A resenha de abril da Ana é sobre o livro “Canções de atormentar” da poeta gaúcha Angélica Freitas. O livro reúne poemas escritos entre 2008 e 2020 que versam sobre machismo, situação do país, entre outros assuntos de uma forma crítica, humorada e irônica. Veja o que a Ana achou da leitura!
FICHA TÉCNICA Título: Canções de atormentar Autora: Angélica Freitas Ano e país de publicação: 2020, Brasil Avaliação: 5/5
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O cotidiano é recheado de acontecimentos que rendem registro. Como jornalista, aprendi com a graduação a enxergar esses acontecimentos e transformá-los em histórias vestidas de notícia e reportagem. Mas há cenas da vida em que o que acontece não cabe na roupagem do jornalismo e suas regras. Aí vem a crônica registrando as passagens da vida que valem a pena ter um outro trato.
Para mim, o melhor da crônica é a proximidade que você cria com a leitora atualizada que quer um olhar crítico, humorístico ou de análise dos acontecimentos secos narrados nos jornais. O cronista dá humanidade aos fatos.
Cidinha da Silva – que não é jornalista – captura o dia-a-dia, os acontecimentos jornalísticos e a humanidade dos viventes em seus textos. Não à toa seu livro é intitulado “Sobre-viventes”. São as pessoas, os viventes que só são protagonistas de seus cotidianos as principais “personagens” das curtas – e brilhantes – crônicas da autora.
E no humor e na ironia críticos da escritora é que a leitora lê sobre sexualidade, diversas manifestações de racismo e machismo, relações interpessoais de classe e família, lesbobihomofobia, entre outros assuntos que, apesar de estarem pautados em acontecimentos de 2015/2016, ainda fazem sentido em 2020.
A maestria da cronista está aí, na habilidade de tornar atual textos tão presos aos acontecimentos passados. Cidinha é uma autora que deve ser lida, até mesmo – ou principalmente – por quem não é da área do jornalismo.
FICHA TÉCNICA
Título: Sobre-viventes Organização: Cidinha da Silva Ano e país de publicação: 2016, Brasil Editora: Pallas Avaliação:
No mês de novembro a passarinha Lu Caroline indicou cinco livros para falarmos sobre racismo e a lista está linda. Tem de tudo um pouco, inclusive a obra que inspirou nosso nome. Você sabe qual livro é?
Eu sei por que o pássaro canta na gaiola – Maya Angelou
O livro é uma autobiografia de Maya Angelou e retrata histórias de racismo, abuso e libertação vividas pela jovem que morou com a avó após a separação dos pais. Para Maya a forma de se libertar dos fardos que carregava foi pela escrita. O livro será o tema do encontro do mês de novembro do Clube de Leitura Leia Mulheres PG.
Porque eu não converso mais com gente branca sobre raça – Reni Eddo-Lodge
O livro da premiada jornalista Reni Eddo-Lodge surgiu de um post no blog da autora com o mesmo título que viralizou e despertou a vontade de outras pessoas negras a compartilhar as próprias experiencias de racismo.
Amoras – Emicida
No primeiro livro infantil do rapper Emicida a representatividade é retratada nos inocentes olhos de uma criança que tem orgulho da própria cor. A obra tem ilustrações de Aldo Fabrini. O livro também foi animado e publicado nas redes sociais.
Pequeno manual antirracista – Djamila Ribeiro
Nesta obra a autora Djmila Ribeiro apresenta dez lições de combate ao racismo e de ações concretas para a luta antirracista que está cada dia mais urgente é deve ser abraçada por toda a população. Um livro para ler em um único dia.
Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus
O diário de da catadora de papel Carolina Maria de Jesus é retratado na obra comovente. Além do diário Carolina também escreveu letras de música. Em 2019 a Diálogos Culturais em parceira com a banda Amutuá e a Pássaro Liberto realizou a homenagem “Carolina, Presente” com quatro ações natalinas, entre elas a gravação da música “O pobre e o Rico” e uma adaptação para teatro do livro “Quarto de despejo” que também foi resenhado pelas passarinhas.
