualquer coisa-experiência que tenha sido nossa. 

Saber sobre si é entender que por mais que se deseje ser outro, ver pelos olhos de outro, viver como outro, você só pode ser você. É isto que te cabe, com isso escreverá a tua história. E com toda essa jornada em busca da descoberta de si, do autoamor, vem a necessidade do cuidado, de se autocuidar continuamente, para poder flores(c)er.

As cartas enquadrinhadas de Salu revelam a anatomia de uma travesti sapatão que merece e deve ser ouvida. Uma de muitas vozes que estão a falar e escrever suas vivências. Histórias que podem ser encontradas na cole-sã escrevivências da padê editorial que aposta, publica e dá espaço para narrativas LBTs. Cale-se um pouco e escute mais. Nos outros também podemos encontrar nós mesmos.

FICHA TÉCNICA

Título: Cartas para ninguém
Autora: Diana Salu
Ano e país de publicação: 2019, Brasil (2ª edição)
Editora: Padê editorial
Avaliação:

Avaliação: 5 de 5.

Indicação #01: Cinco HQs por Melissa Garabeli e Phellip William

As nossas indicações mensais mudaram de formato! Agora temos convidados indicando leituras uma vez ao mês aqui no Blog. Para Fevereiro, os finalistas do 61º Prêmio Jabuti (2019) Melissa Garabeli e Phellip William – confira nossa resenha do livro indicado aqui – indicaram cinco quadrinhos para leitura.

Corenstein – Cora Ottoni

“Corenstein” é uma coletânea de tirinhas (quase sempre) autobiográficas. Através do humor e da linguagem dos quadrinhos a autora lida com as ansiedades da vida do jovem adulto e as pequenas vergonhas do dia-a-dia.

Alho-poró – Bianca Pinheiro

A história gira em torno de um grupo de amigas que está procurando por alho-poró para fazerem um quiche de alho-poró. O livro foi publicado em 2017 de forma independente e em 2018 Alho-Poró ganhou o Troféu HQ Mix em duas categorias.

Quadrinhos A2 – Cristina Eiko e Paulo Crumbim

Os Quadrinhos A2 são publicados desde 2011 com cinco volumes disponíveis. As histórias são autobiográficas dos criadores (e do amigo de quatro patas Pino), mas, claro, com um pouquinho de fantasia e ficção científica.

Se meu cão falasse tudo seria poesia – Dogzilla

Dedicado, como o próprio nome já diz, ao melhor amigo do ser humano o livro aborda críticas sociais do modo de vida contemporânea sob o ponto de vista do animal, e, nisso, tudo, o lugar do cachorro no nosso cotidiano.

Angola Janga – Marcelo D’salete

O livro narra a história do maior quilombo brasileiro, marco de resistência na luta contra a escravidão. Angola Janga significa “pequena Angola”. O autor pesquisou e preparou-se para contar a história do livro por onze anos.