É fim de mês aqui. No livro é fim de festa. Fim da névoa. Fim do porre. Descobri a literatura de Renata Wolff pela editora Dublinense. O livro “Fim de Festa” finalista do Prêmio Jabuti 2016 chegou na minha casa e eu devorei as páginas muito mais rápido do que imaginava. É uma leitura envolvente de uma obra extremamente bem escrita e delicada.
O livro Fim de Festa, da Renata Wolff publicada pela editora Dublinense, é uma coletânea de contos, porém há quatro personagens: Ana, Pedro, Sérgio e Carol que aparecerem em vários contos. Sérgio e Carol são um casal que se conhecem na festa de casamento de Ana e Pedro e durante as histórias que vemos o amor dos recém casados ficar abalado os dois novos pombinhos estão cada vez mais apaixonados para aquecer nossos corações de eternas adolescentes leitoras de romances. A obra foi finalista do Prêmio Jabuti 2016.
Há dois contos sobre amizades que foram os mais impactantes na minha leitura: “Roda Gigante”, que leio um trecho nas nossas redes sociais, e “Aviões de papel”. Cada história se passa em uma festa diferente e trata do amor entre amigos de uma forma delicada. Em ambas as histórias vemos amigos precisando ajudar o outro em algum momento difícil e neste momento pandemico que vivemos não há nada que nos de mais saudades do que estar com nossos amigos. É uma leitura envolvente de uma obra extremamente bem escrita e delicada.
Todas as histórias, amores e romances acontecem em alguma festa e a narrativa da história se estende até a manhã seguinte. Quando a ressaca começa. Assim como no nosso ninho aqui da Pássaro Liberto o livro tem personagens lésbica, gorda, heteronormativa, travesti, gay e negra. Nessa festa não há espaço para o preconceito e a ignorancia. Que assim seja nossa literatura sempre!
FICHA TÉCNICA
Título: Fim de Festa Autora: Renata Wolff Ano e país de publicação: 2016, Brasil Editora: Dublinense Avaliação:
Faz chuva, chuva forte. O vento carrega as gotas num bater ritmado. Dançante. Cantante. Li “Nossa poesia” num dia assim antes de hoje.
Quando comecei a leitura não sabia o que iria acontecer, foi tão orgânico e tão fluido que não consegui parar por um segundo. As palavras de Bruna fluíam pela minha garganta que era só uma passagem de ar e eu uma ferramenta da sua palavra e do seu ritmo. Li o livro todo em voz alta, cantei e inventei compassos que talvez pudessem existir também na cabeça de Bruna. Dei notas aquela escrita rimada e penetrante nos poros. Senti.
“Nossa poesia” é o livro de estreia da autora catarinense Bruna Barreto e vem com muitas verdades escancaradas sobre as vivências de uma mulher poeta, preta, sapatão e cheia de palavra viva e perspicaz. Conheci Bruna no ano passado nesses encontros bonitos que a vida de cantante oferece e me tornei apreciadora de sua multiplicidade em fazer arte por todo canto.
O livro “Nossa poesia” faz parte da série “Palavra de Mulher” que traz publicações de autoras catarinenses “que fazem da palavra escrita uma ferramenta para a reafirmação e reinvenção do que é ser mulher no mundo”. E antes de me despedir deixo com você o primeiro poema do livro:
Com palavra me visto, Desde menina. Antes até de saber o que poesia era, Já não me desgrudava dela. Em todos os dias da minha vida, Ela estava presente, Desde o primeiro ralado, Até o cair do primeiro dente. Agora, Já sou menina mulher, Posso ser o que quiser, Mas todo o dia, Quero ser poesia. A palavra me protege, É meu escudo e munição, Com ela, Falo das lutas, E da cegueira, Que carrega uma sociedade, a vida inteira. Em todos os momentos, Sejam eles de calor, Ou nos dias cinzentos, A palavra é o cimento, Dessa minha construção, É o que move todo meu ser, E meu coração. Quando penso em cair, É ela quem segura minha mão, Sem palavra já não posso viver, Já que agora, Somos um só ser.
Bruna Barreto – Nossa poesia
FICHA TÉCNICA
Título: Nossa poesia Autora: Bruna Barreto Ano e país de publicação: 2019, Brasil Editora: Insular Avaliação: